surdos emocionais
Eu estava com pressa para pegar minha priminha na casa dela de manhã e depois de algumas palmas dei-me conta de que a garotinha estava num sono profundo. Enquanto pensava numa alternativa para levá-la para minha casa e continuar meu trabalho, tomando conta da pequena num favor para minha tia, um senhor foi se aproximando morosamente, tentando puxar assunto. Dei um bom dia baixinho, virando a cabeça em claro sinal de que não tinha tempo ou disposição de manter um papo. Não tinha tempo pra ele. Mas ele não percebeu. Recusou-se a aceitar minha negativa e continuou conversando, primeiro falando do tempo, depois de que a menina logo acordaria e, sem alternativa, fui lhe virando o corpo, olhando compassiva, doando alguma atenção enquanto secretamente torcia para minha prima vir logo.
Assim que percebia ter um pouco mais de atenção o senhorzinho falou que não era fácil envelhecer e que eu só saberia disto quando tivesse os 80 anos dele com doença e desprezo dos filhos. Ai! Senti que ele merecia um pouco mais de ajuste dos meus ouvidos e uma abertura estável do coração. Vá lá, não me custava ouvir um pouquinho o velhinho. Desfilou suas agruras, as dores do corpo e as piores, da alma. De como sentia o desprezo dos quatro filhos que com tanto sofrimento criou, da amargura em receber migalhas e resmungos por uma das noras que aceitou tê-lo em casa, num quartinho dos fundos, devidamente isolado. Da fome. Não de comida, mas de afeto.
Deve ter se passado uns 20 minutos. Não ousei confirmar olhando no relógio. Ele precisava mais do meu tempo do que eu. Os olhinhos molhados, as mãos trêmulas, o rosto abatido e triste parece ter descarregado um peso que as costas cansadas não podiam carregar sem lágrimas, em busca de um ouvido humano e disposto. Desconfiei que o lamento já tinha sido vertido para alguma parede ou porta-retrato velho, mas era de um olhar compreensivo e complacente que o velhinho precisava.
Minha priminha apareceu na porta, sonolenta e me chamando para entrar. O idoso olhou para ela, sorriu amável, fez mesura com o chapéu velho e com um gesto me agradeceu por tê-lo escutado. Era tudo o que ele parecia querer há algum tempo. Pouco demais para pedir e muito para alguns aceitarem dar. Eu que sempre quis ganhar o mundo, olhei para aquele ser carente que fez de mim seu mundo por alguns instantes. Ele subiu a rua com sofrimento, apoiando-se na bengala velha de madeira. Numa última olhadela acenou em despedida e gratidão e retribuí o gesto, mais grata do que ele poderia ser. Não perdi 20 minutos, não, como poderia ser tentada a pensar. Investi onde o retorno é incalculável… numa pessoa que precisava se sentir gente de novo.
Desci a rua com minha priminha segura nas mãos e o velhinho no coração. Por um momento, tão pouco e efêmero, fui o mundo de alguém e não houve melhor coisa que eu pudesse ter feito naquele dia que rendesse mais.
Hoje acordei feia
Outro dia eu acordei de mal comigo. Deve acontecer contigo também, se você for normal como eu. Ainda que não seja, se for mulher também deve ter isto de se olhar no espelho e não ter qualquer empatia com o que ali está refletido. Era daqueles dias que o cabelo quer a emancipação alegando diferenças irreconciliáveis e não há argumento ou força bruta que o faça parecer simpático. Suas dobras, que já andam um tanto quanto saidinhas, atormentam em manifestação de crescimento.
Parei, olhei e constatei: “como estou feia e gorda”. Foi terrível ouvir isto de mim, mas é ainda pior ler isto nos olhos dos outros que nem conseguem disfarçar. Onde anda a solidariedade alheia nestas horas, não? Ameacei chorar, mas pensei que as rugas podiam se precipitar piorando ainda mais o quadro. Claro que eu sabia estar (beeeemmm) acima do meu peso e num ato de compaixão pensava em quanta injustiça se juntava na minha cintura e se espalhava pela barriga, coxas e braços. Injusto, eu achava, por saber dos recentes esforços com exercícios frequentes – ainda que não tão intensos – e um upgrade de frutas, verduras e afins no meu pratinho costumeiramente recheado de massa.
Tá, como muito e não pretendo negar, mas há tempos venho investigando com médicos um aumento de peso que não se justifica há mais de um ano. Preocupe-se não, lhe pouparei dos pormenores técnicos desta resistência em perder o que não queria que me pertencesse, é só um meandro para que à par fique de minhas lamúrias naquele dia. Ali fiquei, ali me penalizei e sumariamente defini a sentença: sem cremes, perfumes, arrumação ou roupas novas até ficar “bonita” de novo, garota! Ah, e sem redução da pena ou qualquer progressão de regime.
Num relance me lancei um olhar severo ao qual em fração de segundo retribui – sim, eu mesma – com outro de pena e lamento. Daí a boa pessoa que habita em mim se solidarizou com a penalizada que também divide espaço nesta turbulenta pensão. A boazinha abraçou a coitadinha, lhe ofereceu abraço, carinho e um pouco de conversa. Explicou-lhe o quanto era legal, amada e disposta a fazer da vida um constante espetáculo de alegria e aprendizado, contou da benção de ser perfeita fisicamente, apesar da tal pressão social lhe negar este direito legítimo por conta do manequim saindo do 42.
A boa pessoa fez a condenada se lembrar de tanta gente que não tem uma perna ou um braço, encontram-se enfermas ou com qualquer outra deficiência e a trocariam de bom grado por um corpo que funcionasse bem, ainda que mais redondinho. Pobre coitada que era, a ré se ofereceu para emagrecer à marra com tantos remédios ilícitos ou insalubres à disposição e a boa alma lembrou que mais vale a saúde que a magreza. Com afagos sinceros a convenceu de que não era justa a pena, que valia o esforço para escapar desta prisão auto-imposta e a compensação com cremes para o corpo e o cabelo, coisinhas cheirosas, roupas para aquele tamanho atual e sapatos, ah, sapatos eram mesmo sempre uma boa compensação.
Quase no fim estava quando já não precisava convencer aquela frágil criatura de que injustiça eram os rótulos, os desmandos em nome da tal fôrma. Triste era se abandonar enquanto colocava valor em quem não o tinha, ainda que bonito fosse pelo verniz que se via por fora. Aquele ar impetuoso a sair dos pulmões inflando o peito que se levanta esticando o pescoço e dá uma murchadinha na barriga foi o decreto final: absolvida. Liberta estava da pena, pelo menos por aquele dia, pois a gratidão lhe escapou pelos poros exalando o perfume suave do amor próprio.
E você, qual o “defeito” que tem? Pense nele como característica e pense mais: em todos os defeitos que felizmente não tem! Daí, agradeça a Deus por tantas bênçãos ao invés de ser ingrata por uma coisa ou outra que não saiu como desejava…
Amar a si mesmo
Sou do tipo que rumina as coisas. Feito vaca, sabe que come, mastiga, faz que engole e volta com o negócio pra mastigar outra vez? Pois bem, sou assim. Não foi muito bonita esta introdução, eu sei, mas você entendeu, não entendeu? Se sim, valeu o pouco tato com a coisa do ruminar e da vaca, que no caso, em nada me favorece.
São muitas as coisas que mastigo de novo, tentando sentir o gosto, absorver o sentido, aplicar. Uma delas é este verso bíblico: “Amar ao próximo como a si mesmo é mais importante do que todos os sacrifícios e ofertas” (Marcos 12:33). Já o vi escrito em caminhão, em faixas e em bilhetinhos e nunca me caiu redondo, direito, sem contestação. Não pela primeira parte do amar ao próximo, esta eu entendi direitinho, prometo. Tudo bem que não o aplique na integralidade da coisa, mas já o absorvi. Ok, não é uma absorção tipo Madre Teresa, pois desta, infelizmente estou a anos-luz em matéria de caridade.
A coisa toda se complica com o tal do “como a si mesmo”. Bobagem, talvez você ache, mas leve em conta meus sentimentos e pondere os seus. É prudente! A ordem em que a ordem vem – com nenhum trocadilho intencional – é que chama meus pensamentos ao segundo momento. Primeiro tenho que me amar, para só então amar o tal do próximo como faço comigo. São duas ordens em uma, algo como: trate de se dar o devido valor e carinho para que tenha a capacidade de reconhecer este afeto e o transferir aos outros! É que alguns têm uma facilidade de acariciar o próximo, e genuíno contudo não o é, pois não reconhecem o sentimento vindo para si próprios, ao contrário dos narcisos, né?!
Sim, tem a turma do “eu me amo” isolada de qualquer poder de visão, mesmo de curto alcance, com quem está além um pouquinho do umbigo. Tudo errado. Amar-se é reconhecer seus pontos fracos sim, mas não os deixar maiores que os pontos fortes. É saber da celulite e gordurinha e ainda assim se achar linda pelos olhos ou cabelos. Seguir esta ordem de Cristo é se ver como algo especial que precisa ser respeitado e velado, não como um apêndice para canalhas (de todas as categorias) usarem ao vangloriar-se. Já viu como tem gente boa por aí encolhida sob os chinelos de gente ruim? É funcionário que não desabrocha, garotas que não se livram de namorados encostos e amigos que se definham.
Tudo culpa de não prestar atenção a este detalhe da orientação: “amar o próximo como a si mesmo…” Equilíbrio cabe aqui. Na justa medida em que se reconhece como alguém especial que precisa de atenção e complacência, reconhece a necessidade em quem está ao lado. Amar-se é ser mais leve e generoso, consigo e com ele, ela, eles, eu. Amar-se é reconhecer o reflexo de uma nobre criação clareando a escuridão dos defeitos, uma mão generosa moldando um barro deformado. Daí, ao tanto se amar, na justiça e justeza de não se endeusar, transferir este cuidado e carinho para quem se aproximar, mesmo longe estando.
Fora da roda dos escarnecedores
Escolher amigos é fundamental para a nossa vida. Saber com quem compartilhar valores e parte da vida é uma tarefa importantíssima que determina sucesso ou fracasso. Quando eu era pequena meus pais foram bem incisivos neste quesito. Até mais do que eu gostaria, aliás. Alguns que eu considerava divertidos ou animados eram considerados inapropriados por meus pais e eles logo davam um jeito de esfriar a amizade, proibindo brincadeiras, visitas à casa e por aí vai. Você sabe como os pais fazem, não me demorarei nestas explicações. Fato é que aprendi cedo ainda que é preciso zelo na escolha de quem nos cerca.
Na escola eu não era exatamente popular. Era conhecida, por sempre ser estudiosa, mas não fazia parte das turmas mais badaladas, nem vivia cercada de garotos bonitos e meninas festeiras. Seguiu-se assim no colegial e na faculdade. Nesta última, com até mais intensidade. Tenho bons amigos, não me julgue solitária, por favor, mas aqueles de frequentar a casa, saber dos planos, dos rumos… ah, estes eram poucos! Até porque nunca fui dada à conversas assim, destas de jogar fora. Custou muito caro o meu período na graduação, para meus pais e pra mim.
Justamente por saber do preço, aproveitava o quanto podia o tempo de internato, de vivência com os professores e, claro, ao passo que virava queridinha dos mestres, não o era entre os colegas. Você, leitor, pode imaginar e se me conheceu naquele período, pode lembrar. Dados os fatos, não era figurinha fácil nas festas, nos passeios e nas turmas descoladas. Sofri um pouco, numa vez ou noutra, mas meu foco estava além dali. Queria o melhor para a minha formação e sempre tive medo de distrações e amigos/colegas, podem ser uma perigosa distração.
Vi pessoas da família e do círculo social enveredarem por trilhos perigosos, influenciadas por amigos – se bem que este é um título nobre demais para atribuir a este tipo de pessoa. Todavia, estar ciente dos riscos me fez ter mais cautela ainda. Não queria, de modo algum, qualquer proximidade com drogas, bebidas, farras ou orgias. E faculdade tem disso também, ainda que fora dos muros. Talvez você pense que eu era triste ou isolada e não existe retrato mais incorreto para o que eu era, te asseguro.
Uma vez alguém me disse que eu não devia fazer diferença entre as pessoas e tratar tudo igual e vi que ela confundia um princípio básico: tratar todos com igualdade e respeito não significa aproximar demais a ponto de ser levada junto ao lodo. Tomei pra mim que sempre faria o máximo para mostrar o bom caminho para amigos em descaminhos, mas ao constatar resistência em mudar, não ficaria de mãos dadas pra cair junto. Egoísta, talvez você me rotule. Eu diria cuidadosa. Até demais, pode ser. Mas prefiro seguir sozinha em segurança do que me perder em grupo. Meu plano maior é o céu. Nada aqui parece bom o suficiente para eu arriscar este objetivo mais nobre. Se pessoas ao meu redor oferecem riscos, prefiro me afastar. Se pedem ajuda, estarei lá, atenta para ajudar, mas não contem comigo para rumos que me afastem de Deus, não faço questão de sentar nestas rodas.
Ai, se isto pega
Depois de ver e ler a matéria de capa da revista Época, dando ainda mais visibilidade ao hit “Ai, se eu te pego” do sortudo Michel Teló – como se ele precisasse mesmo! – pensei sobre a frase de chamada: “… traduz os valores da cultura popular brasileira.”…
De pronto me indignei com o editor a revista me perguntando se ele sabia o que era traduzir e também cultura popular brasileira. Pus-me a evocar os chamados “gênios” musicais, culturais e reforcei todo o meu preconceito contra esta massificação sexual dos versos atuais quando… plim, plim, caiu a ficha! Errada estou eu, afinal!
Errada pelos rótulos de sempre que qualificam cultura brasileira por Tom, Vinícius, Gil, Chico e Caetano. Odeio tanto quando nos reconhecem só pelo Carnaval e os sambas-enredo que ninguém mais escuta no resto do ano que joguei no mesmo caldeirão estes hits que hoje nascem, crescem e amanhã morrem. Todavia, cultura vai muito além dos aclamados pela crítica, já que metade do País também nunca escuta Chico Buarque, convenhamos!
Cultura, segundo o dicionário é – entre outras coisas – “o conjunto de manifestações artísticas, sociais, linguísticas e comportamentais de um povo ou civilização.” E isto é visto na religião, produção econômica, música, teatro ou literatura. Sendo assim, eu gostando ou não (este caso N-Ã-O, só pra ficar bem claro!) o frenesi em torno do hit é uma representação cultural legítima e válida. Se é edificante, filosoficamente relevante… bom, aí é outra discussão. E a julgar pelo sucesso da música grudenta e o desconhecimento da massa quando o assunto são os clássicos de MPB, por exemplo, o tal Teló está mais pra cultura brasileira do que Bossa Nova. Ai se eu te pego!
Não se trata de hipocrisia
Todavia, existe um outro lado a ser considerado aqui e não brigue comigo antes de pensar a respeito. Promete? É a máxima que prega serem os atos mais poderosos professores que as palavras. Ou você não conhece pais que mandam as crianças informarem que “não estão” para logo em seguida ensinar que não se pode mentir? Uma amiga minha gostava muito de refrigerante, mas não queria que seu filho pequeno tomasse a bebida, por ser demasiado insalubre. Combinou, então, com o marido e nunca mais tomaram na frente do pequeno.
Dias atrás fiquei pensando a respeito. Somos todos responsáveis pelo que cativamos, como diria o Pequeno Príncipe de Saint Exupéry, e acredito que nem todos os nossos “pecados” devam ser expostos sob pena de um estrago ainda maior e fora do nosso alcance pra conserto. Choquei você? Espero que não. Você ainda há de concordar comigo, querido leitor. É que, às vezes, um ato nosso tem um poder incrível de magoar, desencorajar, escandalizar e tudo isto irreversivelmente.
Alguns, na ânsia de se mostrarem “super sinceros” não consideram os efeitos colaterais de aparecerem comendo ou bebendo determinadas coisas na frente de pessoas que talvez não tenham bagagem pra suportar o escândalo. Ou ainda, julgam de pouca monta o falar e proceder de maneira indecente, levando outros ao mesmo erro. Sempre penso nisto ao ponderar que algumas das minhas fraquezas não devem mesmo nunca serem públicas. Não que seja um viés de falsidade do meu caráter, mais um cuidado para que o meu erro não leve outros ao erro e aí as coisas saiam do controle e eu não possa consertar o estrado.
Claro que é bem melhor não fazer nada que sirva de pedra de tropeço para os outros, pois as consequências podem ser adicionadas à sua conta, todavia, se algo impossível for, cuide para que não se espalhe. Um testemunho é muito mais poderoso do que a boa lição pregada. Pense nisto ao agir.
O poder o elogio
Eu sou do tipo que se inflama e apaga como fogo em papel, em palha. Sou eu. Num estalo consigo estar super pra cima, cheia de ideias e de boas intenções vendo como tudo é possível na vida. No segundo seguinte minha mente – deteriorada pelo pecado! – começa a se auto impor obstáculos intransponíveis para aquilo que agora há pouco eu achava inevitavelmente um sucesso. Lamento, sou assim.
Aí é que vem o bom, gente que te incentiva. Não com adulações vazias, mas com elogios sinceros que não pretendem outra coisa a não ser te impulsionar para continuar no trilho. É de se admirar que existam pessoas assim, por aí, repartindo raios de brilho para dissipar as trevas da autoestima. Você já notou algum do seu lado? E já tentou ser isto para alguém.
Policio-me para “encher o balde” das pessoas que estão perto de mim, pois sei do valor do elogio e se os chefes soubessem também, economizariam milhões em palestras motivacionais e receberiam muito mais em troca. Contudo, o ser humano tem um ranço ao elogio, já notou? É como se ao elogiar alguém estivéssemos tirando de nós mesmos. Daí o orgulho e o egoísmo bloqueiam a ação e se alguém é louvado perto de nós, até damos um jeitinho de diminuir o mérito alheio, só por vaidade ou inveja do elogio dela. Mesquinho.
Elogiar com sinceridade e precisão é um talento que precisa ser cultivado. É o dom de motivar, de reconhecer e parecer um pouco com João Batista que afirmou “importa que ele cresça e eu diminua” ao tratar de Jesus que era um desconhecido à época. Imagino que Deus sorri ao ver um filho elogiando outro, na pura intenção de encorajá-lo como fez comigo a Iatiara, ao mandar um e-mail elogiando este espaço do blog e me levando as lágrimas de alegria. Obrigada, querida! Impulsos assim me dão entusiasmo para fazer deste uma esquina de bons pensamentos, intenções e ações!
E você, leitor querido, que tal experimentar? Escolha duas pessoas admiráveis ao seu redor e as elogie sinceramente. Vai lá, é de graça e rende um monte. Depois me conta, tá?!
Muitas resoluções, poucas ações
Se tem uma coisa que aprendi bem neste ano que passou é que boa intenção não serve mesmo pra muita coisa. Digo e repito. Se quiser discordar, caríssimo leitor, fique à vontade, mas antes, leia meus argumentos.
Há exatos doze meses estávamos meu marido e eu na beira do Guaíba, em Porto Alegre. Ainda não tínhamos casa disponível e ficamos os dias da virada do ano na casa de amigos e passaríamos o réveillon num solitário momento de reflexões e planos para o futuro. O pôr-do-sol ali era bucólico e cheio de boas expectativas para 2011, este gigante desconhecido do qual agora tudo sabemos.
Moldado pelas aulas do Mestrado em Liderança, se pôs meu digníssimo a me orientar não estipular mais que 3 metas tangíveis para o ano seguinte, sob pena de entre muitas não chegar a nenhuma. Assim fiz. Você não precisa saber de todas, nem acredito que queria ficar à par de minhas picuinhas pessoais, mas uma, clássica dos clássicos, eu divido: emagrecer 12 kg.
Bem acima do meu peso normal, sonhava em dar uma guinada na rechonchuda silhueta e agora, sem tanto sacrifício, gozar do meu sucesso, estipulado e sonhado um ano antes. Não que eu fique feliz em desfilar meus fracassos, todavia, cá estou com mais 6 kg somados àqueles. Não só não emagreci como engordei metade do tanto que esperava perder.
Esperava… este é o detalhe que agora vejo com clareza. Eu esperei perder um mísero quilo por mês em 2011 e de tão pouco hercúlea subestimei a tarefa e agora amargamente admito que fui uma derrota neste quesito. Aprendi uma lição: de nada vale uma boa resolução se não for acompanhada de ação e empenho. Simples, não?! Já tinha ouvido falar, talvez você já tenha aprendido bem isto, mas eu, aqui na minha ignorância empírica só agora internalizei a lição.
Está na hora das listinhas, dos planos e sonhos que parecem tão possíveis no limiar dos novos e vindouros 365 dias e elas só servirão de constatação de miséria se, além de listar, não nos propusermos sinceramente a executar os planos. E aí, amigo leitor, está contido o desânimo superado, a alegria premiada, a vontade controlada e a disciplina exercitada. Sem isto, seus mais cálidos planos não passarão disto: planos.
Razões que a própria razão desconhece
Fico triste no Natal. Todos os anos é assim. Já estou triste por antecipação, aliás. Agora, beirando as três décadas, posso vislumbrar a razão. É o passado.
Sou de uma família nordestina que migrou pra “Sumpaulo” em busca de melhores condições de vida. Pequena eu era e vim na bagagem, na tal mala e cuia. Não entendi muita coisa, mas meu coraçãozinho infantil sentiu e internalizou. Sei de histórias muito tristes dos meus pais ao se privarem do básico para que a meninha tivesse o que comer. Privaram-se de comida também.
Com muito esforço, trabalhos dobrados e toda economia que podiam, juntaram para um terreninho que aos poucos foi se transformando na casa da família. Ainda me lembro de um Natal peneirando areia junto com meus pais. Eu brincando, eles sonhando com a casa pronta, enquanto suavam sob o sol escaldante do nosso verão. Meu irmão menor fazia de latas e paus uma frota de caminhões (o que não é a imaginação?!!) e eu construía com a areia.
O resto de frango assado que a vizinha trouxe para o jovem casal nordestino com dois lindos filhinhos ainda está vívido em meus olhos. Devoramos, agradecemos. Meus pais choraram naquele dia. É a dor que eu lembro. Era Natal. Presentes? Não era o caso. Primos mais abastados nos visitaram, mostraram sua felicidade materializada e eu, por volta dos 5 aninhos, os invejei. Desculpe-me, mas senti mesmo muita inveja. Ouvi do tal Papai Noel – que nunca existiu pra mim – ouvi da ceia e do panetone. Queria tudo, embora não pudesse ter nada.
Passou-se o tempo, vieram outros natais e a prosperidade bateu à nossa porta não tirada do saco do Papai Noel, e sim do carinho de Deus. Já tem muitos anos que não existe miséria nesta data, mas ainda me é triste e para os meus pais. Nos olhamos, sentimos o mesmo. Meus irmãos menores talvez não entendam. Quem é de fora pode achar esquisito, contudo, é um luto contido. Agora, sempre tem peru e embora eu não coma, aquilo representa muito pra mim. Representa vitória sobre o resto de frango assado dado pela vizinha.
Acontece que aquela menininha que ainda mora em algum cantinho dentro de mim procura com seus grandes olhos verdes estalados por outras como ela e é só o que encontro nesta data. Noutro destes saí pela rua com meu marido, com um dinheirinho em punho para dar de presente a algumas famílias de catadores que achamos pela rua. É meu jeito de ninar aquela menininha que eu era e que invejava os presentes dos primos, a comida dos tios. De abraçar aquela criança que soluçava sem entender porque ela não podia ter.
Não sei se algum dia o Natal será gostoso pra mim. Ainda não aconteceu. Minha grande felicidade é pensar que, mesmo sem a data exata, é um símbolo do nascimento de Jesus e Ele nasce todos os dias pra mim. A tristeza que é só minha eu posso transformar em alegria para alguém ao meu redor que poderá descobrir o Espírito do Natal e ser mais feliz hoje, do que já fui naquele dia.
Fugindo para o brilho
Eram muitas as atrações em volta e ele mal podia se conter. Brilho, barracas com comidas e presentes coloridos. As luzes do Natal levaram as famílias para a rua e aquela era um exemplo típico. Logo atrás eu não sabia se ria ou se repreendia. Resolvi ficar olhando. Soltando da mão do pai ele corria em volta e, fascinado, dava pulinho de entusiasmo. Volta e meia olhava pra trás pra ver se o pai ainda estava por ali, por garantia.
Atrás dele ia o pai, tomando cuidado para não perder o garotinho de vista. Tarefa difícil, pois nem chegava a um metro de altura com seus prováveis 3 aninhos. Enquanto espreitava, imaginando o susto que levaria quando se visse perdido, dei-me conta de que faço o mesmo, brincando de fugir do Pai enquanto as luzes da vida me atraem para fora do perímetro de segurança. Não é assim contigo, querido leitor? Comigo é.
Tudo parece estar certo, o Pai ali do lado e em volta as inúmeras atrações. Dou uma olhadinha para ver se não fui muito longe e continuo na busca por algo a mais. Olho de novo, o pai está lá. Longe, é verdade, então acho que ainda está seguro avançar mais um pouco, correr ali, pegar algo acolá. Dou risada, sinto coisas, vibro e quando tudo já não é tão novidade ou brilho canso, olho para trás. Mas cadê o Pai. Ele estava ali, mas fugi dEle. Brinquei de fugir, pois não queria mesmo ir embora de verdade, mas no meio da multidão meus passos me guiaram inseguramente.
Dá um desespero, o caminho é longo pra voltar, as luzes ofuscam, muita gente no contra-fluxo e o Pai, cadê? O bico ameaça desencadear um choro, os olhos arregalados em busca de qualquer sinal dEle…
Enquanto eu pensava, lá vinha o garotinho chorando de soluçar, abraçado ao pescoço do pai que na minha direção passava, indo embora e assegurando: “Não precisa mais chorar, calma, o papai está contigo, eu te achei”.
merecimento e desmerecimento
Mania que temos de exaltar quem já trabalhou fora da Igreja, erguendo sobre todos os grandes talentos que nunca atuaram fora e dedicaram seus talentos integralmente dentro da Obra. É uma coisa meio provinciana que mistura bajulação e esconde uma ponta de inveja, veneração e baixa autoestima, talvez.
Sou jornalista e trabalho para a Igreja Adventista há sete anos, seja em rádio, assessoria, televisão ou revista. Neste meio tempo também trabalhei no SBT em Santa Catarina e até hoje quando sou apresentada em algum lugar é algo mais ou menos assim:
“A Fabiana, que foi jornalista do SBT….” e por aí vai.
Acho engraçado e não se ofenda, se você que lê já o fez também, mas fico pensando nesta coisa de supervalorizar quem trabalhou fora da instituição, como se fosse melhor, mais talentoso ou algo equivalente. E olha que nem estou falando de mim, não, pois nem sou assim tão adulada. Contudo, olhe um pouco nas pessoas que são “entrevistadas”, “destacadas” em algum canto dentro da Obra.
Outro dia eu brinquei com meu marido que ele devia alardear que trabalhou na sede mundial do HSBC em Londres. É verdade, ele trabalhou. Foi lavando panelas, quando estudava por lá, mas trabalhou, não trabalhou? É assim em muitos destes casos. Às vezes a pessoa em questão fez apenas um estágio e nem foi tão bem assim, ou foi contratado para uma função daquelas que nem o gerente conhecida direito o sujeito. Pode ser uma função irrelevante, pode ser por curto período, pode até ter sido a pior experiência da vida do sujeito ou da sujeita, todavia isto parece brilhar mais no currículo do que qualquer grande realização que faça ou venha a fazer dentro da Igreja.
Com toda a ovação em cima do indivíduo, fico pensando em quem nunca saiu. Que sempre ficou “aqui”. É inegável que temos experiências diferentes e não renego todo meu aprendizado fora, mas já não o poderia tê-lo feito dentro das paredes da organização? Por um acaso o cantor que veio de fora, a moça que foi “sei lá o quê” naquela agência badalada, ou na empresa X, é melhor ou mais eficiente do que os que trabalham sempre pra Igreja? Não acredito.
Você, leitor inteligente, sabe que estes escritos não se aplicam a todos, obviamente. Ninguém está autorizado a interpretar mal minhas palavras, pois acho mesmo que haja mérito em conseguir um bom emprego e desempenhar com louvor sua função, mas não menos aqui do que lá. E alguns que talvez nunca teriam se destacado do outro lado, vem agora aqui arrotar de super cortês por ter deixado todos “os privilégios” pra devotar o talento a Deus. Ahã, sei…
Sociedade do “tem que”!
Como é fácil ser um milionário, agarrar o homem dos sonhos, ficar magra e linda, bem sucedida na profissão e ter um orgasmo! Sim, está nos livros inundando nossa mente de expectativa e nosso coração de frustração. É só dar uma voltinha pelas livrarias – e a prateleira dos mais vendidos – bem como nas bancas de revistas em qualquer esquina. São manuais, guias de conduta e “pensamentos adequados” para se chegar aqui ou ali.
Do jeito que estão dispostos e disponíveis é mesmo tentador pensar que basta querer para trabalhar 4 horas na semana e ficar rico. Ou ainda que com uma mudancinha básica é perfeitamente possível conquistar um milionário e deixar todos os homens aos seus pés, sem falar que é a coisa mais natural do mundo ser magra, bonita ou saradão! Ah, não… você não é rico e lindo? Fracassado! Perdedora!
É bem de nós humanos a sensação de querer o que não temos, de focar no impossível e adorar provocar ciúmes e ostentar o invejável. A indústria e a publicidade já descobriram isto há algum tempo e usam com maestria de fórmulas prontas e bem manjadas – eficazes, apesar de conhecidas! – para causar insatisfação induzir ao consumo. Acontece que eu me recuso a esta chantagem emocional.
Claro que não estou imune. Você também não, viu! Contudo, conhecer, perceber e reconhecer nosso valor e individualidade, apesar dos rótulos e obrigações sociais é uma ponte para saltarmos sobre este mar insano de perfeição inatingível. Mesmo porque, caríssimo leitor, se fosse mesmo tão fácil ser rico, bonito e bem-sucedido, não haveria pobres, feitos e fracassados. Além disso, riqueza para um pode ser a fonte de miséria sob olhos dos outros, o que eu acho bonito aqui, é feito lá na ásia e ter sucesso, ah, ter sucesso é assim tão relativo, meu bem!
Lições
Se tem uma coisa que gosto mais do que as outras é ficar com minha sobrinha linda, a Milena. Ela é filha do meu cunhado, o irmão mais velho do meu marido. Linda como só, deve mesmo ter puxado a mãe, a beldade loira da minha cunhada amada. Estar no meio deles, da minha família, é divertido e restaurador, sobretudo quando podemos esticar um pouco mais que os habituais três dias.
Minha pequena, no entanto, tem me ensinado mais que eu pretendia passar a ela. Descobri como criança absorve o que você diz. Quando ela era menorzinha – hoje tem 8 anos – eu dizia que ela valia um “ovo frito”. Era para zoar e relacionar com fato de ser branquinha com longas madeixas louras. Daí no aniversário de 5 anos, bem grandona e esperta eu brinquei: “Quanto mesmo você vale, Mi?” “Um ovo frito”, foi a resposta que recebi para gargalhada dela e dos outros comensais à mesa.
Eu quis “promovê-la”, pois já estava maior, dizendo que agora ela já era um omelete. Rimos mais e no outro dia a avó foi brincar, falando do ovo frito ao que ouvi: “Não, vó, já tô valendo um omelete. Foi a dinda que disse”. Mais gargalhadas e me dei conta de como ela aprendia e internalizava o que dizíamos. Era preciso cuidado com aqueles ouvidos bem sintonizados.
Muitas lições e momentos gostosos para um aperto no coração com a maior lição que minha pequenina me ensinou. Era setembro e eu tiraria uns parcos dias de férias, mas antes de viajar fomos passar uns dias lá em Xaxim, no oeste de Santa Catarina. Cheguei de madrugada, vindo de Curitiba e meu marido já estava lá. Ele foi de Porto Alegre. Ao me buscar na rodoviária, avisto um bolo de cobertor no banco do carro. Era minha florzinha, buscando a dinda naquele frio. Um amor, uma expectativa. Fez até calor.
Apertos, abraços, muitos beijos e um dia, enroladas na cama seguiu o seguinte diálogo:
- Dinda, eu não quero que você vá embora. Fica mais comigo! – pediu.
- Mas eu preciso trabalhar, minha flor! – repliquei.
- Então trabalha aqui. Tem TV em Chapecó e tem jornal em Xanxerê – argumentou.
- Mas o dindo também trabalha – era eu tentando.
- Tem igreja aqui também!! – era ela irredutível
- É que o trabalho da dinda é lá longe – tentei explicar.
- Mas você disse que eu sou importante, não sou? Eu não sou mais importante que o seu trabalho?
- Claro… – era eu me contendo pra não chorar.
- A gente tem que ficar junto de quem a gente ama. Você tem que ficar perto de mim! – argumentou no golpe fatal.
Não respondi mais nada. Eu não tinha o que falar. Nem meu marido, que ouvia a conversa e já se apertava na convicção de que recebíamos ali uma grande lição. Uma dura verdade.
Tenho medo de filhos
Tenho medo de ter filhos. Ok, vou confessar: fico apavorada com a ideia de criar e educar uma criança. Você não? Eu sim. Mais de educar do que criar, claro, pois já criei plantas e animais e nem é assim tão difícil. Eles vão por si próprios. Mas educar, e uma criança, ainda… ah, isto é pavoroso. Talvez por isto venho adiando a maternidade, apesar de almejada pelo meu lindo e adorável marido. Sim, quero filhos com ele. Eu queria quatro, mas ele disse que vamos à falência assim. Então acho que me contento com três, igual lá em casa. Ele quer dois, como na casa dele.
Todavia, o número de rebentos é o menor de nossos problemas. O meu problema – em particular – é que assisto e leio jornais. Não entendeu? Simples, vou explicar, tá?! Vejo filhos “bem-criados” combinando a morte dos pais à pauladas, outro dando tiro à queima-roupa e algumas se drogando e infernizando a família toda. De longe a família parece tão normal e adequada… mas de perto ninguém é mesmo normal, vivo dizendo.
Sei absolutamente tudo o que fazer e dizer a uma criança. Li muito à respeito. Verdade! Sei que não se deve nanar para dormir, que umas palmadas ajustam o caminho – sem violência, claro! – e sei também que deve-se sempre inculcar pensamentos positivos e otimistas para encorajá-lo sem sobrecarregar de pressões. Sou a mãe perfeita, não fosse um detalhe: filho aprende o que vê, não o que ouve. Aí começam meus dilemas. Eu aprendi imitando meus pais. Até o que não devia, convenhamos. Você também! Pare e lembre.
Às vezes o discurso era um e o exemplo, bem o exemplo era um tanto menos nobre e eu imitava o que mesmo? Não, não era o bonito falatório. Daí me dou conta de que é preciso me educar, antes de educar um bebê. É preciso ser uma pessoa melhor para querer um filho bom. Necessito me abdicar de coisas que penso em proibir para os moleques – e meninas – e nem penso e fazer isto agora, já que não os tenho. Contudo, quando os tiver, farei assim, fácil, sem pestanejar? Claro que não, oras. Sou humana, como imagino que você também seja. Corrija-me se eu estiver errada, por favor.
Aí, como é difícil me educar, me moldar e acertar o ponto do meu caráter, difícil é fazer o mesmo com o meu filho. Por isto tenho um certo medo deles, pois evidenciaria o que de pior há em mim.
Atenção, senhores passageiros…
Era domingo e eu estava emburrada por ter que viajar a trabalho. Era um dia lindo em Porto Alegre quando eu deixava a capital gaúcha em direção à São Paulo, que também tinha o céu aberto e a delícia dos 22 graus. Passageiros apáticos como eu retornavam seus encostos, ajustavam o cinto de segurança, abriam as persianas e desligavam os aparelhos eletrônicos. Estávamos em procedimento de descida quando o inesperado me chamou a atenção e começou no tom de voz, sorridente, do piloto que anunciou:
- Olá, queridos passageiros. O dia está lindo e o tempo bom de São Paulo convida para apreciarmos o céu. Hoje é domingo, sorria, ligue para alguém, marque de almoçar num dos deliciosos restaurantes da capital paulista e, se quiser, posso até dar algumas dicas. Que você tenha um dia feliz, ainda que de coração partido, que sua vida hoje possa ser diferente, se estiver recomeçando ou em busca de um novo amor. Quem sabe é aqui que vai encontrar. Pois sempre estamos em busca de um amor, seja desconhecido ou aquele que deixamos escapar. Então, aproveite bem o seu dia, seja bem-vindo à São Paulo.
Em volta as pessoas se olhavam encabuladas, outras rubras e ainda aqueles assombrados com o ineditismo dos “conselhos” vindo da cabine de comando. Achei lindo!! Meu dia ficou mais feliz, mais sorridente, coloquei música para ouvir, abri os dentes para quem passasse por mim e decidi ser feliz naquele dia, pois era uma dádiva estar recebendo mais algumas horas de vida, saúde e tanto a comemorar. Fiquei pensando que é preciso tão pouco para nos alegrar, não é?! Aquele piloto foi meu “Amelie Poulain” e creio que posso fazer o mesmo por qualquer um que passe ao meu lado. Posso pelo menos tentar transparecer alegria e irradiar um pouquinho de esperança ao invés de só cumprir o protocolo ou despejar rabugice. Você também pode, não pode?
Melhor ou pior? Depende…
Que loucura. Se você procurar no meu blog verá que em menos de dez meses eu estava escrevendo da minha mudança para Porto Alegre e agora, já estou de partida. Sensação estranha. De novo, aliás. Não que eu não goste de mudanças. Gosto. Acho até que seria bem chata a vida toda num único lugar, mas não precisa mudar com tanta frequência, né? Ainda mais que em fevereiro do ano passado eu tinha mudado também. Sendo assim, fiquei menos de um ano na outra casa. Haja móveis pra aguentar tanto monta-desmonta, dinheiro pra repor o que se perde e paciência com caixas e reformas.
Estou meio apática hoje. Acho que ficamos pouco aqui. Tenho que confessar e bem baixinho para os gaúchos não festejarem (ou festiarem, como dizemos aqui), mas ô povo bom de se ter por perto! Vim chorando, colocando na balança tudo o que perdia ao deixar a bela Curitiba. Concordemos, cidade igual não há. Mas ao chegar – ainda que torcendo o nariz por tanto lixo nas ruas, fachadas mal acabadas, calçadas esburacadas e outras tantas falências públicas e sociais – me deparei com um povo hospitaleiro, alegre. Bairrista, sim, é verdade, mas capaz de receber e acolher como nenhum outro. Talvez não tanto quanto nós baianos (risos), mas quase isto. Fato é que fizemos amigos e novamente despedir dói. Agruras da vida.
Agora, enquanto ouço os ecos da casa vazia, fico pensando se existe mesmo esta história de lugar melhor ou pior. Acho que não. Existem lugares com mais ou menos amigos. Antes de sair de Curitiba dizíamos que se pudéssemos escolher, pra lá voltaríamos. Hoje, acho que é pra “capital do mundo” o meu retorno predileto e do meu marido também. Não, não acho Porto Alegre mais bonita, nem poderia, pois falta muito pra esta cidade ter a infra-estrutura que o povo merece, contudo acho que aqui poderia voltar quantas vezes quisesse e encontrar um quarto pra pousar, uma roda pra conversar e risadas pra dividir. Bah, tchê, foi tri legal!!
Cliente preferencial
Não sou do tipo que gosta de se arrumar. Quem me conhece no íntimo sabe que a imagem da TV e das fotos de divulgação não condizem com a realidade nada glamorosa de cabelo desgrenhado, roupas puídas (mas confortáveis!!) e sapatos sem qualquer vaidade. Só mulher – e travestis, claro – sabem da dor de um salto alto. Não é eu seja falsa, o que pode estar passando na sua cabecinha esse momento por só ter me visto “engomadinha”. Nem tão pouco vítima. Devo admitir, no entanto, que ando cedendo à certos caprichos. Espalhados em algumas bolsas estão batons e – pasme! – até rímel. Confessemos: rímel até é bonito nos cílios, mas chatíssimo de tirar.
Andei comprando mais vestidos, acessórios e até frescurinhas para enfeitar o cabelo. Toda esta introdução menininha pode ter entediado você, caro leitor, mas não abandone estas linhas ainda, pois quero te falar de algo mais nobre que minhas futilidades estéticas. Quero te falar de amor. Não qualquer sentimentozinho frágil ou volúvel, nem tão pouco safadezas encobertas por este nobre título. Não! Discorrer apenas queria sobre as sutilezas de amar e encontrar no ser amado todas as razões para se jogar sem reservas no que
poderia se denominar “efeito colateral” do amor. São justamente estes peculiares ajustes em nossa conduta tradicional para adocicar o coração de quem se ama.
Tornar-me mais “menininha” é um destes up dates na minha personalidade, pois meu marido adora esta faceta. Ele me gosta cheirosa, arrumada, de saltos altos e cabelos enfeitados. As vezes
tenho preguiça, mas ainda assim o faço, só pra vê-lo feliz e satisfeito. E, as vezes, gosto de ser apenas o bibelô que ele exibe. Espantado? Indignada? Pensa que rompi com meus direitos e os subjuguei à vontade machista? Ah, larga de bobagem!
Ficar mais parecido com quem se ama é perfeitamente natural e abrir mão de algumas das nossas “coisas” para deixar o outro feliz faz parte do aperfeiçoamento da relação. Não consigo crer em casais em que um dos
cônjuges sofre da “síndrome de Grabriela” argumentando que nasceu assim, cresceu assim e vai morrer assim. Acorda, bem! Abrir mão de você mesmo também é ganhar. Ganhar a chance de jogar fora alguns vícios arraigados e cultivar um desprendimento em relação àquela pessoa que divide a vida contigo. Oras, se
faço tanto para agradar meus superiores no trabalho, colegas de escola, amigos ou clientes, quanto mais não deveria me esforçar para fazer feliz e satisfeito meu companheiro. Quer cabelo arrumadinho, roupa bonitinha? Ok, por que não? Não me custa ficar mais feminina e ganho muito com isto. Tá, é chato tirar maquiagem e andar de salto alto, mas o sorriso de contentamento do homem que amo vale cada desconforto com o bico fino.
Peregrinos…
Claudia é o nome dela e o marido se chama Adrian. São bonitos, bem-sucedidos e criam dois filhos lindos com inteligência e disciplina – regados com muito amor latino. São romenos e eu os conheci quando morei em Santa Felicidade, bairro gastronomicamente italiano de Curitiba. Isto foi em 2006 e de cara achei a Claudia diferente. Ela estava grávida na época e seus traços finos e nobres me chamaram a atenção. Simpáticos, logo nos ligaram, convidaram para jantarzinhos que receberam reciprocamente o agradecimento devido. Nos tornamos amigos. Eu virei admiradora inconteste.
Morávamos num charmoso sobrado alugado, naquele pequeno condomínio de 20 casas iguaizinhas. O do casal romeno era geminado com o nosso e eles simpaticamente nos alertaram quanto ao vazamento de prováveis “ruídos” no dormitório. Entendemos o recado e nos enchemos de prudência. Se bem que nem adiantava. A Claudia tem até hoje ouvidos absolutamente sensíveis, se posso dizer assim. Numa manhã gostosamente rara de sol ela perguntou porque nos levantávamos tão cedo, se só saímos duas horas mais tarde. Hã?
Ela ouvia o estalar do interruptor quando meu marido acendia a luz para estudar a Bíblia e também o ruído da escovação, sinalizando que começava a preparação para sair de casa. Sim, ela ouvia tudo! Talvez pelo final incômodo da gravidez e o início da vida do caçula, que lhe rendia alguma insônia. Não sei ao certo. Meu sono pesado e eu nunca entendemos tamanha disposição auricular. Poucos meses depois eles se mudaram pra Itália, carregando parte da nossa amizade. Numa viagem dessas desviamos a rota e os visitamos em Pescara, litoral italiano onde o Adrian trabalhava agora para uma multinacional.
Economista de formação a Claudia abandonara a carreira pois acreditava que seus filhos deviam ser parecidos com os pais e não o poderiam ser se criados por estranhos. Já falei que ela é ultra-disciplinada? Outra hora conto de como me inspirou quanto à educação de filhos, contudo o que me marcou mesmo foi que tanto na casa de Curitiba, como na da Itália e a de São Paulo – ele voltou ao Brasil por outra empresa – ela mantinha a simplicidade que não condizia com sua condição financeira e status social.
Nada luxuoso ou caro, moveis e acessórios usuais e simples. Por quê?
- Porque me sinto peregrina aqui, Fabi. Não sou destes lugares por onde ando e não vou gastar energia e dinheiro aqui. Um dia volto pra casa e preciso viver aqui com a esperança de que isto vai chegar logo, ainda que não pareça.
Estas palavras ainda ecoam na minha mente ao pensar no quanto gasto aqui na terra e no tanto de vida que deixo aqui com meu tempo, paixões e dinheiro. A casa para onde a Claudia sonha voltar é a Romênia – seu país – e parece um sonho distante por conta do trabalho do marido. Mas minha pátria é perfeitamente tangível. Meu lar é o Céu e já estou quase lá. Aqui eu preciso viver como peregrina que sou, pois meus investimentos devem ser para meu Lar Eterno. Onde coloco toda minha energia determina o lar que quero pra mim e, definitivamente, não é aqui.
Confissão…
Sofro com críticas. É verdade, eu choro, até. Sempre digo que não, que gosto de ouvir, que é bom pra crescer e estes clichês que nos fazem parecer mais seguros para os outros. Mas descobri ser uma falácia. Eu não gosto de receber críticas, me sinto atacada no âmago do meu ser e ponho-me como a criatura mais ignóbil do planeta. Estava pensando nisto ao ponderar meu medo enorme em publicar meus livros, mesmo sendo estes meu grande sonho.
Talvez eu mude de ideia daqui uns anos e diga outra coisa, mas agora acho que tenho medo de publicar por não saber me defender das críticas, sutis ou grosseiras que virão. Até acho as ideias boas, o assunto bem colocado, importante, mas me apavoro como que me imaginando numa sala lotada de gente má e eu ali, despida de qualquer invólucro ou proteção. Aff, como é ruim falar assim de si mesmo, mas é minha maneira de expurgo.
Sei que não é lisonjeiro contar dos próprios defeitos e podemos perder alguns “admiradores”, mas se estes só existem por conta da capa de infalível, então não os mereço mesmo, pois se me desse ao trabalho de costurar em linha reta os retalhos de defeito que tenho, conheceria todo o planeta, circundando-o com meus trapinhos. Não é? É sim! E a crítica é pavorosa por isto. Não existe a tal da construtiva. Isto foi uma bobagem que inventaram para não parecerem cruéis e sim amáveis conselheiros enquanto trucidavam nossos melhores intentos.
Por si só, a crítica é corrosiva, ácida, destrutiva. Ela foi criada pra isto. É como o alfinete que “sutilmente” acaba com o vôo inflado do balão ou o espelho que reverte uma imagem diferente da que paira no nosso obstinado cérebro otimista. O bom é que existem pessoas que sabem se proteger dos ataques, com uma capa poderosa que é reiterada depois de agredida. Outros tem anjos restauradores ao seu lado, seja como pais, amigos ou marido. Meu caso, aliás.
Não dá pra fugir dela, pois independe da nossa vontade. Talvez fazer-se de surdo em alguns momentos. Eu, às vezes, sorrio pensando num refrescante suco de melancia com limão enquanto tenho alguém à minha frente dando “conselhos” de como melhorar. A pessoa não quer me ver melhor, quer ver meu tropeço, fracasso, bancarrota e isto se percebe logo na falsa empatia de abordagem. Então, antes do meu serzinho se fragmentar em lágrimas na frente do crítico, mudo meu cérebro de frequência e ao terminar a acidez estou feliz com o sabor imaginário e refrescante da melancia em meus lábios. Agradeço sorridente e deixo a criatura feliz por ter despejado seu veneno que uma ou outra hora acabará por matá-la. É meu jeito de sobreviver.
Mas uma hora me cubro de coragem e me abraço aos meus anjos para segurar com orgulho meus livrinhos por aí, juntinhos ao peito.






