Casa, um campo minado

Casa, um campo minado

Ela estava ali brilhante e convidativa e chamava mais a atenção do que nunca. Uma olhadelha para o lado e nada de adultos por perto. Parecia a oportunidade perfeita e Tayná, 3 anos, não perdeu tempo. Segurou uma grossa mecha do cabelo e num instante a tesoura eliminou as louras madeixas da menina. Claro que depois de uma bela bronca e uma semana de castigo sem poder assistir tv, a garotinha prometeu não fazer mais isto, mas nem de longe entendeu o perigo que correu ao manusear o objeto cortante, arma potencial para um acidente grave ou até fatal. Marly Fávero, a mãe, conta que se assustou ao ver o resultado da traquinagem, pelo risco que a pequena correu. Este quase de Tayná foi menor que o susto da irmãzinha de 8 meses, depois que uma fruteira caiu sobre o rosto da menina. Longe dali, o pequeno Mateus, então com 5 anos, resolver analisar o que fazia o ferro da avó alisar tão bem as roupas e numa passada de mão, a queimadura ensinou uma dolorida lição. Acontecimentos como este são cotidianos e muitos creditam à fatalidade, pura e simples. Fato que especialistas condenam com veemência. “Os pais costumam dizer que os acidentes são fatalidades inevitáveis, mas isto é uma grande mentira. 90% dos acidentes são evitáveis e previsíveis, mas os adultos precisam entender o universo infantil. É a falta de informação e atenção dos responsáveis que desencadeia o acidente nas crianças”, esclarece Ingrid Stammer, coordenadora de projetos da ONG Criança Segura, que divulga e busca ações de prevenção aos acidentes domésticos.

Tayná e Mateus

Olhando as estatísticas é realmente claro que muitos dos acidentes podem ser prevenidos e que situações aparentemente inocentes geram graves conseqüências. Hoje, no Brasil, os acidentes e mortes envolvendo o trânsito são os mais recorrentes, seguidos de afogamentos e traumatismos, aqueles provocados pelos tombos. Eles são, sim, frequentes durante o desenvolvimento da criança, até pela falta de equilíbrio e tendência de explorar o mundo à sua volta, mas a gravidade delas varia de idade para idade. Um exemplo foi o que aconteceu com a secretária Richele Reis, que mora em Ji-Paraná, Rondônia. Enquanto ela lavava a louça do jantar, a pequena Isabele, com 1 ano e 3 meses estava sentada na cadeira de refeições, atrás da mãe. “Pelo barulho eu percebi que ela havia tirado o cinto que prendia sua cintura e estava em pé na cadeira. Olhei pra ela e disse: – Filha, cuidado! Foi tarde demais e eu vi, como em câmera lenta, aquele corpinho tão pequeno caindo, como que mergulhando de cabeça no chão. Ela ficou mole e querendo desmaiar, mas enquanto corríamos para o pronto-socorro, eu tentava mantê-la acordada”, emociona-se a mãe ao lembrar. No hospital, o pediatra de Isabelle estava de plantão e atendeu a menina que nesta hora não mexia mais as pernas. Depois do atendimento, a criança voltou ao normal. “Mas ela ainda vomitou muito e o médico disse que foi reação ao susto e ao traumatismo. Hoje, aos 3 anos ela não tem sequela nenhuma, graças a Deus, e os cuidados foram redobrados”, explica Richele.

casa um campo minadoA pediatra Maria Cristina Silveira, intensivista e supervisora do Hospital Pequeno Príncipe em Curitiba, conta que neste hospital infantil, 50% dos atendimentos são relativos a traumatismos, as famosas quedas quando pula da cama e erra o passo, sobe em armários e cai. Dos traumatismos, metade é craniano, pois a cabeça da criança é mais pesada em relação ao corpo. O resto é quebrar braço ou outra parte do corpo. “Em épocas de férias, com maior agitação em casa aumentam os acidentes, principalmente tombos de muros e árvores e de bicicletas, que podem ser muito graves. A maioria não é letal, mas exige cuidados. A partir do momento que começa a andar já tem problemas. Dos 2 aos 4 anos é mais comum a queda, a partir dos 7 são recorrentes acidentes mais graves envolvendo bicicleta, patins e maiores aventuras”, explica a médica. É neste relato que se encaixa Eduardo Lorenzoni, 10 anos, de Chapecó, SC. No ano passado, de férias com os pais no Paraná ele decidiu experimentar os patins da tia e como não conseguiu se equilibrar, agarrou num frágil varal. “Foi uma sensação muito ruim, pois eu tinha previsto o tombo, mais não deu para fazer nada, foi muito rápido. Para piorar, estava de férias numa cidade onde não conhecia os hospitais e médicos e ele ficou com os lábios roxos. Achei que meu filho ia morrer”, relata a mãe Alessandra Lorenzoni. Ela conta que sempre teve cuidados em casa, “principalmente com piso molhado, portas abertas e sacadas protegidas. “Como trabalho fora, as empregadas cuidam das crianças, então faço todas as recomendações possíveis e sempre deixo os telefones de médicos e hospitais bem visíveis para evitar problemas”, descreve a mãe que já acompanhou o garoto em outra situação de risco, quando ele tinha 5 anos , caiu de bicicleta e teve que levar sete pontos no queixo.

Porém casos assim podem nem aparecer nas estatísticas já que, segundo Renata Waksman, presidente do Departamento Científico de Segurança da Criança e Adolescente da Sociedade Brasileira de Pediatria, os dados no Brasil não são seguros. Contudo alguns dos acidentes são clássicos e mais recorrentes conforme a idade. No primeiro ano de vida, por exemplo, aspirar corpos estranhos como grãos ou peças pequenas é a principal causa de morte. E não adianta dizer que se ensina um bebê, pois eles têm a tendência de imitar os adultos e esquecem rapidamente os sufocos pelos quais passaram. “Até os quatro anos a criança, além de não entender conceitos como morte e perigo, ainda mistura o real com o lúdico. Os pais precisam entender que as fases da criança mudam e com elas os perigos”, adverte Ingrid Stammer. Muito se deve não à negligência dos pais, mas à inexperiência. Por exemplo, casa com escada tem que ter portãozinho e com trava, pois a criança aprende a abrir e vai passar e sofrer acidentes. Produtos de limpeza não devem só ser escondidos, mas colocados em lugares que as crianças não consigam alcançar nem subindo em móveis. “As crianças são naturalmente curiosas e tendem a imitar o comportamento dos pais. Se ela vê a mãe pegar todo dia determinado produto ela vai querer também, mas é preciso que se eduque e diga constantemente que não pode pegar, pois machuca, além de deixar fora do alcance”, ensina Maria Cristina.

É nesta fase de imitar os pais, ou ajudar nas tarefas que está a tênue linha do aprendizado e da facilitação do acidente. Gabriela, 3 anos é a única menina da casa e quer seguir os passos da mãe, Claudia Monteiro, de Porto Alegre. Enquanto Claudia fazia pães de queijo, a pequena Gabi insistia em ajudar e enrolar a massa. Na hora em que saiu do forno não se conteve em ver o fruto de seu trabalho e antes que a mãe tivesse tempo de impedir, ela pegou um e queimou a mão. “Eu já tinha falado para ela não tocar, pois era quente e queimava, mas não me ouviu. A queimadura infeccionou e fez bolhas e ela não deixava pegar na mãozinha, nem para lavar, foi um susto, mas ela aprendeu”, diz a mãe. Nem tanto, já que as peraltices nesta idade têm a ver com o fato de a criança estar descobrindo o mundo ao redor e o próprio corpo. A mesma Gabi, com vocação para traquinagem tinha enfiado um amendoim no nariz, enquanto estava presa na cadeira de traz do banco, no ano passado. A mãe percebeu o silêncio e enquanto dirigia perguntava para a criança se estava tudo bem. “Como ela ficou quieta, eu parei o carro e perguntei onde estava o amendoim. Ela apontou para o nariz, mas não consegui tirar. O jeito foi correr para o hospital, já que eu tinha ouvido falar em crianças que aspiravam peças ou alimentos e iram parar no pulmão”, relembra Cláudia, mãe de mais dois meninos, o Victor e o Arthur que não dão tantos sustos como a caçula.

blog_drbactériaNo entanto, cuidar da criança não significa levar para o extremo de deixá-la enclausurada como numa bolha de proteção. No lugar de se preocupar com acidentes possíveis, muitos pais cuidam justamente do que não tem tão grande importância assim e praticamente esterilizam os percursos da criança. Na fase de se arrastar e engatinhar, é um cuidado excessivo e desnecessário com limpeza que ao contrário do que muitos pensam, faz mal para a criança. Segundo o biomédico Roberto Figueiredo, mais conhecido como Dr. Bactéria, por conta do quadro no Fantástico, “quanto mais cuidados você tiver com o bebê, mais problemas respiratórios ele vai ter quando adulto. As crianças devem ser criadas em contato com a terra, areia, outras crianças e com o meio ambiente em geral, pois é no primeiro ano que ela vai adquirir uma série de microrganismos que irão auxiliar na resistência deste indivíduo no futuro. No primeiro ano de vida, justamente pela ausência de bactérias colonizadas na boca e intestino é que a criança apresenta uma baixa resistência”, adverte o especialista.

Trânsito

O pequeno Alexandre, de 9 anos, nunca tinha sofrido um acidente em casa ou na rua, por cuidado de sua mãe. “Eu não deixo nem ir à padaria sozinho ou para a escola que é perto, pois tenho medo do que possa casa um campo minadoacontecer”, explica a diarista Edilcéia Fonseca, 31 anos, que tem mais três filhos, de 14, 11, 5 anos. Num domingo o grupo de amigos de Alexandre se reuniu para vender geléia e arrecadar fundos para um evento do grupo religioso que frequenta. Eles estavam inicialmente acompanhados de adultos que não foram tão responsáveis assim e se ausentaram por algumas horas. Neste meio tempo, ao comemorar a venda de mais uma caixinha o menino correu para contar à irmã, do outro lado da rua, quando foi atingido por uma motocicleta. O acidente rendeu um traumatismo craniano, várias lesões, um mês sem aulas, dor de cabeça ininterrupta e o risco de futuras convulsões. Ainda em tratamento, o garoto já sentiu o peso das estatísticas e a família engrossa a lista de sequelas sociais, já que a mãe teve que ficar sem trabalhar – e sem receber – por mais de um mês e o pai precisou se ausentar do trabalho para cuidar das outras crianças enquanto Alexandre ficava no hospital com a mãe. Um custo social alto que tem maiores implicações, tendo em vista o impacto na economia da família e as mazelas dali por diante para acertar os custos de internação e remédios. Isto sem falar nos traumas físicos e emocionais da criança. É esta conta que falta fazer quando se minimiza os acidentes infantis. Os impactos vão além da ação ou da internação. Fora os óbitos, que no Brasil somam nonono só no transito que é o maior vilão, considerando atropelamento e envolvimento como passageiro.

Para Renata Waksman, da SBP, os cuidados com o trânsito começam nos primeiros dias de vida. “Os pais negligenciam os mínimos detalhes como a cadeirinha de transportar o bebê, por exemplo, que deve ser usada desde a primeira viagem de carro, quando sai da maternidade, até a criança atingir 1,45m. Deixar a adequação e o cuidado para outro dia pode ser tarde e fatal”, alarma a médica que considera inadequado uma criança menor de 12 anos andar sozinha no trânsito. Aliás, nem esta idade é tão segura se considerar que cada criança tem um padrão de amadurecimento diferente da outra. Mas com tanta proteção, a criança não perde a independência natural? Para a mãe e psicóloga, Crisley de Almeida, antes de pensar na independência do filho, os responsáveis se preocupam mesmo é com violência. Esta superproteção é fácil de entender, principalmente se considerar o aumento da violência, mas é bom para a criança que os pais liberem um pouco, para os filhos adquirirem maturidade. “Dos 7 aos 12 a criança tem mais necessidade de autonomia, quer andar sem dar as mãos e afrontam os pais com exemplo dos amigos que vão sozinhos para a escola”, explica Crisley que aconselha os pais a darem aos poucos a liberdade para ver se o filho conhece as regras básicas e observar até perceber que a criança tem maturidade suficiente para cumprir os pequenos trajetos. “Deixe ir na padaria da esquina, por exemplo, mas fique olhando do portão e avaliando o comportamento da criança: se olha os dois lados da rua, se conversa com estranho. Mas isto deve ser feito com aconselhamento prévio e educação. Soltar de uma vez é arriscado”, ensina a psicóloga.

Criança sozinha

casa um campo minadoO Estatuto da Criança e estabelece que a criança não deve ser deixada sozinha, sem o cuidado de um adulto. Todavia, isto é claramente ignorado, principalmente quando a necessidade de trabalho para o sustento da casa fala mais alto. Para Maria Cristina, os acidentes não estão relacionados diretamente ao nível social, mas é visível que crianças que ficam mais sozinhas estão mais propícias. Se ficam com parentes como avós, irmãos e outros, estão menos expostas. Porém, os acidentes acontecem, na maioria, por falta de conhecimento dos pais e responsáveis em não se prepararem para o perigo inerente à cada fase da vida o filho e, em muitos casos, se confunde com negligência pois o intencional não fica claro. “É importante também que os profissionais da saúde fiquem atentos, sobretudo com casos recorrentes de acidente com a mesma criança. É o caso de conversar e orientar os pais ou até acionar o conselho tutelar”, adverte Renata Waksman. “Na fase oral, por exemplo, ela vai levar tudo para a boca e pode se engasgar. Além disso, o pequeno tem limitações obvias, como quando é bebê e a cabeça pesa mais que o corpo, impedindo de sair de uma situação de sufocamento, caso se vire, pois não tem forças para voltar. Tudo se resume ao preparo que pode ser feito em casa e na cabeça dos pais ao receber o pequeno”, ensina Ingrid que afirma não estar arraigada no País a ideia de prevenção. Seja em relação à economia, na saúde ou nos acidentes infantis.

Talvez por ser de fora que Claudia Albota, romena e mãe de dois meninos, Mário de 6 e Luca de 3, considere inconcebível acidentes graves dentro de casa. Morando no Brasil pela segunda vez – a primeira foi há dois anos em Curitiba e agora há cinco meses em São Paulo – a economista que deixou a profissão para se dedicar às crianças explica como mantém seguro o ambiente doméstico. “Em casa não se pode entrar na cozinha, mas se estão doentinhos ou querendo demais a minha atenção enquanto tenho que fazer as refeições, eles ficam junto à porta, sentados nas cadeiras que foram separadas exclusivamente para isto. Nada de circular”, detalha Claudia que admite dar trabalho manter os filhos seguros. “Os brinquedos são comprados pela indicação de idade e se quero fazer algo pra mim, levanto da cama antes deles, para que quanto estiverem acordados, minha atenção seja exclusiva. É cansativo, mas são meus filhos e se eu não cuidar, quem fará isto?”, indaga. Alguma razão deve ter, já que até hoje, nenhum dos dois nunca se machucou, mesmo sendo peraltas como qualquer criança desta idade.

 

O que os especialistas dizem:

Ingrid Stammer do Criança Segura
“As crianças são responsabilidade dos adultos e eles não podem pensar que elas são adultos pequenos para quem basta falar do perigo para assimilar e não fazer mais. Nem deixar que se machuquem para aprender, pois isto é negligência. Até os quatro anos a criança, além de não entender conceitos como morte e perigo, ainda misturam o real com o lúdico. Os pais precisam entender que as fases da criança mudam e com elas os perigos.”

Dra. Maria Cristina Silveira Médica pediatra, intensivista e supervisora do Hospital Pequeno Príncipe em Curitiba.

“Os pais têm que ter em mente que algumas coisas são imprescindíveis em casas com criança como tampar a tomada, colocar protetores nas pontas das mesas e sempre colocar as coisas no lugar. Se pega uma agulha e sai de perto um instante, já é o suficiente para a criança se machucar.”

Dra. Renata Waksman – presidente do departamento científico de segurança da criança e adolescente da SBP.

“Os acidentes domésticos envolvendo crianças continuam os mesmos de décadas atrás e com frequência maior. Uma explicação pode estar no fato das habitações serem menores, encolhidas e mau-preparadas. O principal é a ideia fatalista de que ‘Deus quis’, ‘tinha que acontecer’, ‘foi por acaso’ ou ‘é bom que aconteça para aprender’. Isto não existe! A criança não entende nem aprende só de falar uma vez, como se fosse adulto. Mas ela não tem que experimentar, pois isto é violência contra a criança, já que ela vai fazer igual se queimar daqui a um mês, quando tiver esquecido e ficar sem cuidados.”

Captura de Tela 2015-07-29 às 22.17.40

Esta reportagem foi publicada na edição de outubro (2009) da revista Vida e Saúde. O assunto, contudo, é tão atual que resolvi postar aqui no blog também!

1 comment

  • Fabi, parabéns pela reportagem. Conhecimento nunca é demais. As vezes pequenos detalhes que passam despercebidos podem causar machucados graves, enquanto aqueles que a gente se descabela de preocupação não acontecem nada. Oro a Deus que me dê sabedoria para proteger meu menino na Medida Certa. Pais neuróticos (eu não sou) sufocam a criança – essa sempre foi a minha visão. Então deixo se sujar sim, mas oriento para que a mão não vá para a boca. Me criei com os joelhos ralados, e agradeço aos meus saudosos pais por isso. Beijos querida, oro para que o Papai do Céu lhe inspire cada vez mais para o teu ministério e a criação de tuas reportagens.

    Reply

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *