surdos emocionais
Eu estava com pressa para pegar minha priminha na casa dela de manhã e depois de algumas palmas dei-me conta de que a garotinha estava num sono profundo. Enquanto pensava numa alternativa para levá-la para minha casa e continuar meu trabalho, tomando conta da pequena num favor para minha tia, um senhor foi se aproximando morosamente, tentando puxar assunto. Dei um bom dia baixinho, virando a cabeça em claro sinal de que não tinha tempo ou disposição de manter um papo. Não tinha tempo pra ele. Mas ele não percebeu. Recusou-se a aceitar minha negativa e continuou conversando, primeiro falando do tempo, depois de que a menina logo acordaria e, sem alternativa, fui lhe virando o corpo, olhando compassiva, doando alguma atenção enquanto secretamente torcia para minha prima vir logo.
Assim que percebia ter um pouco mais de atenção o senhorzinho falou que não era fácil envelhecer e que eu só saberia disto quando tivesse os 80 anos dele com doença e desprezo dos filhos. Ai! Senti que ele merecia um pouco mais de ajuste dos meus ouvidos e uma abertura estável do coração. Vá lá, não me custava ouvir um pouquinho o velhinho. Desfilou suas agruras, as dores do corpo e as piores, da alma. De como sentia o desprezo dos quatro filhos que com tanto sofrimento criou, da amargura em receber migalhas e resmungos por uma das noras que aceitou tê-lo em casa, num quartinho dos fundos, devidamente isolado. Da fome. Não de comida, mas de afeto.
Deve ter se passado uns 20 minutos. Não ousei confirmar olhando no relógio. Ele precisava mais do meu tempo do que eu. Os olhinhos molhados, as mãos trêmulas, o rosto abatido e triste parece ter descarregado um peso que as costas cansadas não podiam carregar sem lágrimas, em busca de um ouvido humano e disposto. Desconfiei que o lamento já tinha sido vertido para alguma parede ou porta-retrato velho, mas era de um olhar compreensivo e complacente que o velhinho precisava.
Minha priminha apareceu na porta, sonolenta e me chamando para entrar. O idoso olhou para ela, sorriu amável, fez mesura com o chapéu velho e com um gesto me agradeceu por tê-lo escutado. Era tudo o que ele parecia querer há algum tempo. Pouco demais para pedir e muito para alguns aceitarem dar. Eu que sempre quis ganhar o mundo, olhei para aquele ser carente que fez de mim seu mundo por alguns instantes. Ele subiu a rua com sofrimento, apoiando-se na bengala velha de madeira. Numa última olhadela acenou em despedida e gratidão e retribuí o gesto, mais grata do que ele poderia ser. Não perdi 20 minutos, não, como poderia ser tentada a pensar. Investi onde o retorno é incalculável… numa pessoa que precisava se sentir gente de novo.
Desci a rua com minha priminha segura nas mãos e o velhinho no coração. Por um momento, tão pouco e efêmero, fui o mundo de alguém e não houve melhor coisa que eu pudesse ter feito naquele dia que rendesse mais.



Ser o mundo de alguém é uma senhora responsabilidade… Nem que seja por vinte minutos. Legal!
lindo, quase chorei ! Um post digno de ser lido ! Obrigada, me fez parar para pensar.