70 de libertação em Auschwitz

70 de libertação em Auschwitz

Ontem aqui na Europa foram muitas as celebrações em torno dos 10 anos de libertação dos prisioneiros de Auschwitz. Então decidi republicar um texto que escrevi quando estive neste campo de concentração e publiquei no Portal Adventista, juntamente com algumas fotos que nunca divulguei.

– Fabi, tente se conter, você está sofrendo muito – era meu marido já impaciente enquanto eu soluçava nos cômodos sombrios dos prédios que restaram em Oświęcim. Talvez este nome da pequena cidade ao sul da Polônia não signifique nada pra você, mas se eu contar que em alemão se fala Auschwitz, talvez tenha noção do quanto sofri naqueles dois dias de visita a um dos maiores campos de concentração do regime nazista.

Em uma das galerias meu coração parecia dar um nó ao ver milhares de sapatinhos infantis enfileirados, na outra, os montes de fios de cabelo, os dentes, as próteses dos deficientes. Eram malas num canto, roupas no outro. As celas, os arremedos de cama, o desconforto do lugar travou minha garganta. Era muita dor que me assombrava.

Mais pessoas visitavam, olhavam, oravam. Silenciosas caminhavam pelas galerias onde ressoou dor, gritos de horror e sussurros de fé. Num canto claustrofóbico, rabiscos de cruz, deixados pelos últimos que ali contraíram solitária. Foram judeus, mas também foram negros, homossexuais, doentes ou qualquer pessoa que discordasse do sistema. Ali era a recepção da morte, é que a morte dava oi um pouco mais adiante, nos fundos, nos crematórios.

A foto de um rosto ainda não me sai da memória. Iris é o nome dela. Judia alemã, trazida de Praga. Na imagem junto com o filhinho de três anos. Foram separados pela insanidade de um homem, apoiado pelo sonho louco de milhares que queriam uma supremacia racial que só mostrou ser mesmo inferior. O dolorido é pensar que tantos circulavam por ali, ignorando a dor alheia e isto machuca mais.
Auschwitz é o retrato da doença do descaso e exclusão do semelhante. Sei que são possíveis várias analogias com os horrores daquele espaço. Eu nem podia reclamar do meu choro e constrangimento, pois eu mesma desejara visitar aquele lugar. Queria sentir como era andar por entre os alojamentos, ver o céu daquela perspectiva, olhar as cercas que impediam qualquer fuga e imaginar a fumaça ao fundo, atrás das árvores, desconfiando do conteúdo da sua queima.

Eu sentava e chorava. Pensando como é possível alguém se achar superior a ponto de infringir tanta dor ao seu semelhante. Mais, achar que sua cor ou raça te faz diferente de quem de fato te é igual. O horror dos campos de concentração que tanto me abalaram se repetem na minha rotina e eu posso ser a algoz. Ao ignorar alguém que precisa. A violência que está ao meu lado e eu não denuncio, na surra que dou em meus filhos pra liberar meu stress, na comida que nego a quem tem fome, na zombaria ao mais fraco, na discriminação de quem considero menos.

O Hitler que tanto odiei naqueles muros pode se apresentar no meu espelho, ou no seu.

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6 comments

  • Lindo trabalho, o seu Fabi! Este é um assunto que muito me interessa. Maravilhosa reflexão! Apesar de nunca ter ido a Auschwitz, através de filmes que vi, já escrevi e coloquei em meus guardados relações sobre o movimento nazista e a vida cristã. Nossa mão se encolhe para ajudar e se estica para julgar. Quem somos para tanto odiar Hitler? Não fazemos nós atrocidades com nosso próximo? Mas já nos acostumamos com tamanho conforto que custa muito olhar em volta e estender a mão. Obrigada por compartilhar essa experiência conosco!

    Abraços! Te tenho como influência profissional!
    Beijocas!

    Thallita, SP 🙂

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  • Boa Tarde Fabi!!

    Parabéns pelo seu texto… ele nos faz refletir sobre os limites do ser humano e a ganancia pelo poder.

    É muito fácil olhar Hitler com desprezo e é tão difícil encararmos o espelho e percebermos a nossa própria maldade…

    Deus é tão maravilhoso e nos fez com tanto amor e dedicação e muitas vezes não enxergamos o nosso próximo, a sua luta e necessidades…

    Suas palavras me levaram a Auschwitz e pude sentir um pouco do que nossos semelhantes passaram nos campos de concentração.

    Obrigada por nos fazer refletir!!

    Abraços,

    Aline Rocha

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  • Fabi sua inteligência e habilidade em se comunicar é um grande presente divino a nós seus leitores.
    Esse post foi perfeito e a sua experiência de visitar Auschiwits chegou até meu coração e me fez refletir sobre a maneira de tratar meus semelhantes.
    Obrigada por compartilhar conosco.
    Att
    Tânia Corrêa

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  • Fabi, estive no Campo de Concentração de Dachau em Munchen e entendo bem esse sentimento que você descreveu no texto. Me identifiquei bastante.

    No entanto, aproveito para perguntar se você pode fazer um vídeo ou um post sobre a Teologia da Missão Integral… Sei que existe grande controvérsia e diferentes opiniões e eu gostaria de saber a sua. Muito obrigada desde já, Débora

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