Dietas milagrosas: existe uma certa pra você?

Dietas milagrosas: existe uma certa pra você?

As bancas de revistas estão cheias, nas livrarias não se fala de outra coisa e na televisão as celebridades anunciam com ar de blasé. O fato que é que a população gorda não fala de outra coisa: dietas! Não é pra menos. Nos últimos anos, não só os brasileiros, mas a humanidade engordou assustadoramente. Não bastassem os incômodos estéticos, a saúde é mesmo a maior prejudicada, ainda mais se considerar a pandemia de obesidade entre as crianças. Já se sabe que a obesidade na infância pode adiantar em até 20 anos o aparecimento de doenças cardiovasculares, além de colesterol alto e diabetes que são quase sinônimos da alimentação moderna.

E os dados não param de comprovar, o número de pessoas acima do peso subiu 255% em trinta anos. São 609 mil pessoas acima de 20 anos com obesidade mórbida. O resultado está num estudo concluído por pesquisadores das universidades de Brasília (UnB) e de São Paulo (USP). Pra completar, uma pesquisa do Ministério da Saúde, com dados de 2008 a 2013, aponta que 51% dos brasileiros estão com excesso de peso e 17% deles são obesos. Em Porto Alegre se registrou os maiores índices de excesso de peso. Na mesma pesquisa se constatou que o sedentarismo diminuiu cerca de 3% em dois anos, e o nível mais alto de escolaridade define maior atividade física.

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Isto é, de certa forma, um retrato de que o povo todo já percebeu que gordura não é sinônimo de saúde e é necessário se mover para manter um corpo saudável, não esquálido como os das modelos, parâmetro impossível de se alcançar, mas dentro do que se considera normal pelo IMC (entre 18 e 24), resultado que se consegue dividindo a altura ao quadrado pelo peso. O problema é que no desespero de emagrecer, muitos recorrem a meios pouco ortodoxos e apelam para dietas tão insalubres quanto comer demais. Sim, comer pouquíssimo e viver de dietas hipocalóricas ou dietas da moda que priorizam um único tipo de alimento é tão ruim para a sua saúde quanto viver acima do peso.

E em se tratando de dietas, tem para todos os gostos e níveis de sadomasoquismo. A do limão, do abacaxi, da uva, da lua, do sopão da USP, que de Universidade de São Paulo não tem nada e a dos shakes. Nesta lista também entram as chamadas “científicas” como do tipo sanguíneo, do Dr. Atkins, de South Beach e por aí vai. São sempre de baixo conteúdo calórico e descartam nutrientes importantes por uma semana ou alguns meses. Se emagrecem? Oras, claro que sim! Passando fome se perde peso, mas não necessariamente gordura, que é o que interessa. “Nestas dietas malucas se come uma coisa só por um tempo e a pessoa pode ficar desnutrida. Sem falar que canso de ver pessoas no consultório com anemia, por práticas como esta que não educam, só bagunçam o metabolismo e traz danos permanentes, em alguns casos”, alerta o nutricionista Alexandre Scardoelli. Ainda tem o trauma da dieta. Tão grande que nunca mais fazem nenhuma, nem uma saudável reeducação alimentar.

Aliás, os profissionais da área já estudam a possibilidade de trocar o nome de dieta, que carrega um estigma de sofrimento e transitoriedade. A tal reeducação alimentar é o termo mais correto, sem dúvida, mas aprender requer esforço, dedicação e tempo e justamente este último é que alguns passam por alto. No desespero de perder uns quilinhos, propagandas como “perca 7 kg em 7 dias” convencem até os mais equilibrados mentais. Viviane*, empresária de 36 anos – 1,62m e 93 quilos – conta que sempre travou uma luta ingrata com a balança e os apelos das dietas pareciam até plausíveis. “Eu fiz muitas maluquices para perder peso, mas já pensei em inúmeras não realizei. Fiz a dieta do Sopão da USP, mas o meu humor ficava péssimo. A saúde fica fragilizada, todavia, no desespero de emagrecer, eu decidia fazer a dieta e acreditava nela. Encontrava alguma lógica pra me convencer disto. Depois de um tempo e de constatar a insanidade, eu via como era irresponsável”.

A curiosidade pelo milagre era tanta que esta que vos escreve estas linhas tentou algumas das dietas famosas para ver se funcionavam. Na do shake, onde uma vitamina de frutas e leite desnatado tomam a vez do café e do jantar só foi possível manter por uma semana, já não podia sentir o cheio da batida e lá se foram 2 kg em sete dias, bem recuperados na semana seguinte, ao comer de verdade. Na tal da sopa da USP o sacrifício foi ainda maior, mas a perda rápida me fez entender o atrativo. Um sopão com berinjela, repolho, salsão e outros legumes magros é a base da dieta que alterna alimentos, tipo: num dia só frutas, no outro só banana, no outro só ovo e por aí vai. Em cinco dias… uau! 4kg a menos e uma tontura que não dava trégua. Exercícios? Impossível, pois a fraqueza é inevitável. Pena que a perda só durou uma semana. O suficiente para recuperar e ganhar mais um quilo de brinde. O engodo é que com esta restrição toda, o que se perde é massa magra, não gordura e o processo de dieta constante prejudica e altera o funcionamento do organismo, sem falar no efeito sanfona. Mas tem gente que defende.

A professora Jocimeri Barbosa, 40 anos fez e aprova, mesmo tendo engordado tudo de novo. “Voltei a engordar porque voltei a comer o que não devia, mas do contrário teria mantido. Não me senti mal na dieta, só o intestino que prendeu e não continuei porque meu trabalho exige muita energia. Mas vou fazer de novo em alguns dias”, planeja. Para Maria Marta Ferreira, psicóloga especialista em emagrecimento e autora dos livros Emagrecimento Sustentável e Psicologia do Emagrecimento, o conhecimento é insuficiente para a mudança de comportamento. No desespero por emagrecer e ter um corpo magro as pessoas agem por impulso. “É preciso amadurecimento emocional para se praticar o conhecimento. No processo de perda e manutenção do peso é necessária atenção. É como dirigir, não adianta saber, tem que ter atenção constante”, compara a profissional que garante ser a pressa o maior empecilho. A velocidade com que se quer perder peso reflete os péssimos hábitos de alimentação, ou alguém acredita que dá pra viver bem à base de sopa? Mais que mudança, é necessária transformação do estilo de vida e do pensamento diário na hora de escolher o que põe no prato. Pois dieta maluca até emagrece, mas não transforma você numa pessoa saudável e magra.

É claro que nem todas as pessoas reagem da mesma forma e alguns fatores podem atrapalhar a perda de peso. Há algumas doenças glandulares que podem facilitar o ganho de peso, como o prejuízo da função da tireóide (hipotiroidismo) e o excesso de função da adrenal com aumento do cortisol (que pode ser acarretado por remédios com corticóide). “Em geral esse excesso de peso é da ordem de até uns 5 quilos, e é perdido com o tratamento da doença pelo endocrinologista. O que pode ocorrer em pessoas com dietas muito restritivas não é propriamente um problema hormonal, mas sim um problema metabólico, ou seja, o organismo começa a gastar poucas calorias e fica mais difícil de emagrecer”, explica o médico Márcio Mancini, Presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO) e do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

O endocrinologista e professor da Universidade Federal do Paraná explica que a lógica é simples: ingerir menos do que se gasta. É só comparar a relação entre calorias e quilos. “Para diminuirmos 1Kg, temos que provocar um déficit de 7.600Kcal. Qualquer dieta que retire 500 a 1000 Kcal por dia de nossa alimentação vai ocasionar uma perda de 0,5 (500×7=3.500) a 1Kg (1000×7=7000) por semana”, contabiliza o especialista.
Tudo bem fazer uma dieta rápida para entrar num vestido para um casamento. Mas fazer disto um hábito constante enlouquecerá o organismo. Não é novidade que os cientistas já provaram: vive mais quem come menos, mas o menos aqui é sinônimo de qualidade e variedade nos nutrientes. Afinal, de que adianta sofrer tanto numa semana para chorar de desgosto na outra?

Dietas mais famosas e suas promessas

blog_dietas_atkinsDieta do Dr. Atkins
Libera o consumo de gorduras e proteínas, até insaturadas. Rica em carnes vermelhas, maionese, leite e manteiga, restringe o consumo de carboidratos. Surgiu na década de 70 proposta pelo cardiologista americano Robert Atkins e promete uma perda de 5 kg em 15 dias. Totalmente condenada por especialistas, o excesso de proteínas sobrecarrega os rins, provoca dor de cabeça, náuseas e mau hálito.

 

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Dieta da Lua
Só é permitido tomar líquidos a cada mudança de fase da lua por 24 horas e promete uma perda de 1kg por semana. Os líquidos podem ser caldos, sucos e outros alimentos batidos. Dependendo do que se escolhe, pode até engordar.

 

 

blog_dietas_beverlyDieta das frutas (ou de Beverlly Hills)
Idealizada por Judy Mazel, uma ex-gorda em 1983 e fez sucesso ao propor a ingestão de frutas tropicais. A promessa é queimar os estoques de gordura, mas nunca foi comprovada, além de ser monótona não garante emagrecimento em todo organismo e provoca carência de vitaminas A, D, E e K.

 

blog_dietas_sangue2Dieta do Tipo Sanguíneo
A alimentação é diferente para cada grupo sanguíneo. Por exemplo: indivíduos do tipo O podem abusar de frutos do mar e espinafre; A se dá bem como legumes e verduras; B tem que comer carne e AB não pode dispensar o leite. Foi proposta pelo americano Peter D’Adamo e se popularizou há dez anos. Não há comprovação científica e nem consenso médico e pode acarretar perda de nutrientes para indivíduos que excluem determinado grupo de alimentos.

blog_dietas_pontosDieta dos Pontos
As calorias são convertidas em ponto e cada ponto equivale a 3,6 calorias. As refeições devem ser balanceadas e não exclui nenhum alimento, mas não pode passar de 300 pontos por dia. Já foi publicado em livros e é adotado por muitos endocrionologistas e garante uma perda de 4 quilos por mês, mas pode ser desequilibrada se a pessoa não escolher direito os alimentos.

 

blog_dietas_uspDieta da USP
A base da dieta é presunto, ovos e café preto, com restrição quase que total dos carboidratos e deve ser seguida por duas semanas. Sem qualquer relação com a Universidade de São Paulo, já tem quase vinte anos de fama e prática e provoca carecia de vitaminas A, B e C, além de elevar os níveis de ácido úrico.

 

blog_dietas_sopaDieta da Sopa
Basicamente se consome uma insossa sopa de legumes batidos no liquidificador por uma semana. Só a sopa nas três refeições! A promessa de menos quatro quilos no final da dieta, traz junto prisão de ventre, anemia e desnutrição.

 

 

blog_dietas_paleoDieta paleolítica
Estimula o consumo de carnes, sobretudo a vermelha e nas versões mais radicais proíbe qualquer fonte de carboidrato que não seja alguns vegetais e pequenas frutas. A ideia é baixar o índice glicêmico e a acidez no sangue, revivendo a dieta dos homens da caverna que caçavam, comiam pequenas frutas silvestres e só, deixando de fora todo grão e leguminosas.

 

 
Dicas para perder peso com saúde

>Alimente-se em horários regulares e não belisque durante as refeições.
>Garanta que metade do prato seja de salada de folhas e legumes crus e na outra parte, equilibre proteínas e carboidratos.
>Não use os light e diets como muletas. Eles podem ter até mais calorias e ao se enganar, poderá consumir até mais que a versão tradicional.
>Troque o refinado por integral, que demora mais para ser ingerido e garante maior saciedade até a próxima refeição. Além de ter mais fibras e melhorar o intestino.
>Evite o sal, que retém líquidos.
>Não coma na frente da TV e preste atenção ao que coloca no prato.
>Abuse de água, pois a sensação de fome pode ser um disfarce da sede.
>Depois das refeições saia da mesa, para não correr o risco de repetir.
>Evite o açúcar nos sucos ou nas frutas.
>Se extrapolou num dia, faça o retorno e recomece.
>Troque massas recheadas pelas simples.
>No desespero por um doce, coma frutas secas.
>Troque a fritura por assados, refogados e grelhados.
>Não pule refeições.
>Troque o elevador pelas escadas.
>Desça um ponto antes e caminhe o trajeto que falta.
>Coloque uma atividade agradável na rotina.

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