O que mede o valor de uma pessoa?
Sou filha de uma empregada doméstica e de um caminhoneiro. Por saber de onde vinha o dinheiro que botava comida na minha mesa, sempre tive a tendência de olhar com mais complacência e certa intimidade para qualquer pessoa que faça trabalhos braçais. Acho que a empatia é por tantos anos nas “dependências dos fundos” com meus pais, é por entrar pelo “portão de baixo” e passar a infância e adolescência sem conhecer a sala principal ou o hall de entrada.
Claro que como qualquer garota da minha idade eu sonhava com brinquedos e roupas caras e meus pais tentavam me engabelar para aceitar de bom grado o brinquedo ou roupa inferiores. Às vezes funcionava, mas nem sempre. Importar-me, entretanto, por ser filha de quem era, isto nunca me importei. Na comunidade e no seio familiar onde cresci, valores como honestidade e trabalho duro eram – e ainda são – admiráveis. Meus pais são bem quistos pela família que formaram e eu fui a primeira à ir para a faculdade. Por ser mais velha de três irmãos, acabei abrindo caminho para que o ensino superior fosse uma coisa natural e não preciso falar das lágrimas e orgulho dos meus pais ao entrarem comigo na formatura.
Só que com um pouco de mais de percepção notei um mundo hostil a quem faz o trabalho pesado. Não que o ignorasse completamente, mas a idade nos faz enxergar com outras lentes a vida e isto vem me incomodando dolorosamente. Afinal, porque o presidente da companhia é mais importante que a senhora que limpa os banheiros ou a sala de reunião? Você provavelmente tem argumentos e entre estes o fato de que o teor do trabalho do executivo é mais importante e tem desdobramentos mais significativos. Mentira não é, contudo como seria o trabalho dele sem alguém para limpar a sujeira, hein?! Sempre fico pensando isto quando vejo algum engravatado a cruzar por alguém da limpeza sem cumprimentar.
Daí vem outra crise: se a limpeza do local é importante, por que quem a faz ganha tãaaao menos que os outros? Por que medimos as pessoas por suas funções na sociedade se todas são igualmente necessárias? Ou vai dizer para o meu pai que o trabalho dele de carregar as peças de carro para grandes montadoras pode parar, pois os engenheiros, executivos e outros tantos funcionários conseguem montar um carro sem o carreto? Tenho vários tios que são pedreiros e um me contou certa vez que tinha feito uma mansão incrível num condomínio de luxo na minha cidade. Ele fotografara a obra passo a passo, orgulhoso do seu trabalho duro, mas foi impedido de entrar lá novamente, para buscar uma ferramenta esquecida, pois a obra havia sido concluída e agora aquilo era reduto de ricos e não de um serviçal sujo de cimento. Puxa, era ele quem sabia onde estava cada azulejo e interruptor e “habitara” aquele lugar nos últimos 8 meses, mas jamais poderia entrar lá de novo!
Entende o que quero dizer? Com que direito ousamos não cumprimentar o zelador, o porteiro, o construtor, a faxineira, o pregador de batentes? Pense na profissão que é ignorada em seu meio. É claro que sei a diferença das consequências do trabalho de um presidente e de um zelador, mas até hoje não conseguiram me convencer que aquele é mais importante que este. Acho que nunca conseguirão, pois simplesmente não o é! Ter o seu valor em mente e os dos seus pares também é uma boa medida para não se achar superior pela função que desempenha. O nosso papel social não nos define em essência. Cada ser humano é único e cheio de valor. Um bom dia cortês, um presentinho no Natal ou aniversário podem não mudar a sociedade inteira, todavia pode deixar o seu entorno mais humano. Pense bem nisso ao ignorar um gari ou catador na rua que, a propósito, está fazendo o grande favor de carregar o lixo que você fez!

