A culpa é toda sua

A culpa é toda sua

É tentador colocar a culpa nos outros, não é?! Comigo é. Parece que nosso fracasso fica menor ou menos vergonhoso se tiver um vilão por trás do feito. Funciona assim: você não faz o que deveria fazer, ou não tão bem, é punida – pode ser pela vida ou por superiores, o que torna tudo mais traumático – e sente uma dor enorme como o peso de um uma mão gigante e fechada a encontrar seu frágil estômago como alvo. Ok, podem haver variações conforme a índole e a sensibilidade de cada um.

Desconforto instalado, acompanhado ou não de vergonha e humilhação e a visão de nós mesmos é como uma pulguinha insignificante no canto de uma grande e imponente sala. O detalhe é que ninguém gosta de ser insignificante ou se perceber assim e aí começa um misterioso processo em  nosso cérebro para fantasiar, inverter, anuviar ou simplesmente inventar novos fatos. Nossas faltas ficam menores do que são e algo ou alguém – é mais saboroso quando é alguém – surge em meio aos fatos com o poder agregador. Sim, este agente do mal magnetiza e atrai todas as ações que resultaram no nosso tombo, ainda que muitas vezes o vilão tenha que ser totalmente construído e colocado na cena. Nossos dedinhos mágicos se encarregam do transporte.

Feito isto, um alívio. O problema são algumas pessoas que não tomaram a poção mágica e se “recusam” a ver a realidade como nós a montamos. Estas são pessoas do mal, em nossa concepção, claro. Aí um dedo em riste nos tira da consolação para martelar: é tudo culpa sua! Odeio quando isto acontece e parada no caixa do supermercado eu vi a capa da revista com esta ilustração me apontando os pecados. Ui, até deu aquele frio gelado que corre pela espinha dorsal e nos contorce como um cachorrinho que se sacode na chuva.

A culpa é toda minha, pensei. Lembrei de férias que não tiro há mais de dois anos, do peso que não para de pisar com força na balança, do tempo que não sobra para aquela leitura, da rede juntando pó na sacada, esperando por um momento de balanço. Do filme que não vi, dos copos d’água que não foram bebidos, da ligação não feita. Tudo culpa minha. É mais confortante pensar que o vilão é trabalho, o amigo, o chefe, o irmão ou o marido. Também podem ser os pais, os professores, o motorista do ônibus, o cobrador da operadora de crédito. Cada um põe a culpa onde mais lhe convém, mas pensando com cuidado, para chegar onde chegou, sorry, a culpa é toda sua.

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