Como o amor salvou a vida de mais de 50 crianças

Como o amor salvou a vida de mais de 50 crianças

Esposa, pastora, cantora gospel, administradora e mãe. Mãe de cinquenta e cinco filhos. Essa é Flordelis dos Santos de Souza, 48 anos. Flor, como todos a chamam, nasceu na favela do Jacarezinho, Rio de Janeiro. Cresceu em uma família humilde e que cria no Evangelho.

fonte: internet Flor dedica a vida a resgatar e transformar a vida de crianças e adolescentes em situação de risco. Menores de idade envolvidos com o tráfico de drogas, viciadas e vítimas de todo tipo de violência. Cansada de testemunhar isso, decidiu fazer algo por elas. Em 1993 começou sozinha um trabalho de evangelismo dentro da favela onde morava durante as madrugadas. Encontrou muitos meninos e meninas sem outra opção de vida e morrendo muito jovens.

Ela então se aproximava deles dizendo que os amava e que podia ajudá-los a sair daquela situação e mudar de vida. “Eu não sentia medo, não. O amor vence barreiras. O problema da maioria dessas crianças que estão nas ruas hoje é por questões familiares. Falta estrutura, amor na família, no lar e elas acabam entrando nessa vida”, conta.

Certa vez uma mãe foi procurá-la, dizendo que seu filho estava para ser fuzilado pelos traficantes. Flordelis foi atrás do menor e conseguiu trazê-lo de volta. Garantiu que daria a vida dela pela dele caso houvesse algum problema novamente. Foi aí que tudo de fato começou. Mas não foi fácil, já que passou a sofrer ameaças. “Antigamente os traficantes não entendiam. Mas depois eles compreenderam que eu estava fazendo aquilo para o bem dos meninos. Eu não queria que eles morressem, desejava que fossem transformados. E não sou eu apenas que sofro com a situação deles. São famílias que também oram e sofrem por essas crianças. Então eu entro nas favelas sem problemas. Não para pregar religião, mas para pregar Cristo, que transforma e salva. E sou respeitada”, garante.

Cinco adolescentes foram morar com ela e mais os três filhos biológicos que ela já tinha na época. Aos poucos esse número foi crescendo. Certa vez 37 crianças chegaram sem aviso à sua casa em busca de abrigo depois de uma chacina na Central do Brasil. Flor acolheu a todos. Ela recebeu ajuda do sociólogo Herbert de Sousa (Betinho), de Pedro Werneck e Carlos Werneck, fundadores da ONG Instituto da Criança com a alimentação. Até hoje os dois irmãos ajudam nas despesas da família. A renda é complementada também pelo ministério de Flordelis como cantora gospel.

Flordelis teve que enfrentar a justiça, pois o Juizado de Menores havia determinado que ela os entregasse. Mas ela recusou, pois pouco tempo antes havia devolvido um menino aos pais por determinação da justiça e ele acabou assassinado pelo pai. O juiz, então, expediu um mandato de busca e apreensão das crianças e um de prisão contra Flordelis. Ela resolveu fugir com os filhos e foi chamada de sequestradora pela imprensa. Ficou quatro meses escondida com seus filhos em Irajá e chegou a dormir com todos eles na rua.

Dificuldades

Flordelis procurou a imprensa para se explicar. Conseguiu ajuda para lidar com as questões jurídicas e regularizar sua situação para conseguir ficar com seus filhos. Mas não foi fácil. “Atravessei e atravesso dificuldades sempre. O momento mais triste, o mais difícil sem dúvida foi o assassinato do meu filho que entreguei para os pais biológicos por ordem da justiça. Ele foi morto pelo pai. E há dificuldades para recuperar a vida dos meus filhos, arrancar traumas antigos. É duro mesmo”, explica.

Ainda sobre o trabalho a que se dedica e os desafios que enfrenta, Flordelis enfatiza: “Não adianta nada se não houver mudança nafonte: internet família. O problema na maioria das vezes não é a criança. Dificilmente a criança escolhe essa vida de violência, quer sair de casa. Quando ela sai, geralmente é por causa dos problemas que há no lar dela, dos abusos que sofre em casa. E muitas vezes o agressor é alguém da própria família (pai, mãe padrasto, tios, etc.). E a criança não conta, não fala sobre o que está sofrendo porque se sente culpada”, alerta.

A impunidade é outro problema. “Hoje em dia as pessoas estão cometendo crimes porque sabem que não serão punidas. Me revolta a falta de justiça, que piorou muito nos últimos anos. Falta também mais rigor para os crimes contra o menor de idade. Hoje em dia se uma criança sofre violência, mas não há flagrante, o agressor é solto e pode responder em liberdade, fica livre para fazer tudo de novo. A lei permite isso. E se um homem de 40 ou 50 anos engravidar uma adolescente de 15 anos, não é mais estupro, porque eles entendem que foi um ato consentido por ela”, exemplifica inconformada.

Flordelis reclama também que embora a lei brasileira determine que alguém fique preso por até 30 anos, ninguém passa esse tempo todo atrás das grades. “Ficam no máximo quatro, cinco anos”. Outra questão que a mãe de 50 lamenta é a volta das crianças por determinação da justiça para o lar problemático de onde saíram. Ela afirma que elas deveriam ir para outro lar com condições de garantir segurança e estabilidade para elas. Ela também acredita que o jovem já deveria responder legalmente pelos seus atos aos dezesseis anos. “Se ele já pode votar, também pode ser responsabilizado pelo que faz”. Ela também explica que a lei de adoção tem muita burocracia e leva tempo para que os pais consigam de fato adotar uma criança.

Lições

Simone dos Santos Rodrigues, 34 anos, é a mais velha de todos os seus irmãos e uma dos quatro filhos biológicos de Flordelis. Ela diz ter aprendido muita coisa com a mãe: “Por eu ser a filha mais velha, senti ciúme e ficava irritada com tanta gente na nossa casa de repente. Lembro que certa vez eu queria uma boneca e mamãe me disse que não poderia me dar, por causa das despesas, da nossa situação naquele momento. Aprendi a dar valor às coisas na marra, a dividir e deixar de ser egoísta. Aprendi também a cuidar dos meus irmãos e se ela algum dia faltar eu vou estar lá para eles”.

Simone diz que depois que se tornou mãe, passou a compreender melhor Flordelis e o que a motivou a enfrentar tantas lutas. “Ela me ensinou a ter mais fé, mais coragem. Ela depositou toda a fé dela em Deus. Passamos por momentos muito difíceis mesmo, daí ela pedia que todos ajoelhássemos com ela e orássemos. Hoje eu vejo que aquilo não era loucura e sim fé”, relembra.

Ela revelou que está atravessando mais um momento delicado. “Estou com câncer, sabe… Estou doente. Há dias em que desanimo, dizendo que não vai ter jeito. E ela vai lá no meu quarto, me tira da cama dizendo que é claro que vai ter jeito, que é para irmos à igreja orar, para eu não desanimar. Ela tem muita garra mesmo em tudo. Sem a minha mãe eu não teria tanta força para lutar. Depois de Deus, ela é tudo para mim. Estou vendo o valor de uma família, que tem sido uma fortaleza. Então eu quero ter força pra passar por isso e quero a cura. Desejo olhar para trás e ver essas dificuldades superadas”, afirma.

Rayane dos Santos de Oliveira tem 20 anos e foi o primeiro bebê que Flordelis adotou. Ela foi deixada no lixo atrás da Central do Brasil pela mãe, que era viciada em drogas. Flordelis foi até lá e pediu para que a mãe dissesse onde estava o bebê, que tinha quinze dias de vida. Rayane ficou então com Flordelis e está vivendo com ela até hoje.

“Minha mãe é uma mulher de muita garra. Ela luta pelo o que quer, luta pelos filhos dela. Ela é um anjo na vida minha, na vida de todos os meus irmãos. Ela foi a diferença entre a vida e a morte para mim. Ela é muito bondosa, sempre está tentando ajudar todo mundo”, conta Rayane.

Junto com o pastor e esposo Anderson do Carmo, Flordelis cuida dos filhos e administra a carreira e o Instituto Flordelis, que oferece serviços e atividades que buscam a ressocialização de mais de 200 crianças e adolescentes. Flordelis também deseja ainda abrir um centro de recuperação, para que o trabalho dela fique mais completo.

blog_flordelis7Flordelis vive sempre em intensa atividade. “Nossa vida em família é normal. Tenho que conciliar as minhas tarefas – ser mãe, esposa, pastora, cantora. Não é fácil. E eu tenho que ser referência para as minhas filhas. Quero que a referência delas seja eu, e não uma dessas celebridades por aí. Por isto eu tenho que me cuidar, me arrumar, para ser exemplo para elas. E essa correria toda cansa, já fiquei doente, tive várias estafas”, relembra.

A cantora explica que a sua maior motivação é salvar. Ela tem certeza que há jeito para o bandido, traficante, criança de rua. “Tem saída, sim. É difícil, mas tem. Digo isso porque já testemunhei muitas histórias de pessoas assim que mudaram de vida. E uma vida que eu tenha conseguido salvar das drogas, dos traficantes, uma vida só que seja, já terá valido a pena”, garante.

E ela faz um pedido. “Apelo para as mães que não desistam dos seus filhos jamais. Não desistam deles, mesmo se estiverem envolvidos com drogas, tráfico, com qualquer outra coisa ruim. Não abram mão nunca dos seus filhos. Ame-os independentemente do que eles sejam. Um dia ele vai acordar e vai perceber que você sempre esteve lutando por ele e vai valorizar, se tocar e mudar. Não existe ex-filho”.

Veja aqui o trailer do filme feito sobre a história de Flordelis e abaixo um documentário feito com ela para o Canal Viva.

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