Complicaram tudo

As coisas eram mais simples. Sou de um tempo em que se enterrava o cachorro no quintal, depois de chorarmos e fazermos uma pequena cerimônia fúnebre enquanto meu pai esperava impaciente para jogar logo a terra sobre o bicho. Não tinha muito desta preocupação ecológica e voltada para os animais. Mas amávamos os animais, e realmente amávamos o meio ambiente, juro! Naqueles idos, as pessoas gastavam mais com criança e menos no petshop.

É que naqueles dias a felicidade podia ser supreendentemente resumida a um dia brincando de casinha, chupando manga no pé e tomando um prudente banho de mangueira “pra não sujar o banheiro” com tanta terra que conseguíamos armazenar em nosso corpo. Não era feio ficar sujo. A mãe até mandava ir brincar no terreno baldio do lado e vinha separar as brigas ao ouvir choros e vozes alteradas. É que naquele tempo fazíamos barulho quando nos divertíamos. Difícil para as crianças de hoje entenderem. Não tínhamos vídeo-game, internet… tínhamos braços, pernas e os usávamos com veemência. Minhas cicatrizes ajudam a contar.

Saborosa era a comida, nada desta onda gourmet, era arroz com feijão, bife e salada de alface, tomate e cebola. Eu tirava a cebola. Hoje coloco, acho que de saudade que tenho. Era baratinha a comida, era a mesma todo dia, mas não enjoava como hoje em que se precisa de tanta novidade pra se satisfazer. Esquisito. Terminávamos o domingo vendo Os Trapalhões em família e eu dormia antes da garota do Fantástico aparecer na tela.

Nem passou tanto assim, desde a minha infância, mas às vezes vejo as fotos e parece mesmo que entrei num daqueles filmes que voltam ao passado longínquo. As pessoas se cumprimentavam ao passar no portão e o tempo parecia amigo de todo mundo. A mãe dizia “o tempo cura” para meu machucado no joelho e para a tia chorando que levara um fora. Achava este tempo mesmo um cara legal. Hoje, ele parece cruel. Desconfio que não foi ele quem mudou, mas mudamos com ele.

Aqueles dias acabavam com o jornal nacional e todos indo para a cama cedo. Tenho a impressão de que obedecíamos mais os pais, pois em vez de presentes, eles nos davam atenção. Pai e mãe eram coisa normal, todo dia, igual feijão com arroz. Quando alguém se separava, era um escândalo. Hoje é tão normal. Comentávamos da vizinha, do amigo, do primo distante que preferiu o trabalho ao casamento e de repente ninguém queria mais ficar perto do sujeito. Hoje existe até um certo aplauso a quem prefere dinheiro e status, como uma distinção inequívoca entre fortes e fracos. Estranho.

Não é que eu seja saudosista, ou não curta o presente. É que o passado, nem tão distante assim, parece ter um gosto mais gostoso. As coisas eram mais originais, cada mulher tinha um tamanho de peito, por exemplo, não era tudo com 325 mililitros. Existiam os quase extintos almoços de domingo e aquela tarde que seguia cheia de conversas, risos e bolo de fubá com erva-doce. Não tinha chat, Messenger, nem celular e todos tínhamos contato. Sério mesmo! Sabíamos da vida dos outros do mesmo jeito, só que com menos disfarce.

Hoje tá tudo muito complicado. Antes era mais simples.

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