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Vida com expectativa

Posted by Fabiana Bertotti on 5 de junho de 2013 in Crônicas

Enquanto ouço no rádio do carro sobre o aumento da expectativa de vida da população mundial, penso em como seria uma vida de expectativa real. É que o tempo anda escapando de nossas mãos enquanto nossa mente se distrai com tantas atenções. Houve um tempo em que o próprio tempo valia menos, pois não eram tantas as implicações. Hoje, quando ele mais vale, parece que lhe damos menos valor, ainda que o discurso seja em contrário.

Não é devaneio bobo, não é constatação. Falo por mim. Quando olho minha agenda cheia de marcações com nenhum dia livre para simplesmente viver, me sinto escrava de um sistema que me impõe um ritmo que de fato não é o que quero seguir. E o que é viver, afinal? Trabalhar e ficar conectado? Esta é uma discussão mais ampla – e eu ainda a farei aqui – mas queria que você considerasse uma coisinha mais simples hoje.

Há alguns anos estive no Malawi e desde então tenho matutado com esta coisa do tempo, do valor do tempo, do tempo de valor. Lá as pessoas vivem menos, por causa da AIDS e pobreza a expectativa de vida gira em torno dos 40 anos. Praticamente metade do que se vive aqui no Brasil. O trabalho é focado no alimento do hoje, no máximo amanhã. Os planos não existem, pois a sobrevivência não é assegurada a ninguém. É tudo muito no stand by, no raso, na superfície. O tempo é algo que se aproveita agora, por enquanto, sem grandes expectativas.

Parece até triste, mas não é exatamente assim quando você está lá e se depara com sorrisos, com gente prestando a atenção a você com danças e cânticos alegres e aquelas cores todas da natureza exuberante. Elas curtem suas famílias, pois amanhã podem não mais tê-la. Daí eu cruzo o oceano e chego num país supostamente rico, onde se vive mais e os recursos não faltam. Onde a AIDS não é um fantasma que assombra e as vacinas deram conta de boa parte das mazelas sociais e que diferença vejo!

Não é um elogio à nossa sociedade não, é o oposto disto. Nós nos transformamos em meros consumidores de tudo que tenha alguma etiqueta famosa e cara, vivemos num mundinho virtual onde o que conta é o perfil perfeito que se trata de mostrar e não a realidade e profundidade de relações reais e tangíveis. Meninos e meninas que crescem em shoppings e em frente às telas, homens que mulheres que se isolam e suprem necessidades emocionais despejando no Facebook o que uma boa conversa daria conta de solver.
Aí eu sigo ouvindo as notícias da expectativa de vida, pensando no Malawi e em sua vida sem expectativa. Igual a nossa aqui.

Vivemos mais em quantidade de anos, mas e se somasse tudo o que você vive de real, será que seria mais que o povo do Malawi? Acho que não…

 

Artigo originalmente postado no site oficial da Igreja Adventista www.adventistas.org

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Dias no Malawi

Posted by Fabiana Bertotti on 28 de maio de 2013 in devaneios

Não consigo entender algumas coisas aqui, por mais que me expliquem. As pessoas aceitam ser servas das outras que consideram superiores e simplesmente não lutam por algo mais. É incrível. A cabeça é diferente, é mais que cultura. Existem enormes campos verdes, terras férteis e não se vê plantações de comida. Somente o chá dos estrangeiros. É possível plantar soja, feijão e o que mais precisarem, mas não o fazem.

O Malawi é lindo, gente, lindo mesmo! E as pessoas são miseráveis, sem precisar ser. Uma coisa me chamou a atenção num vilarejo: uma casa com a placa para recarregar celular. Não existe energia elétrica fácil por ali, mas uma galera tem celular. Eita globalização. Só que não têm onde carregar e pagam um local onde podem obter energia. No mercado, bem bonito por sinal, quase tudo vem da África do Sul, país vizinho, pois não há indústrias significativas no Malawi e de alimentos então, no way! A educação é precária, mas algumas pessoas fazem uma diferença aterradora.

Conheci um paciente do hospital, senhor Gerald Campbell que me deixou fascinada. Há 13 anos ele vive no país e há 12 montou um grande orfanato, usando uma base militar abandonada. Conseguiu algum apoio do governo, pediu doações e prosseguiu. Lá ele cuida atualmente de 115 jovens de 4 a 20 anos que recebem comida, educação técnica, ensino de inglês e muito carinho. Cada criança, com educação e tudo, custa cerca de 70 dólares por mês e ele vai atrás do dinheiro. Era um executivo de marketing do All Mart e largou tudo nos EUA para fazer isto aqui. Hoje seus “filhos” são técnicos, professores, conheci um mestre em educação e outras tantas profissões. O lugar é feio e pobre, mas é o oásis para quem perdeu a família para a Aids. A bondade do senhor Campbell torna aquela pobreza linda. Quando perguntei por que ele tinha largado tudo no seu país para viver ali, daquela forma, por gente que nem conhecida era ele calmamente e com um largo sorriso respondeu: primeiro, porque sou cristão e Cristo me pediu para amar e ajudar ao meu semelhante, está na Bíblia, pode olhar. Depois porque eu posso ajudar de alguma forma então deque valerá minha vida aqui se não tiver feito o bem para alguém e tiver vivido só pra mim? Minha dor pelo soco no estômago que ele acabara de me dar não permitiu outra pergunta sequer.

Este texto foi escrito em 2010 durante a viagem ao continente africano

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Donos da razão

Posted by Fabiana Bertotti on 27 de abril de 2013 in comportamento

Ninguém gosta de discordâncias. Eu não gosto, você também não. Ainda que não admita, claro. Além disso, gostamos menos ainda quando as pessoas que admiramos têm um comportamento diferente do que esperamos ou gostamos. Funciona assim: Você gosta da Fernanda Lima porque ela é natureba e um dia você vê a foto dela comendo no McDonalds com os filhos. Daí você se irrita, critica a foto no site de fofocas e a considera uma “hipócrita”. Algumas pessoas levam isto ao extremo e agride, torna a pessoa alvo de seu ódio. Claro, estas são pessoas um pouco mais doentes que nós.

É que quando admiramos uma pessoa corre-se o risco de colocá-la numa posição de perfeição e candura, como se nossos desejos e ambições (espirituais até) se projetassem naquela figura que vemos, gostamos e seguimos de uma forma ou outra. Eu mesma tenho vários destes exemplos. Gostava muito de uma autora, famosa por aí, daí descobri que ela tinha princípios que contrastavam muito com os meus e senti uma amarga decepção, como se a pobre coitada que nunca soube ou saberá da minha existência tivesse me traído. Claro que isto deve ter acontecido contigo também.

Ocorre que estas pessoas que admiramos, não pediram para ser admiradas. Isto foi por nossa própria conta! Ela tem a vida dela e por um acaso uma parte desta vida nos caiu no colo, nos agradou e delegamos a ela a tarefa irrecusável de ser nosso modelo de perfeição. Eita! Outro dia mesmo alguém me escreveu “decepcionada” comigo, pois me vira maquiada na TV. Criticou o fato e lamentou profundamente que eu não pensasse como ela. Olha o nível! A moça, detentora de toda a razão do mundo, achou um absurdo que minha opinião sobre estética e modéstia cristãs fossem diferentes da dela, pois as delas é que tinham que estar certas, claro!

Ponderei a situação dela comigo e lembrei da minha com pessoas que eu gostava e senti um misto de riso com lamento. Cada pessoa é um mundo, um mundo à parte do nosso, aliás. Ninguém concorda conosco o tempo todo e nem nossos ídolos ou os mais puros modelos de perfeição são mesmo assim, olhados bem de pertinho. Se tem algo que três décadas já me ensinaram foi isto: de perto ninguém é normal. E uma pessoa não é melhor nem pior por pensar diferente de mim, de você, dele ou de um grupo. Todavia, nossa santa inquisição, apoiada covardemente pela internet, constrói um tribunal e condena à fogueira pública das redes sociais qualquer pessoa que ousa pensar por si mesma. Tão triste.

Bom, talvez seja inteligente separar os atos das pessoas, ou as pessoas de suas eventuais falhas. Mais. Seria um tanto quanto proveitoso seguir bons exemplos e torcer para que as faltas sejam consertadas, mas só as faltas mesmo, não aquilo que eu considero diferente de mim. No caso, torcer e orar muito para que esta minha falta seja também consertada em tempo de não causar mais mágoa aos outros. O estilo da roupa, o corte de cabelo, o jeito de rir ou falar… nada disto é barreira para Cristo amar, por que seria pra mim que sou tão inferior à Ele, né?!

 

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Panela velha, cara de nova

Posted by Fabiana Bertotti on 1 de abril de 2013 in comportamento, devaneios

Minhas panelas são bem-cuidadas. Não são novas, evidentemente. No nono ano de casamento elas já apresentam alguns riscos, umas manchinhas que resistem em sair e algum amassadinho aqui e acolá. A despeito de pequenas avarias, parecem como novas. Cuido delas. Nas com revestimento antiaderente uso sempre colheres apropriadas para não riscar. Nas de inox, deixo de lado a palha de aço. Trado bem delas, pois não sou de trocar tudo o tempo todo. Acho que é assim com gente também.

Tem gente que destrata suas “panelas” que você pode traduzir por amigos, irmãos, pais ou cônjuge. É. Quando adquirem, são novinhos, parecem sem defeitos e cheios de utilidades. Há um zelo inicial. Daí o tempo passa e se esquecem  que sem os cuidados básicos essenciais, as “panelas”  ficarão riscadas, amassadas, queimadas e ao olhar, vai dar vontade de trocar. O que é uma tremenda injustiça, ressalte-se! Foram tantos os pratos saborosos, a fome satisfeita…

Outro dia estava com meu marido preparando nosso habitual molho de tomate da sexta. Comentei do tempo que tinha nossa panela wok e ele se impressionou com os anos que ela nos acompanha: “uau, parece nova!” exclamou. Parece mesmo, mas não é. Tem até um amassadinho que eu fiz ao deixar cair a tampa entre o fogão e a pia quando eu morava em Santa Felicidade, o bairro gastronômico de Curitiba.

Estou numa fase minimalista na cozinha, de experimentar temperos, executar poucos pratos, mas com sobriedade e atenção para não deixar escapar nenhuma nuance. Acho que é efeito dos muitos livros de culinária que ando xeretando. Mas daí achei as panelas uma boa metáfora para esta coisa da relação da gente. É que panelas não precisariam ser substituídas se fossem bem cuidadas, limpas e guardadas. Dizem até que a panela velha é que faz comida boa. Também acho que gente “velha” rende muita coisa boa.

As pessoas que estão conosco há tempos precisam dos mesmos básicos cuidados do início. Da atenção carinhosa, do carinho atencioso. De respeito, espaço. É claro que você vai conhecer gente nova, amigos novos, parentes agregados, todavia, como deixar de lado aquele que te supriu tantas necessidades, que te ofereceu tantos sorrisos que viveu uma parte da vida contigo? Cuidado com os riscos, com o jeito de tratar, de guardar e de limpar. Cuidado com as panelas e também com as pessoas. Mais tempo, mais história. Mais história, mais vida!

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contente e contentamento

Posted by Fabiana Bertotti on 29 de março de 2013 in Porque gosto

Eu acho a vida muito complicada. Aliás, eu acho as pessoas muito complicadas, daí elas complicam a vida. Escrevo isto com a impressão pouco científica de que é pra mim mesma. Sempre me achei contente, mas descobri nesta semana que estou longe – anos luz, para ser mais cientificamente precisa – do tal contentamento. É que eu usava contente para esta situação alegre e inebriante que se faz constante na maior parte do meu tempo acordada. Não que não seja contente dormindo. Sou. Mas é que não lembro, pois estou dormindo.

Esclarecida esta minha condição, de alegre e de ignorante, emendo este parágrafo para dizer que preciso de mais contentamento. Este sim é valoroso. Não se trata de comodismo, de preguiça ou mediocridade, mas de uma satisfação plácida que acalma a alma, pois conta pra ela a cada passo em que rumo se está. Tudo isto me perturbou porque eu conheci o seu Mário, nessas minhas andanças, lá nuns cafundó de Minas. Nem era tão longe, mas eu acho cafundó uma palavra tão aconchegante e pitoresca. Também acho que ela combina com Minas, Estado que adoro e me engorda loucamente.

Pois então, lá nos cafundó, ele me deu um nó. Era para rimar, mas é mais ainda pra pensar. Simples, com uma vida bem humilde e recém-casado com Deus. Com a mulher ele já vive há 25 anos e três filhos e o carinho se renova após ela sofrer um AVC que lhe impossibilita algumas atividades e comprometeu severamente os movimentos. Dinheiro, tem pouco. Amor por ali tem muito. Era alcoólatra, o lar era desequilibrado, tinha briga por todo lado. Mas daí alguém pregou pra ele, apresentou Jesus, ele gostou deste tal de Jesus, entendeu que ele era o Cristo salvador, a bebida largou, o juízo chegou e a esperança brotou. Tudo assim, rimando mesmo. Pobre eles continuam, mas com uma riqueza que eu não conseguiria comprar nem em cem vidas trabalhando ou na loteria ganhando.

Queria contar dele e ao me deparar com a tela branca descobri que não tenho palavras nem sentimentos compatíveis com o que vivi, pois vi a fé. Mais! Eu a abracei, cumprimentei com um forte aperto de mãos e olhei pra ela, lá no fundo dos olhos do seu Mário. Ele é feliz porque descobriu Jesus e agora vive pela simples descoberta de que tem um futuro maravilhoso e já, agora, experimenta a salvação. Ele não olha para os lados, para os defeitos dos outros, para as falhas. Não, ele olha pra Cristo, pra Cruz, pra Cruz de Cristo e pra Cristo na Cruz. Ele é de Deus e você pode falar, pregar, cantar ou escrever sobre o Pai, mas é diferente encontrar alguém em quem Ele habita e mal cabe que irradia. Assim foi. Eu toquei alguém cheio do Espírito Santo que me explicou sua felicidade da maneira incontestável que a verdade tem. “Eu sou feliz e estou grato porque tudo na minha vida mudou e eu vou para o céu, uai. Trem bão, num é?” É… trem bão demais pra guardar só pra mim…

 

Em tempo: Feliz Páscoa!

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Acabou a brincadeira…

Posted by Fabiana Bertotti on 4 de fevereiro de 2013 in Crônicas, Porque gosto

Eu fiquei velha! Não uma velha no sentido de senhoridade, daquelas que têm preferência das filas e cartão especial pra andar de graça nos ônibus. Não é este isto. É mais para o tipo que ainda não sabe lidar com as rugas que se instalaram, com os fios brancos que não combinam totalmente ou com a dor nas costas, apesar dos sonhos adolescentes. Até tinha flertado com uma crise, com uma tristezinha, por passar o dia longe do amor da minha vida, dos meus pais… mas daí me olhei no espelho hoje de manhã e me dei conta de que tenho muito a comemorar!

Focalizei nos olhos grandes e disse pra mim mesmo: “garota, você é uma sobrevivente! Yeah, baby! Você está viva há três décadas depois de ter passado por catapora, sarampo, caxumba e hepatite. Tem noção de quantas pessoas morreram nestes obstáculos?!” – acabei rindo de mim mesma e do meu pensamento ridículo para emendar: “ah, e você ainda tem todos os dentes!” Não é exatamente ridícula esta parte, pois com a minha idade muita gente nem os tem mais. Minha mãe não tinha.

Ainda tem o sorriso! É, eu tenho mesmo motivos para sorrir. Meus pais estão vivos, bem e com saúde, meus irmãos me amam – eu espero, pelo menos! – e tenho amigos fantásticos que logo cedo escreveram, ligaram e fizeram inúmeras piadinhas. Ok, eu sou feliz. Não bastassem todos estes ótimos motivos, eu tenho um grande amor. Uau, sabe o quanto é raro isto? Encontrei o homem da minha vida e passei a última década sendo feliz com ele e aos 30, caro leitor, nem todo muito tem isto, muito mesmo tudo junto.

Com esta listinha, liguei o som bem alto no banheiro e pulei de alegria. Fiz caretas no espelho para ver a extensão do estrago que o tempo por ventura tenha feito. Ainda é administrável. Tem uns quilos pra perder, um fôlego pra ganhar, mas já plantei uma árvore, escrevi um livro, fui desbravadora, colportei e morei num internato. Ainda falta o tal do filho, mas tenho muitos outros anos pela frente, né?! Afinal, não se pode ter tudo ainda aos 30. (risos)

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Religião ou Religiosidade?

Posted by Fabiana Bertotti on 2 de fevereiro de 2013 in devaneios

Esta coisa toda de religião é muito complicada. Acho que sempre achei, mas não tinha mentalizado ainda. Antes, contudo, é preciso saber que religião e religiosidade são coisas distintas. Como são! É que ainda na infância entortam tudo na cabeça da gente e está feito o problema que em alguns casos, demora-se anos para solver.

Chego a crer que alguns desajustes sociais e mentais – aí incluindo os espirituais – derivam desta incompreensão. Não tem aquela turma que ataca as religiões e o que se supõe Senhor delas? Não tem os ateus? Convença-me de que não possuem religiosidade! Estes podem não dispor, nem querer, aproximação da tal religião, mas se são bípedes pensantes, do tipo que chora, ama, sente dor pena e esperança… ah, são religiosos.

A religiosidade pra mim sempre teve a ver com algo supremo, que rege tudo. Por um tempo confundi com o conjunto de normas de uma religião, porém nada tem mais discrepância em sua essência. É que na religião há o público, a coerção, a vexação e o risco da temida expulsão. Abominável para este ser chamado humano. Na religiosidade a coisa é diferente. Tem um conforto que abraça, uma paz que preenche e uma razão irascível que explica o que à lógica não convém. Já não se trata de parar um dia sob pena de disciplina, mas de o fazer pela gratidão de uma oferenda. Na religiosidade natural e espontânea não cabe o medo da inadequação por demérito, mas a ação movida pelo amor de quem tem todo o mérito.

É claro que você pode dizer que isto não é religiosidade, tem outro nome. Pode ser, mas não sei se muda não. A minha religiosidade provém da necessidade inerente de Deus e escolhi uma religião que se pautasse pelo que Ele pediu. Tenho, todavia, consciência de que o Eterno tem muitos filhos, em muitos lugares e pra cada um deles uma linguagem, uma religião, uma porta de entrada. Por isto anseio pelo dia em que todas as barreiras cairão e as placas já não mais imperiosas serão.

As religiões se desfarão ante à verdadeira religiosidade que brota do amor supremo e puro por Deus ou do dEle por nós, por mim. Este milagre e mistério eu ainda não compreendi direito, mas é que na minha religiosidade cabem dúvidas que o contentamento sufoca. Sou religiosa, porque sou humana.

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Crise dos 30

Posted by Fabiana Bertotti on 4 de dezembro de 2012 in comportamento, Crônicas

Tive crise dos 30 aos 26. E aos 27 também. Aos 28 começou o conformismo. Não foi propriamente uma crise, mas não gostei. Uma sensação esquisita, tipo dor de estômago quando se come doce demais. Era uma coisa meio: “uau, estou ficando velha e não fiz nada de interessante ou relevante e já vou morrer!”.

Pode rir, sei que sou um pouco dramática mesmo. É, eu sou. Mas fiquei triste aos 26 e no ano seguinte, nos 27. Pensava em quanta coisa poderia ter feito, em como o tempo passava rápido demais, em como eu tinha sonhos demais. Eu achava que depois dos 25 a curva era meio na descida mesmo, sabe? Minha mãe riu.

Com esta idade ela já tinha dois filhos e ligava as turbinas pra fazer mais uma. Não sofria com esta coisa da idade. Disse que era minha mania de pensar demais. Mas não é, não! Você acha que é? Ah, vá… Quem é que nunca passou por isto? Eu digo que esta foi minha crise dos 30 antecipada. Já me conformei que não terei filhos antes dos 30 (quem sabe neles!), que não consegui conhecer todos os países que gostaria, nem ficar bonita como eu sonhava. Mas daí vem outro ano e outro e agora, na beiradinha da tal fase balzaquiana eu pisei um pouco no freio e resolvi me permitir.

Pois é, não fiz tudo que sonhei, mas realizei bem mais do que podia imaginar há 10 anos, no limiar dos 20. Esta pressa maldita e “gastrítica” está passado e uma serenidade ameaça me soprar no cangote. Descobri um amor sublime e vivo com o homem que amo – e que me ama, isto faz uma diferença enorme – e ainda recebo salário para fazer o que até de graça faria. Uau, nada mau, hein?!

Faltam exatos 2 meses para os 30 – costumo ir avisando para ninguém esquecer – e me pego cheia de sonhos, de planos, de estratégia para esta idade mágica que chegará no colo de uma mulher melhor que ontem e na espera de ser melhor amanhã também. Afinal, o que são 30 aninhos pra quem sonha viver a eternidade, né?!

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Só tenho o hoje

Posted by Fabiana Bertotti on 22 de novembro de 2012 in Porque gosto

Ele tinha esperado demais e chegara a hora de um momento emocionante para marcar a união com a mulher amada. Festa organizada, casamento a caminho. Celebração, parentes e amigos sorrindo e ele tinha uma taça no bolso. Foi o suficiente. Caiu, cortou uma veia importante e acabou com tudo. A festa acabou para ele e para a noiva com quem acabara de trocar as alianças.

Não era sua primeira ladeira de bicicleta. Mas foi a última. O senhor de meia idade desceu com a magrela sem freio e encontro um outro senhor desavisado que no meio do caminho foi um obstáculo ao ciclista. Um obstáculo à vida. Os dois caíram, os dois morreram. Ali, assim, no meio da rua, por um acidente de bicicleta!

Estavam todos felizes e a gravidez tinha sido muito tranquila. Mas na semana do parto a pressão da gestante resolveu subir demais. Teve medicação, teve acompanhamento, mas não teve sorte. No dia, na hora do parto, foi inevitável. A pressão foi além do que ela poderia suportar, foi além da conta. Ali, enquanto paria sua filha, dava adeus a sua vida.

Na chuva tudo parecia gostoso demais, até que os raios e trovões ficaram mais assustadores que divertidos. No descampado, próximo à sua casa, resolveu que embaixo da árvore era um bom abrigo até o medo passar e voltar a pular nas poças d’água. Tinha só 15 anos. Tinha só vontade de tomar banho de chuva. Não tinha noção de que um raio poderia matar.

Todas estas mortes, aparentemente estúpidas, foram noticiadas no G1. Guardei mais algumas para um trecho do meu livro, mas quis compartilhar estas com você, leitor do meu blog. É que hoje me deu uma sensação dolorida de que o passado não me pertence e ainda não tenho o futuro, para me dar ao luxo de perder o presente com mágoas tolas, sonhos inacabados e frustrações dos outros, que querem fazer entrar em mim.

Não tenho inimigos na vida – embora seja bem capaz de algumas pessoas me incluírem nesta categoria -, mas é que não quero perder espaço no meu coração e gastar minhas emoções com algo tão áspero. Vai que eu caia de bicicleta? Vai que um raio me atinja! E se minha pressão resolve subir ou uma doença me levar mais rápido que o planejado? Tenho esperança de uma vida em Cristo, mas e aqui, vou desperdiçar meu tempo assim?

Ah, não! Pare pra pensar em quanto o seu dia pode ser pleno? Sabe aquela música que te deixa feliz? Ouça! E o abraço que estava com vontade de dar no filho, na esposa, no namorado? Esmague e encha de beijos! Tá na hora de retomar os estudos, de ler aquele livro, de aprender sobre como vivem as orquídeas. É tempo de viver. Viver bem, viver leve, perdoar e esquecer. Pois pode ser que não dê tempo de mais nada e  você não vai querer, nos minutinhos finais, lembrar que passou boa parte da vida alimentando sensações tão desprezíveis e descartáveis como raiva, rancor, inveja, mágoa, desprezo…

Vai que…

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Pessoas descartáveis

Posted by Fabiana Bertotti on 21 de novembro de 2012 in comportamento, curiosa

E no jornal escuto que a defesa do goleiro Bruno quer mostrar os filmes pornográficos nos quais Eliza Samudio atuou. A ideia? Desqualificar a mulher de forma que a vítima pareça culpada perante os jurados. Tipo assim: “este tipo de mulherzinha não merece tanta consideração”. Aí no caso, a vítima de tamanha brutalidade passa a ser também uma culpada por seu próprio homicídio. Oi?

Já pensou em como descartamos as pessoas – seres humanos!! – pelo valor que a sociedade ou o seguro dão a elas? Outro dia eu estava no carro ouvindo de um relato horroroso.

Motorista: “Então amarraram o garoto, queimaram suas mãos e depois de horas de tortura, mataram com um tiro na cabeça”.

Passageiro: “Nossa, que situação horrível! Que sofrimento deve ter sido para este garoto. Quantos anos ele tinha?”

Motorista: “Ia fazer 17. Mas me contaram que estava envolvido com drogas…”

Passageiro: “Ah…. Cara, e o seu time, hein? Que vergonha…”

Chegou a me dar um nó. É que eu sou muito parecida com estes caras e dispenso a mesma “sensibilidade” a assuntos assim. De repente me vejo valorizando as pessoas por sua habilidade em mostrar o melhor de si mesmo, pelos seus atos e aparências, como se uma pessoa que comete erro não tem direito a compaixão, ao amor, ao recomeço, ao perdão. É como se a mãe do bandido sentisse menos dor que a mãe de um mauricinho, quando seus respectivos filhos morrem vítimas de balas perdidas.

Na massa de transeuntes que passam eu corro o risco de pensar que são apenas “bonecos”, mas não! São pessoas com seus mundos à parte. Suas dores, seus anseios, seus sonhos e frustrações. Pode ser que nem todos percorram o caminho que eu julgo certo ou adequado, mas não menos seres humanos que eu e meus pares.

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Fui roubada!

Posted by Fabiana Bertotti on 20 de novembro de 2012 in devaneios

Eu gosto muito de internet, mas acho que ela não gosta tanto assim de mim. É! Percebi que anda me roubando. Talvez a sua também esteja, mas é do segmento furto, então a gente não percebe de imediato. Só quando precisamos da tal coisa roubada é que nos damos conta de que se foi. No meu caso a internet anda roubando tempo. Isto é valiosíssimo!

Começa aos poucos, sabe, para não notarmos. Daí ela vai ficando mais descarada e nos distrai com amigos, anúncios, fotos, vídeos e músicas. Passa um tempo e nem mais lembramos como foi que começamos aquilo. Uma hora, duas… a nossa desculpa perfeita para este relacionamento é o tal trabalho, mas a net, esta vilãzinha disfarçada, finge que vai me facilitar o trampo e quando vejo, puft!

Para azar dela, eu acabei percebendo. É que outro dia eu precisei de tempo e eu lembrei que o tinha, mas daí, depois de um tempinho de affair, fui olhar para o relógio e já não tinha mais nenhum disponível. Fiquei brava, esperneei, mas este artigo de luxo não se recupera fácil. Aliás, nem sei se é possível recuperar algum dia. Acho mesmo que não. E onde vou reclamar? Tem Procon para denunciar o roubo de tempo que a internet me fez prometendo alegrias, distrações, conhecimento e rendimentos?

Enquanto não descubro onde reaver meu tempo furtado, ando de olho na tal da internet. Ela é mal necessário, tipo político corrupto que elegemos para manter a tal democracia, sabe? A gente acha que está ganhando alguma coisa, quando na verdade estamos perdendo muito. Já entendi que anda meio impossível no momento me isolar da tal, contudo, ando cuidadosa, como quando seguro a bolsa junto ao corpo ao andar na 25 de Março. Às vezes ela me enrola, pois me deixo seduzir… aí lembro que não tenho onde comprar tempo, ainda que todo dinheiro do mundo eu tivesse. Então fujo rapidinho, para quem me ama de verdade e com o que valha o tempo investir.

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Amo meu pai, mas ele me ama mais

Posted by Fabiana Bertotti on 6 de novembro de 2012 in devaneios

Meu pai é do tipo paizão. Ele cuida, liga toda hora, protege, liga toda hora, se preocupa e liga toda hora! Sim, ele quer se sentir presente e nos telefona praticamente todo dia e dependendo do nível de saudade, mais de uma vez. Ele prefere ficar sem comer ou sem vestir a ver um filho passando a mínima necessidade. Sei que o que eu precisar, encontrarei nele. Pois se não tiver, vai procurar alguém que tenha. Mas é que ele liga toda hora.

Este más é porque me senti péssima outro dia em relação a isto. Sou uma boa filha, não vai me julgando aí sem conhecer os fatos, viu?! Contudo, tem hora que não quero atender meu pai. Domingo de manhã, quando ainda estou sonolenta, por exemplo, ou quando estou no meio de um texto (ele interrompeu este), ou quando estou fazendo qualquer outra coisa e não quero dar atenção a ele. Daí caí em mim e percebi o quanto sou idiota!

Não sei quanto tempo terei meu pai comigo. A saúde dele não é das melhores e com hábitos nada saudáveis ele encurta seu tempo ao meu lado de maneira solene e tudo o que ele quer a cada dia é me dizer “oi” e perguntar: “Está tudo bem aí?”. Só isto. Tão pouco e eu, às vezes, acho muito. Ele quer saber meus itinerários, só que eu viajo muito, tenho preguiça de contar. Ele quer saber que horas cheguei, mas acho chato demais ligar. Ele só quer me amar e saber que estou bem, todavia eu sou horrível e só o quero, quando quero. Entende?

Daí me dei conta do quanto isto é igual à nossa relação com Deus. Ele também nos ama, nos cuida, nos quer bem e nos protege. Nós, em contrapartida, queremos uma certa independência. Não queremos muito papo, perder muito tempo, obedecer ou dar satisfação. De preferência que Ele esteja lá quando precisarmos e quando sentirmos alguma falta. Só. Já está bom. Se você também é assim, você também é idiota, feito eu. Desculpa, não quero ofender.

Acho que vou parar por aqui e retornar a ligação do meu paizinho e investir um bom tempo contando da minha vida pra ele.

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Quero carinho, pago bem

Posted by Fabiana Bertotti on 5 de novembro de 2012 in comportamento, devaneios

Sentir-se sozinho em meio à tanta gente é cada vez mais comum

Eu lavando louça e o anúncio na TV: “Atendimento amigável e discreto, um ouvido amigo para os seus anseios…” e continuava falando as vantagens de ligar para o tal serviço disponível apenas por telefone. Fiquei curiosa. Sou curiosa. Liguei. Você pode escolher se quer conversar com jovem, idoso, homem ou mulher e por alguns reais a menos na conta você desabafa, ouve conselhos, troca confidências e se sente aliviado. Um contato humano significativo para quem não tem gente de verdade por perto há algum tempo.

Não bastasse a propaganda da TV, ouço na rádio um serviço semelhante, voltado para pessoas que têm depressão e pensam em se matar. Na internet a publicidade de Jackie Samuel, de 29 anos, que cobra 60 dólares por hora para dormir abraçada com pessoas em New York. A proposta é só isto mesmo, dormir de conchinha e o serviço atende pessoas carentes ou traumatizadas. Flertei em cobrar uns trocados do meu marido pelo que faço gratuitamente há 8 anos, mas me convenci de que ele não é lá muito carente. Ainda bem!

O detalhe é que nunca houve tanta gente no mundo, tanta rede social, tantos meios de comunicação, tanta facilidade de locomoção, tamanha densidade demográfica e mesmo assim as pessoas parecem mais – e intensamente – isoladas do que nunca. Problema nenhum, não fosse o fato de que este tal de ser humano não foi programado para viver só. Alguns até tentam, arriscando a sanidade física e mental. Fato concreto é que uma hora a casa cai ou faz-se necessário derrubá-la.

Não é uma reflexão revoltada, longe disso, mas considere: o que deveria nos unir, nos separa, o que deveria preencher, esvazia, o que era para distrair, aliena. Não está tudo meio esquisito demais pra você? Pra mim sim. Daí que hoje resolvi ligar para umas amigas, dar um oi para alguns ausentes, escrever e-mails para gente que eu amo e beijar e abraçar quem está por perto. Sou só uma gotinha ínfima neste oceano, mas pelo menos que as outras gotinhas próximas a mim possam saber que eu estou aqui, que não precisam ligar para um desconhecido para contar seus problemas. Eu escuto, tá?

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Geração embalagem

Posted by Fabiana Bertotti on 5 de outubro de 2012 in comportamento, devaneios

Sou de uma família muito pobre. Hoje eles já não são tão pobres, mas ainda são pobres. Ainda mais se comparado à gente rica. Mas isto não vem ao caso, tá? Só falei para entender o que eu quero mesmo dizer. É que eu queria não ser pobre. Era quando eu estava pequena. Na verdade eu também não queria ser pobre hoje, mas queria menos quando eu era criança.

Meus pais não tinham dinheiro para comprar roupas novas e bonitas pra mim, então eu me vestia com o que ganhava dos outros. Uma vez por ano eu ganhava algumas peças novas e podia escolher, numa loja bem cheia de gente com balaios e caixas lotados. Eu lembro bem do calor, das mulheres gordas disputando uma camiseta com a estampa da Minnie. Uma delas tinha um relógio vermelho e grande e eu olhava paralisada para ele, mas era muito caro para minha realidade. Não sabia quanto era, mas sabia quando não podia ter.

Tirando estas poucas roupas novas, a maioria era velha. Daí eu cresci. Não muito. Até hoje, aliás, eu não cresci muito pra cima. O fato é que eu cheguei na adolescência e minhas colegas entendiam tudo de roupas, moda e marcas. Elas tinham um pouco mais de condições do que eu e algumas já trabalhavam, mas eu não. Meu pai queria que eu estudasse, só que eu começava a querer as tais roupas de marca. O tênis New Balance virou febre na escola, com seu N em várias cores e saltitando ao som de Corona e o hit The Rhythm of the Nigh. Uma amiga fingia que sabia inglês e cantava. Era tudo errado, mas nós acreditávamos e eu queria muito saber cantar em inglês e também queria o New Balance roxo igual ao dela.

Até que um dia eu ganhei uma calça jeans usada e meu pai também. Só que a dele era da Levi’s e isto era muito chic pra minha turma. Lee também era e eu descobri que podia ser melhor vista na galera a partir do dia que arranquei a etiqueta da calça do meu pai e costurei na minha. As meninas me chamaram para as conversas e os meninos me incluíram na roda para falar da última moda. Segui fazendo isto, esta falsificação inocente para exibir a marca da minha roupa até descobrir que isto era ridículo. Ainda bem que foi logo, mas parece que ainda não acabou isto. Achei que era coisa dos anos 90, mas hoje vejo que as etiquetas estão todas para o lado de fora da roupa. Mais importante do que o que você veste é a marca disto e o quando supostamente custa e de repente a pessoa que veste perde sua importância, a menos que tenha um jacaré ou a Dudalina no peito. Ou ainda a maçã no carro, sinalizando o computador ou telefone que tem.

Claro que gosto de coisas boas, mas chego a me recusar a comprar algumas coisas que posso ter por me sentir ofendida pela comercialização do ser. Pode ser que seja só uma utópica idealista, mas tenho medo de uma sociedade que valoriza seus pares pela marca da bolsa ou do sapado, pelo monograma da bolsa. Num convívio destes não posso ostentar minha realidade e nem ser eu mesma, pois meu mesma sou um tanto baratinha demais, sem grife nenhuma.

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Acima da lei

Posted by Fabiana Bertotti on 2 de outubro de 2012 in comportamento

Dizem que sou rebelde. Bobagem e pura falta de assunto. Algumas pessoas é que não se deram bem muito bem ao me chefiar e botaram a pecha de insubordinada. No meu rol mais íntimo sou chamada até de fariseia por fazer questão de cumprir os menores preceitos. Mas isto é só enrolação para o que eu quero falar e eu quero falar de nós. Você, eu, ela, eles. Todos nós viventes que adoramos transgredir as regras.

Quando eu era adolescente era comum ouvir que as regras foram feitas para serem quebradas e eu até cheguei a acreditar nisto, vez ou outra. É tanta lei estúpida por aí que parece mesmo um estímulo à desobediência! Só que tudo tem o outro lado e é a ignorância deste “outro lado” que nos faz meros transgressores ao invés de iluminados seres que não se atêm às normas humanas. Quebrar uma regra é se portar como superior à elas e aos que a fizeram ou fiscalizam. E só não desrespeitamos àquelas que julgamos de bom senso ou justas, ou seja, nosso padrão de julgamento. Também evitamos aquelas que nos prejudicariam física ou financeiramente. Nem sempre, contudo.

O trânsito é um exemplo clássico e facilmente entendível. Ou você nunca furou sinal vermelho e ultrapassou o limite de velocidade? Vai confessa, ninguém está vendo. Sou de obedecer os sinais de trânsito e costumo ser chata com quem está dirigindo ao meu lado. É, não sou tão perfeitinha como pode parecer e outro dia, dirigindo rumo ao aeroporto percebi como sou ridicularmente hipócrita. Triste admitir, viu, mas é um incentivo pra você se olhar no espelho também.

Com um limite de 120 km na Bandeirantes e um belo tapete de asfalto eu me “distraí” e passei bem da velocidade para retomá-la ao avistar um radar. Aquela maquininha com câmeras poderiam ser um rombo na minha conta bancaria já tão combalida e eu não estava afim de um álbum fotográfico no Detran. Pisei no freio para tão somente acelerar depois do fiscal eletrônico e ao me dar conta do meu procedimento – não sigam meu exemplo, ok?! – pensei em como nos julgamos autossuficientes.

Desde a dona Eva o ser humano se acha mesmo acima da lei e não subordinado a estas regras. É como se estivéssemos – todos nós – acima de restrições. Entendemos os limites como punições à nossa condição elevada ao invés de cercas protetoras contra o perigo. É como se o cara que inventou o limite de 120 km/h na rodovia estivesse querendo me prejudicar, me atrasar e não soubesse o quanto sou boa no volante ao invés de imaginá-lo guardando uma margem de segurança para evitar acidentes e mortes naquele local.

As leis servem pra me proteger, para proteger o próximo de mim ou dele mesmo e o legislador pode não ser tão “esperto” quanto eu, mas arriscar minha vida na estrada ou em qualquer outra circunstância não parece mesmo uma atitude iluminada. Pense em todas as regras que quebramos diariamente e pare para considerar se morreria caso obedecesse. Talvez seja um exercício de humildade e submissão que pode ser útil em outras áreas da vida, em casa, com Deus.

Ah, na dúvida não ultrapasse!

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O presente merece um presente

Posted by Fabiana Bertotti on 30 de setembro de 2012 in comportamento, devaneios

A apresentadora Hebe morreu neste final de semana e eu fiquei pensativa sobre a efemeridade da vida. Ela foi uma grande mulher (e não discuto aqui valores nem moral) para a TV brasileira e abriu portas para tantas outras que vieram depois. Representava simpatia e acolhimento e tinha um maneira bem peculiar de reagir frente às dificuldades. Pensando na morte dela eu lembrei de um texto que escrevi logo depois que minha avó morreu e quero dividir com vocês.

 

Sou do tipo que guarda as coisas, esperando uma ocasião “especial” para usá-las. Tem bastante gente assim como eu. Pelo menos eu espero. Minha mãe também é assim. Acho que peguei. Ela tem talheres novos esperando convidados especiais. Também tem pratos copos e baixelas. Na gaveta tem sempre uma lingerie com etiqueta. Não é para todo dia. O todo dia é muito normal, não merece tal deferência. Meu pai não é assim, minha mãe é que é e nisto sou parecida com ela, mas não queria ser.

É que minha avó, a mãe da minha mãe, também era assim. Mas ela morreu. Já faz dois anos que um câncer levou a minha avó e não deu tempo de ter dias “especiais” para usar a camisola nova, comprada há 5 anos. Também não houve ocasião para usar os copos bonitos, nem comer com os talheres diferentes. Todos os dias eram ordinários demais, até que a morte acabou com todos eles. Triste, né? Eu acho. Já chorei por isto e por estes dias especiais que temos mania de colocar num futuro intocável.

Não que sou da política inconsequente do Carpe Diem na qual cabem aqueles que não querem compromisso com o depois. Não se trata disto. É que tem muita gente indo embora da nossa vida, da sua vida, sem receber o tal tratamento “especial” e acho injusto isto, pois cada dia em que levanto, que abro os olhos, respiro e me movimento, é especial, único e merece aplausos. A correria tirou um pouco da cerimônia, mas acho mesmo que mereço usar a roupa que gosto só porque gosto. O sapato bonito só porque fez sol, e uma tiara cara porque o passarinho pousou na minha janela.

O amanhã como idealizamos talvez não chegue como o sonhado ou talvez eu (você) não seja mais como era ou nem esteja neste tal futuro. Eu não pensava assim antes, só depois que minha avó morreu. Ainda é difícil não guardar a toalha nova, o vestido com etiqueta ou os caderninhos bonitos de anotação, mas cada dia eu me esforço mais. É como o meu brinde à vida e ao privilégio de estar pensando lucidamente hoje. Já que não bebo, é assim que brindo. Não espero ocasião especial para dizer “eu te amo” a quem eu amo mesmo e nem de sorrir para um estranho na rua. Vá que não o veja mais! Não quero dar coroa de flores para queridos que não vão saber da minha dor. Faço questão de fazer do hoje um dia singular, com direito à copo e baixelas novas, com direito ao sorriso mais bonito que eu puder dar. Vá que eu não chegue no amanhã ou vá que o futuro não esteja lá quando eu chegar.

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Hoje acordei feliz

Posted by Fabiana Bertotti on 20 de setembro de 2012 in devaneios, Porque gosto

Atrasou, demorou, mas chegou. Ontem no final da tarde muitas e muitas caixas com o meu livrinho chegaram aqui em casa. Eu fiquei numa espécie de transe, meio sem saber se abraçava o motorista ou mostrava o caminho do depósito. Quem me conhece de perto sabe da realização do sonho, da coragem de fazer o que existia somente no plano das ideias.

Já vou adiantando que não é o melhor livro que você lerá na vida. E isto também não é uma boa estratégia de marketing, mas é o meu melhor para cada leitor. Eu achava que escrevia pra mim e assim foi por muito tempo, mas descobri que escrevo para os outros, pois não me aguento de ansiedade de ouvir o feedback de cada leitor.

Quando fui postar aquela penca de livros, ia olhando os endereços: Piauí, Maranhão, Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Sul, Brasília, Sergipe e por aí foi… pensava em casa pessoa, conhecida ou não, que passaria algumas horas comigo. Sim, pois você me levou pra casa agora e não saio tão fácil assim, tá?! São corações que vou tocar, pela graça de Deus e isto é um privilégio e uma grande responsabilidade.

Este é o segundo livro que escrevi. Tenho o primeiro guardadinho ainda e fala sobre as crises da mulher de 30 (e o trinta aqui é meramente simbólico, pois nossas crises começam no parto e vão até a velhice). Acho que agora eu crio coragem para lançar este também. Várias encomendas grandes já estão sendo entregues e mulheres dos quatro cantos começarão a ler. Sei que haverá critica, normal. Mas estou especialmente feliz pelos leitores que vão me escrever dizendo que a leitura os aproximou um pouquinho mais do Pai. Ah, mal posso esperar por outubro…

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Estão faltando mártires…

Posted by Fabiana Bertotti on 8 de setembro de 2012 in comportamento, devaneios

Estou lendo sobre os mártires cristãos da reforma, na Idade Média, e pensando na disposição deles em sofrer e morrer por uma causa. Sempre admirei pessoas que têm uma razão forte o bastante para viver e mais ainda, para morrer. É que anda raro este tipo, ultimamente. Não sou masoquista não, nem vibro com a morte. Acho mesmo que não nos é natural esta coisa de acabar, como quem sai da própria festa e deixa os convidados lá, sozinhos.

É que reina uma apatia crônica e doentia que pasteuriza uma geração. Talvez duas ou três. No último século se pode contar algumas causas pelas quais valia a pena lutar. Foram duas guerras ocidentais, algumas reformas nos costumes e só. Teve também umas ditaduras aqui e acolá. Levaram embora o idealismo, sonhos vibrantes e algo pelo qual morrer. Queria isto de volta, esta vida de verdade que faz cada segundo ser sentido e percebido, sem esvair pelos dedos como água que não se conta as gotas.

Vivemos para consumir e consumimos nossa existência sem viver. Deus já não é o motivo principal, mas um acessório hype e até comercial. O nome de Cristo é invocado em livros e canções, mas já não muda corações, não é o objetivo. Aliás, nada que cerceie nossa própria vontade é recebido bem. Enquanto pop, quero Deus, como senhor de fato, tenho os desejos meus. O quero para me alegrar e confortar, não para me reformar e sigo vazio sem ter para quem a vida dar.

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Nova Ordem Mundial

Posted by Fabiana Bertotti on 30 de agosto de 2012 in devaneios

20120830-091611.jpgVou te contar um coisa, mas é meio segredo ainda, tá? Já reparou que vivemos no império do fácil? É verdade, não é coisa da minha cabeça! Meus pais me criaram com alguns princípios que para eles são fundamentais e um deles é: trabalho duro. Aprendi que não há sucesso sem trabalho e trabalho árduo, diga-se. Mas isto parece ser mesmo coisa do passado ou de gente desatualizada. Minha mãe, por exemplo, me fazia comer vegetais crus e mastigá-los bem antes de engolir. Já mastigou cenoura e beterraba crus? Dá o maior trabalho! Nem preciso dizer que na minha casa de infância não tinha controle remoto, nem nada que facilitasse muito nossa simples existência. Muito ultrapassado.

Hoje a tônica é: faça o mínimo e ganhe o máximo. Está em tudo quanto é livro e “vareia” das dietas ao empreendedorismo. Outro dia um livro me chamou a atenção propondo ficar rico trabalhando apenas 4 horas por semana! Tem também os manuais que ensinam como ter o casamento dos sonhos, de maneira fácil. A comida, bem, a comida é a mais fácil que tem. Tudo branco, refinado, cheio de açúcar e gordura para ficar molinho. Daí você mastiga menos, seu corpo gasta menos energia para processar… o excesso de sabores também segue nesta linha, assim você é superexcitado sem fazer esforço algum de percepção. Comer legumes crus e alimentos integrais, definitivamente não combinam com este estilo muito easy.

Este foi o nome que dei. Achei mais bonito em inglês, parece importante, né?! É a Easy Life, a nova ditadura. Meu marido achou mais bonito italiano Vita Facile, mas não gostei. Achei mais fácil na língua dos yankees mesmo. É um movimento sorrateiro, inventado sei lá por quem, mas aderido por quase todos nós. Aí, como sou meio rebelde, resolvi que vou cair fora. Mas é difícil, já vou avisando. No Easy Life você não constrói ou nutre relacionamentos, você usa as pessoas e quando elas incomodam, joga fora. Também é altamente condenável fazer esforços honestos para vencer na vida, o esquema é usar de métodos fáceis, ainda que duvidosos, sem falar que esta história de êxito é muito trabalhosa, então a maioria fica com a mediocridade mesmo.

Mas se você é do tipo que adora fast food, controle remoto pra tudo, carro até para ir à esquina, não aguenta uma conversa séria e estudar ou trabalhar horas a fio, ou ainda ama ficar largado no sofá sob domínio da TV e internet, não se preocupe, na verdade você está mais adequado ao status quo do que imagina. É só não se esforçar e fazer exatamente isto: nada. É que eu sou meio revoltadinha mesmo, sabe, por isto que dei nome ao movimento e estou num esquema secreto para tentar cooptar alguns adeptos. Estou começando lentamente para não levantar suspeitas e se você se interessou comece desligando a TV por alguns dias, entrando de cabeça numa leitura boa e comendo alguns vegetais crus que dão trabalho. É quase uma rebelião de guerra, hein, então cuidado para não levantar suspeitas, ok? Câmbio, desligo.

 

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Medo

Posted by Fabiana Bertotti on 21 de agosto de 2012 in devaneios

Escrever um livro é um pouco se expor

Já experimentei o medo de várias formas. Foi escuro, foi do bicho, da velha do saco, da rejeição do primeiro amor, do espelho, da violência, da balança, do chefe, da incompetência. Mas agradeço a todos os meus medos, que me deram uma adrenalina e cautela para permanecer viva. Sim, os agradeço, mas até dispensaria, pois é de um desconforto enorme este frio na barriga que mais parece uma lombriga gigante, não?

É o que sinto agora se criando dentro de mim. Por muito tempo relutei em escrever um livro, embora fosse meu grande sonho. Escrevi um e engavetei, sem coragem de mostrar ao mundo até que um grande amigo e sua esposa (o Derson e a Daya) me convenceram do segundo. Convencimento veio, todavia o medo – de novo ele – amorteceu a empolgação. Entra em cena meu esposo que tem a maior confiança em mim, mais do que eu mesma, e me propõe bancar a publicação que eu achava que seria vendida apenas para a minha mãe, sogra, irmã ou cunhada. Ah, acho que uma tia também compraria, para me ver feliz.

Escrevi, reescrevi, li e reli. Para garantir dei para algumas amigas lerem também e aqui agradeço a elas: Leia, Elkeane, Wiliane, Denise, Nilza, Larissa e ao querido pastor Bomfim. Não sei se por caridade (prefiro crer que não) eles me estimularam mais e lá parti eu para os finalmentes. A Jojô revisou. Um amigo, o André Nadaline, que nem sendo de sangue seria tão brother, fez a capa. Uma promessa antiga. Meu irmão agora dá os ajustes na página, esta mesma aqui, que será o ponto de venda virtual e eu fiz a última revisão para a enviar para a gráfica. Em setembro vou enfim parir este filho que já está sendo gerado há bem mais de nove meses e me impede de olhar para os outros filhotinhos que querem nascer na minha mente.

Ainda tenho medo: de não vender, de não ser lido, de não ser gostado, sobretudo. Escrever um livro é um pouco se expor nua e isto, convenhamos, não é confortável. No entanto, descobri que dos medos e dos erros é que um dia acertamos, então, que venha este rebento de uma vez e tomara que todos vocês que leram até aqui, gostem da leitura e me escrevam para apaziguar o medo.

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