Falar e fazer

Falar e fazer

Era feriado e o ônibus que ia de Jacareí para São Paulo tinha mais umas cinco pessoas. Dispensei o motorista da empresa, por considerar que ninguém mais, além de mim mesma, precisava perder a merecida folga, tão almejada. Ele ficou feliz. Eu me arrependi. Mas logo no começo da viagem, algo interessante me chamou a atenção e fez do trajeto de uma hora um momento de percepção para a vida.

Realmente sempre acreditei no poder da simpatia e tanto quanto a TPM e os idiotas me permitam, sou simpática com todos. Dizem ser um dos meus defeitos, já que trato o faxineiro e o presidente da empresa com o mesmo deferimento. Oras, são tão importantes quanto, cada um na sua esfera. Ou você imagina o presidente limpando chão? Feito esse adendo, numa sociedade cada vez mais inóspita e arredia e considerando ainda que eu vivo em Curitiba, onde as pessoas não têm a fama da simpatia, o simpático e cortez motorista do ônibus logo conquistou meus olhares. Aqueles curiosos, para os que já sorriram maliciosamente.

Baixo, calvo, beirando os 50 anos, sorridente e magro, o homem atendia com uma atenção realmente diferente do comum. Não que não tenha visto motoristas simpáticos, mas este era diferente. Parecia mesmo que considerava cada passageiro um ser divino, importante, digno da mais notável atenção e carinho. Uau! Foi só o veículo adentrar a rodovia que as olhadas de esgueio se tornaram indiscretas e insistentes. Tudo bem, discrição nunca foi uma grande qualidade, mas a moça ao lado já estava me chamando a atenção por tanta fixação. Não liguei.

Tirar o terço do bolso e começar a sequência de rezas católicas foi realmente uma atração à parte. Vamos lá, não é circo, mas convenhamos: Quem tem coragem de ficar alardeando sua religiosidade em público, à revelia de condenações e preconceitos? Era mesmo de se admirar. Não bastasse de quando em vez ainda acenava alto com a mão direita, como que vendo o invisível. Fiquei imaginando se ele enxergava a assembleia de amigos numa missa ou se desejava demais estar lá e não viajando. Ou, ainda, se aquilo era o seu comum de comunhão com um Deus que lhe era muito, muito pessoal. Tirei algumas fotos  – tudo bem, me condene pela indiscrição – com o celular para provar a quem não acreditasse.

A rotina de boas ações e cortesias continuou com uma bala a uma garotinha chorando, o carregar as bolsas de uma senhora notadamente debilitada e aquele “tchau, vai com Deus” no qual você realmente acredita. No fim não resisti e perguntei o nome do homem de oração: “Daniel, moça. Meu nome é Daniel.” Ora, se você não sabe o peso da oração na vida do Daniel, aquele da Bíblia, vale uma lida no livro de mesmo nome. Não tive dúvidas de que serem homônimos deve ter tido algum peso na vida do Daniel contemporâneo meu, contudo, mais do que isso, vi de novo alguém que, como nos relatos históricos, vive o que prega e prega com a vida.

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