Faça primeiro, peça depois

Perdi o voo e lá estava eu inconformada por ter que esperar quatro horas pela próxima partida para Campo Grande. Aeroporto em São Paulo é sempre um acontecimento e lá estava um time de futebol e todos rodeando o tal “imperador” Adriano, que só conheço pelos escândalos envolvendo bebida. Desculpe a ignorância, nem ao certo sei qual o time do jogador famoso, mas a camisa era vermelha.

Procuro um lugarzinho para me esconder do burburinho de fãs e fotógrafos, amadores ou não, e acho um onde poderia conectar meu computador. Com fome, chamo a atendente e lhe faço o pedido, para não ter que me levantar e perder a cobiçada e escassa tomada, e ela explica que não pode trazer o pedido porque as regras dizem que só deve ser feito e pago no balcão. Olhei fazendo um bico, ao que a jovem me deu as costas e outra colega se aproximou:

– O pedido deve ser feito e retirado no balcão, mas estou vendo você ocupada aí, vou abrir uma exceção. Diga-me o que quer e eu pego, pago e trago aqui pra você! – disse sorrindo.

Entreguei o dinheiro, fiz meu pedido e me coloquei a pensar enquanto a “aprendiz” – como estava em seu crachá – se afastava com meu dinheiro em mãos. Fiquei imaginando o que diferencia uma pessoa no mercado de trabalho e quais as circunstâncias que fazem um mais especial que o outro. Aquela jovem ainda nem devia ter chegado à maioridade e sua prestatividade seguida de um sincero sorriso me acolheu e desfez um pouco da minha cara feia por ter que esperar no aeroporto.

Ela voltou com o suco e o troco, e eu elogiei seu serviço. Disse que pessoas assim iam longe e que ela merecia um elogio do superior. Então, envergonhada, ela me pediu:

– Desculpe o incômodo, mas se a senhora não se importar, poderia mandar um e-mail dizendo isso para minha empresa?

Claro! Aí mesmo é que gostei da garota, pedi seu nome e o e-mail da firma terceirizada e escrevi um elogioso recado ao chefe dela que, provavelmente, nem a conhecia. A empresa retornou agradecendo e prometendo transferir os louros à garota e eu fiquei feliz de ter participado daquele momento. Não sei se a reconheceria caso visse de novo. Tomara que seus superiores também tenham reconhecido a presteza e senso de oportunidade da garota, que não hesitou ao perceber um cliente necessitado e menos ainda ao detectar a chance de ser bem-vista pelos chefes.

Algumas pessoas amargam a alma em seus trabalhos, xingando secretamente ou não seus superiores, esperando promoções que nunca chegam e elogios que se notem. Todavia, o que fazem para merecer isso? Estresse e ansiedade no ambiente de trabalho prejudicam e muito a saúde, aumentam a pressão arterial, disparam o gatilho para doenças estomacais, como gastrite, aumentam a enxaqueca e ajudam a proliferar a depressão. Contudo, a chave para melhorar o equilíbrio entre vida e tarefas é reconhecer que a atitude numa e noutra é fundamental. Ir além, mostrar seu trabalho e não ficar tomando veneno esperando que o outro morra.

Conheço amigos que vivem a criticar seus chefes e seus baixos salários, sonhando com o reconhecimento, mas, ao primeiro pedido para ir além, ficar um pouco mais ou doar um domingo para uma tarefa especial, recuam, julgando-se espertos por não estar no batente junto com os outros. Afirmam que a empresa não merece esses extras e não se dão conta das oportunidades que perdem de mostrar que servem para algo mais, que merecem um plus. Uma vez ouvi que você vale o quanto estão dispostos a lhe pagar. Algo como: não peça aumento ao seu chefe se ninguém ou nenhuma outra empresa está lhe oferecendo mais. Quer saber? Acredito nisso!

Pessoas como a menina do aeroporto despertam a atenção de quem quer um profissional com atitude e espírito de serviço. Não digo de escravos, que só sabem trabalhar, a despeito da vida particular, mas pessoas que em seu local de trabalho se destacam por quererem oferecer algo além do que lhe foi pedido. Fica a dica: dê primeiro, peça depois!

3 comments

  • Simplesmente perfeito.
    Trabalho com RH desde, ah! deixa essa data para lá, rsrsrs… Infelizmente, o que posso notar é um mercado de trabalho cheio de oportunidades mas repleto de pessoas despreparadas e pior que isso pessoas desinteressadas.
    Já vi funcionários se recusarem a participar de cursos para o qual a empresa os queria enviar pq um feriado ou o domingo estava envolvido, ou porque “quem vai lucrar com isso é a empresa”. Será tão difícil entender que todo bom tratamento, todo aprendizado, todo sacrifico feito pelo colaborador, só pode ser revertido em benefícios para ele mesmo.
    Um dia o colaborador muda de cidade, de país, ou apenas de emprego e leva tudo. Leva o conhecimento, os “louros”, o reconhecimento, a simpatia… Já a empresa, essa precisa reinvestir, treinar, capacitar, tudo de novo e torcer para que a nova contratação seja tão interessada quanto a que perdeu.
    Faço uma pergunta nas entrevistas de emprego que pode ter várias respostas, mas tenho uma resposta predileta. A pergunta é: Como você mede seu sucesso? E fica a dica, a resposta que gosto mesmo de ouvir é: Pelo reconhecimento dos clientes e colegas de trabalho…
    Gente de Deus, se vc foi reconhecido, é claro que algo mais aconteceu, deve ter dado lucro, deve ter satisfeito o cliente, deve ter deixado o colega feliz…
    Vale pensar que o benefício será do colaborador, sempre, na verdade o lucro é todo do colaborador.

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  • Gostei do seu blog! Que bom que você divulgou no twitter. E esse post então… foi demais. Gentileza faz a diferença pra quem recebe e pra quem toma a iniciativa. Tenha uma ótima “última semana do ano”!

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