Ausência

Andei sumida daqui, mas foi por bons motivos, se é que posso dizer. Ando viajando um bocado e você que me acompanha no twitter sabe disto. Minha penúltima viagem foi para um lugar muito isolado, uma comunidade riberinha chamada Areaú, perto de Barreirinhas, no Amazonas. É provável que você nunca tenha ouvido falar, entendo. Eu também não. De Porto Alegre fui pra São Paulo, de lá quatro horas de vôo até Manaus, de lá uma hora até Parintins (aquela do boi!). Aí começou o percurso de barco, quase duas horas até Barreirinha e daí outro barquinho até Areaú.

Ir para um lugar de tão difícil acesso e tão distante do eixo badalado do País nos faz repensar algumas coisas, alguns valores. Na comunidade que visitei, onde vivem pouco mais de 60 famílias, não há saneamento básico, água encanada ou luz elétrica. Banho é no rio, com deliciosas águas mornas e, por causa deste manejo inadequado, poluídas. As pessoas vivem numa relação diferente com o tempo. Diferente do meu, pelo menos. Tive a vaga sensação de que eles dispunham de mais que as minhas 24 horas, pois não mostravam preocupação em aproveitar cada segundo desesperadamente. O tempo é mais gentil com eles.

Comida por lá é basicamente uma: peixe e farinha de mandioca. Não têm o hábito de plantar e alguns poucos fazem uma hortinha suspensa, para preservá-la das cheias do rio, frequentes. Chama a atenção as antenas parabólicas ao lado das humildes casinhas de madeira frágil. Como falei, não há energia elétrica, mas tem um gerador na comunidade e quando se juntam uns trocados o líder vai até a cidade (3 horas de barco pra ir) e compra combustível, daí eles têm energia por cerca de duas horas.  Tempo de ver Jornal Nacional e alguma novela.

Toda vez que vou para lugares simples assim fico pensando que queria aquela vida, que eu seria mais feliz longe da agitação, perto da natureza, naufragada nela, praticamente. Mas tenho o péssimo hábito de ficar olhando mais e mais, até achar o outro lado. Tenho o defeito de fuçar para ver o que não querem mostrar e saber o que não querem contar. E assim também foi lá. Indiscreta, você poderia dizer. Inquieta, eu corrijo.

Num galpão meio a ermo encontrei muitas garrafas de cachaça empilhadas e conversando descobri que não há produção local. Ou seja, gastam o pouco dinheiro que ganham com a venda de peixes e farinha – além dos auxílios sociais do Governo Federal – dando vazão ao grande problema local, o alcoolismo. Um morador se desculpa dizendo que não há nada pra fazer e com a TV eles descobriram que há mais do que os olhos vêem ali. Maldita comparação! O lixo industrializado que vem de fora polui os arremedos de ruas, pois pra eles é normal jogar uma casca de banana ou mandioca no chão, vira adubo. Todavia, com pacote de biscoito ou salgadinho não acontece o mesmo. E sempre fizeram assim: comer e jogar a “casca” fora.

Meus pensamentos me atormentam e não foi diferente desta vez. Até que ponto é boa esta intervenção no ambiente alheio? Levar saúde, educação. Tá bom, mas e o que vem junto, como as doenças novas, os hábitos nocivos. Televisão informa, ok, concordo, porém mostra para um povo que estava acostumado à felicidade natural a sensação de que são inferiores, pois existe um mundo mais colorido, mais brilhante, mais ativo e fervilhante lá fora.  Tenho que admitir que estes paraísos onde imagino um dia buscar a paz não podem o ser se eu não estiver disposta a encontrar a paz com Alguém especial, onde quer que eu esteja. Fiquei incomodada. Só pra variar um pouco.

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