Ele cura a sua dor

Ele cura a sua dor

Pra quem acha que tem que ser bom pra alcançar o favor de Deus, pra quem acha que a vida está perto do fim, pra quem acredita que não há mais esperança. Esta é uma história que pode mudar tudo isto. Você já ouviu falar da viúva de Naim? Talvez você tenha mais dela do que parece.

“E aconteceu que, no dia seguinte, ele foi à cidade chamada Naim, e com ele iam muitos dos seus discípulos, e uma grande multidão; E, quando chegou perto da porta da cidade, eis que levavam um defunto, filho único de sua mãe, que era viúva; e com ela ia uma grande multidão da cidade. E, vendo-a, o Senhor moveu-se de íntima compaixão por ela, e disse-lhe: Não chores. E, chegando-se, tocou o esquife (e os que o levavam pararam), e disse: Jovem, a ti te digo: Levanta-te. E o defunto assentou-se, e começou a falar. E entregou-o a sua mãe”. (Lucas 7.11-15)

Naim era uma pequena aldeia no sopé do monte Tabor, uma vila insignificante e pobre distante 10 km de Nazaré. Perto daí, 5 km ao norte ficava Solem, o lugar onde morava a sunamita que teve seu filho ressuscitado por Eliseu. A região parecia mesmo destinada à cura, pois Jesus passava por ali vindo de Cafarnaun, onde tinha curado o servo do centurião romano. Aliás, o curioso e o Mestre dos Mestres resolver passar por aquela localidade tão insignificante, pois se fosse nos dias de hoje em plena campanha eleitoral, nenhum candidato iria até lá, de tão insipiente que era.

Cristo se preocupa com quem o mundo despreza

Atrás de Jesus vinham seus discípulos, pessoas que ele tinha curado e uma grande multidão que queria ouvir suas palavras ou obter algum favor. (verso 11) Eram pessoas que viam esperança naquele homem diferente de todos os profetas e rabinos da região. Não tinham vida fácil, não eram célebres nem ricos. Talvez algumas pessoas importantes estivessem perdidas ali no meio, arrastadas também pela curiosidade, mas a grande multidão de Cristo era de sofredores e caçadores de esperança. Eles já tinham notado que aquele homem galileu dava importância para quem os outros não davam e o exemplo notável estaria bem ali à frente. Imagine o tumulto daquelas dezenas ou centenas de pessoas em volta do Mestre, falando, pedindo, murmurando e todos andando e parando de tempos em tempos. Talvez muitas mães com seus filhos parassem para atender às necessidades das crianças, alguns mais velhos ficassem mais atrás pela dificuldade de se locomover e os mais jovens e dispostos iam junto aos discípulos, logo atrás de Cristo.

Mas aquela multidão para ao encontrar com outra. No verso 12 lemos que perto do portão da cidade eles se deparam com um cortejo fúnebre. As pessoas carregavam o esquife para ser enterrado fora dos muros da vila e neste momento encontram com a multidão que seguia Jesus. Enquanto na primeira multidão havia o sorriso da esperança, a alegria da cura. Na segunda, só se via choro, faces transtornadas de dor e piedade. Era um grande grupo que seguida a mulher, viúva, cujo nome não foi sequer registrado. E a condição dela, de fato, inspirava pena, já que além de viúva, agora também não teria o filho único. Se hoje as mulheres brigam por melhores salários, por ter direito a maior tempo de licença maternidade, naquela época nem brigar elas podiam, pois não tinham qualquer valor na sociedade machista e patriarcal do Velho Testamento. Para se ter uma ideia do nível de apreço que se tinha por uma mulher, havia um ditado entre os judeus que dizia “obrigado porque não nasci escravo, gentil ou mulher”. A função do sexo feminino era agradar e satisfazer os homens, dando prazer, comida e filhos. Filhos homens, aliás. Aí então, se casavam tinham um certo respeito na sociedade e quando pariam um filho homem, sua situação melhorava. Ela em si não tinha qualquer valor! Se tivesse a sorte de algum parente do marido a resgatar e casar com ela, poderia ainda desfrutar de algum status social, se não, estaria fadada à marginalidade e abandono social. Triste e esclarecedor, pois aquela multidão que a acompanhava não chorava apenas pelo conterrâneo morto, mas de pena daquela mulher sem sorte. E dela o Mestre se compadeceu.

No verso 13 uma cena se desdobra. Naquele barulho todo do encontro das duas multidões vê-se que como num filme as coisas todas saem do foco, o barulho parece ir diminuindo ao fundo e o Senhor nota o choro e a dor daquela mulher. De um lado júbilo, do outro choro e a dor do meio comove a Cristo que se aproxima dela e pede: “Não chore”. É possível imaginar que ela se encosta em seu peito, procurando por um abraço confortador, mesmo nem sabendo de quem se tratava. Dá pra entender que ela não era uma seguidora de Jesus e talvez nunca tenha ouvido falar dele, pois o seu ministério ainda estava no começo e nem se curvou a pedir qualquer coisa, já que a única coisa que poderia pedir era seu filho de volta e isto, nunca se vira por ali. Uma coisa era curar surdos e cegos, outra era trazer um morto à vida, então pra que perder tempo. O homem que parecia gentil deve ter abraçado a mulher e feito um afago em seus cabelos enquanto repetia: “Não chores”. Não era em relação às lágrimas que Cristo falava, tinha a ver com o desespero de quem perdia agora tudo. Pense em perder o que mais ama ou o que precisa. Imagine-se à beira da ribanceira sem emprego, com doença na família, sofrendo ameaças ou impotente diante das drogas. O desespero toma conta, transtorna e faz parecer que tudo não tem mesmo saída e no turbilhão de dor e agonia as lágrimas rolam como que desafogando.

Graça

No meio de tudo isto, imagine o povo olhando aquele poderoso Mestre consolando a insignificante mulher. Talvez algum condenassem, outros tentavam entender, mas o fato é que Cristo se revelou ali. Ele mostrou com esta situação que todos têm valor para ele e que lhe faz sofrer o sofrimento de seus filhos queridos. Mais! Ele mostra que nem uma situação que nos incomode passa despercebida por ele. O mais importante: ele mostra que não é preciso nem pedir para ele acalmar nosso coração e curar nossas feridas.

Embora sempre se enfatize a fé como chave para abrir a caixa de milagres de Deus, a situação com a viúva de Naim dá outra perspectiva para isto. Ela talvez nem acreditasse nele, ninguém na multidão da mulher pediu algo a Ele e nem demonstrou fé. Cristo se comoveu porque nEle está todo o amor do mundo, porque somos as criaturas pelas quais Ele veio à terra e conhecia a dor de perder o que lhe era precioso. Somos todos filhos à beira da morte, flertando com o pecado e aquela mulher estava como Deus, perdendo seu filho. Então ele se afasta da viúva e toca no esquife (verso 14). Ele toca no que era considerado imundo, um cadáver, mas para ele não era mais um corpo em putrefação, era um filho querido que faria a alegria de uma outra filha e faz o impensável: diz para o jovem se levantar! Os rostos curiosos se esticam para ver, alguns no fundo comentam da audácia e loucura daquele Mestre dos Judeus, outros talvez não seguram a risada imaginando que ele estava fazendo uma piada. Ele toca o morto e pede para ele se levantar. Talvez por um segundo a mãe tenha até se ofendido e pensado: “Que brincadeira é esta, senhor?”

O jovem se levanta e se senta nos aparatos mortuários e a multidão se espanta. Imagino que a mãe teve um choque momentâneo, mas nem deu tempo de se assustar pois no verso 15 diz que Cristo o entregou à sua mãe. De repente nada e um segundo depois, tudo! Sem nem pedir. Aqui vê-se a graça de Deus transbordando e talvez caiam por terra nossos esforços em tentar alcançar o Seu favor. Aqui é possível notar não só a grandeza do poder de ressuscitar um morto, mas de restaurar a esperança e confortar a alma. É um Deus grandioso para vencer a morte que se rebaixa ao nosso nível para nos dar um sorriso. É um Senhor que está interessado em nos dar até o que não ousamos pedir.

Conclusão

Aquelas duas multidões com ânimos tão distintos agora se unem em jubilo e glórias ao nome de Deus. A pessoas ficam ainda mais maravilhadas e extasiadas, pois ao que consta este é o primeiro milagre de ressurreição que Cristo realizou e seu ministério ganha uma nova dimensão, pois tanto discípulos como seguidores notam que estão andando com alguém muito maior que um profeta ou mensageiro. A Glória do Filho de Deus se manifesta em raio pequenos que clareiam de forma espetacular um mundo de trevas. Imagino a cena da mulher abraçando seu filho, beijando e o molhando com suas lágrimas que inda estão umedecendo a face e então olha para cristo que devolve o olhar. A alegria da sua filha agora é sua. Um sorriso de contentamento e uma cumplicidade que provavelmente nunca mais se desfez e a certeza de que ela queria agora fazer parte desta outra multidão, a que segue o homem que cura a alma, que manda na morte.

E aí, não quer também mudar de grupo, de multidão, de foco?

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