Drogados, alucinados e alienados

Drogados, alucinados e alienados

Eu voltava do cartório, indo para uma quitanda e o movimento todo me atraiu. Sempre me atrai. Aquelas pessoas todas gritando, ora se ajuntando, ora se afastando e no centro o homem se debatia, mal podendo ser contido pelos quatro seguranças do shopping. Marcelo é o seu nome e segundo alguém que o conhecia, não tinha quarenta anos ainda. Gritava atordoado pedindo para não o matarem e perguntando: “é assim que mereço morrer, meu Deus?”. Pelo cuidado dos homens que o seguravam, desconfiei não se tratar de ladrão. Umas pessoas tentavam acalmá-lo, outras choravam, outros olhavam curiosos, como eu. Acheguei-me de um dos seguranças e soube que o Marcelo tinha surtado dentro de uma das lojas do shopping e começado a quebrar tudo. Um outro lojista me contou que ele sempre estava por ali, dava manutenção nas portas e era muito trabalhador.

Tentaram parar duas viaturas, sem sucesso, os policiais não estavam interessados num “louco”. Liguei para o SAMU e me deixaram esperando 15 min na linha enquanto passavam de atendente a atendente até que explodi: “vão esperar morrer?”, prometeram que chegariam logo. Mas não contei todos os detalhes, por desconfiar que não viessem. Marcelo estava drogado. Pai de duas crianças, casado e residente numa favela próxima à Icaraí, bairro nobre de Niterói, ele lutava contra o vício e tinha saído há pouco de uma clínica de reabilitação. Estava tomando medicação ainda, mas seu hálito denunciava que completou com bebida. Risco.

Logo um rapaz me confidenciou que os dois usavam cocaína e que ele estava limpo há um mês, quando deixou a clínica junto com Marcelo, que parece não ter resistido à tentação. Seu Eduardo, comerciante dono da loja em frente à qual acontecia a balbúrdia, falou que ele era um excelente profissional, mas que todo dinheiro era para vício e que não adiantava chamar a família, não queriam saber dele. Continuei ali, solidária. Sei lá porque, mas não consigo simplesmente deixar. Liguei de novo para o SAMU cobrando providências, nada. Só falei do surto, deixei as alucinações de fora… geralmente não me parecem interessados em favelados pobres e dependentes. Chorei um pouquinho. Já passavam 40 minutos e nada dele se acalmar. Os seguranças fortões já estavam exaustos e suados, todos deram seus pitacos e sugestões e uma outra dona começou a passar mal também, solidária com Marcelo. Uma picape dos bombeiros vinha na rua e atravessei na frente dos carros, aproveitei a segurança do congestionamento típico na Gavião Peixoto, e parei o bombeiro que se assustou com a louca da camiseta laranja onde se lia “Bahia”.

Ele parou. Chamou reforços, analisou o Marcelo e ligou para a clínica, para onde ele provavelmente voltaria. A roda em torno daquele circo ainda era grande e enquanto tentavam dar água para ele outros gritavam “finja que é cachaça e beba!”. Ele só gritava que não queria morrer e que iriam matá-lo. Pobre Marcelo, ele já estava semimorto, numa sociedade que vicia e não trata, que zomba, mas não ampara, que olha o sofrimento e se diverte com a distração do dia-a-dia. Marcelo entristeceu meu dia, mas pior de tudo é que a vida dele é uma constante tristeza. Pior é pensar que tem gente que começa a usar drogas por “diversão”, pra “ver como é”, pra “sentir algo novo”… talvez o Marcelo tenha começado assim.

4 comments

  • Que triste… acabei de ler “um gato de rua chamado Bob” onde diz que o isolamento atrai às drogas e o amor (até mesmo de um gatinho, como foi o caso do livro) cura das drogas.
    Que Deus abençoe e o Marcelo. Que ele se recupere, fique bem, lute e vença.
    E que Deus te abençoe por abençoar alguém!

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