Donos da razão

Donos da razão

Ninguém gosta de discordâncias. Eu não gosto, você também não. Ainda que não admita, claro. Além disso, gostamos menos ainda quando as pessoas que admiramos têm um comportamento diferente do que esperamos ou gostamos. Funciona assim: Você gosta da Fernanda Lima porque ela é natureba e um dia você vê a foto dela comendo no McDonalds com os filhos. Daí você se irrita, critica a foto no site de fofocas e a considera uma “hipócrita”. Algumas pessoas levam isto ao extremo e agride, torna a pessoa alvo de seu ódio. Claro, estas são pessoas um pouco mais doentes que nós.

É que quando admiramos uma pessoa corre-se o risco de colocá-la numa posição de perfeição e candura, como se nossos desejos e ambições (espirituais até) se projetassem naquela figura que vemos, gostamos e seguimos de uma forma ou outra. Eu mesma tenho vários destes exemplos. Gostava muito de uma autora, famosa por aí, daí descobri que ela tinha princípios que contrastavam muito com os meus e senti uma amarga decepção, como se a pobre coitada que nunca soube ou saberá da minha existência tivesse me traído. Claro que isto deve ter acontecido contigo também.

Ocorre que estas pessoas que admiramos, não pediram para ser admiradas. Isto foi por nossa própria conta! Ela tem a vida dela e por um acaso uma parte desta vida nos caiu no colo, nos agradou e delegamos a ela a tarefa irrecusável de ser nosso modelo de perfeição. Eita! Outro dia mesmo alguém me escreveu “decepcionada” comigo, pois me vira maquiada na TV. Criticou o fato e lamentou profundamente que eu não pensasse como ela. Olha o nível! A moça, detentora de toda a razão do mundo, achou um absurdo que minha opinião sobre estética e modéstia cristãs fossem diferentes da dela, pois as delas é que tinham que estar certas, claro!

Ponderei a situação dela comigo e lembrei da minha com pessoas que eu gostava e senti um misto de riso com lamento. Cada pessoa é um mundo, um mundo à parte do nosso, aliás. Ninguém concorda conosco o tempo todo e nem nossos ídolos ou os mais puros modelos de perfeição são mesmo assim, olhados bem de pertinho. Se tem algo que três décadas já me ensinaram foi isto: de perto ninguém é normal. E uma pessoa não é melhor nem pior por pensar diferente de mim, de você, dele ou de um grupo. Todavia, nossa santa inquisição, apoiada covardemente pela internet, constrói um tribunal e condena à fogueira pública das redes sociais qualquer pessoa que ousa pensar por si mesma. Tão triste.

Bom, talvez seja inteligente separar os atos das pessoas, ou as pessoas de suas eventuais falhas. Mais. Seria um tanto quanto proveitoso seguir bons exemplos e torcer para que as faltas sejam consertadas, mas só as faltas mesmo, não aquilo que eu considero diferente de mim. No caso, torcer e orar muito para que esta minha falta seja também consertada em tempo de não causar mais mágoa aos outros. O estilo da roupa, o corte de cabelo, o jeito de rir ou falar… nada disto é barreira para Cristo amar, por que seria pra mim que sou tão inferior à Ele, né?!

 

8 comments

  • Eu me vi várias vezes nessa situação,e através deste texto pude rever os meus conceitos(ou melhor preconceitos,rs)pensava da mesma forma que a protagonista da história,mas penso que devemos tornar muito cuidado para não ser pedra de tropeço para ninguém,ainda mais para os mais fracos.”Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam.” (I Coríntios 10 : 23).Como cristãos muitas das vezes precisamos deixar de fazer alguma coisa,porque está servindo de tropeço para uma outra,mesmo que seja uma coisa que achamos que não tem importância.Gosto da forma clara e reflexiva que você usa,parabéns!

    Reply
  • Terceirização do pensamento dá nisso. É PROIBIDO PENSAR!

    “Todavia, nossa santa inquisição, apoiada covardemente pela internet, constrói um tribunal e condena à fogueira pública das redes sociais qualquer pessoa que ousa pensar por si mesma. Tão triste” [2]

    Reply
  • Gostei muito desse post pq aprendi uma coisa que não entendia, as pessoas realmente se projetam em nós, olha que estou falando somente as de dentro da igreja…muitos jovens tem se projetado em mim e sinto um pressão terrível de responsabilidade por conta disso. Eu realmente não queria este tipo de atenção, mas conforme fui crescendo espiritualmente obtive os olhares de admiração e muitos irmãos que me imitavam e me elogiavam como modelo de “perfeição”. Enfim cometi alguns erros de impaciência, na verdade eu já os cometia, mas dessa vez ficou nítido…aí muitos se mostraram decepcionados. Desde então todos os estudos que dou a novos membros procuro mostrar que a igreja adventista, nas pessoas de seus líderes e membros não são perfeitos e podem sim decepcionar qualquer um, se alguém quer um modelo incontaminado devem olhar para o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

    Reply
  • Nossa, Fabi. Que texto incrível. Fabuloso. Sintetiza tudo o que eu penso sobre isso. Demais, genial.

    “É que quando admiramos uma pessoa corre-se o risco de colocá-la numa posição de perfeição e candura, como se nossos desejos e ambições (espirituais até) se projetassem naquela figura que vemos, gostamos e seguimos de uma forma ou outra.” E aí que corremos o risco de nos perder nessa questão.

    Devemos ficar atentos, precisamos tentar ser mais tolerantes, mais empáticos… Há várias formas de viver e interpretar essa realidade.

    Bjs,

    Lari.

    Reply

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *