Fartura e purificação

Espelho, espelho meu…

– I Love you! – dizia ele com os olhos cerrando como se defronte para um sol forte e os lábios proeminentes em minha direção.

Meia hora antes

Estava em Botswana, um paizinho com cerca de 2 milhões de habitantes na fronteira norte da África do Sul. Banhado em diamantes, a população é rica, embora com pena de morte decretada pela Aids. A expectativa média de vida vai dos 45 ao 50 anos e é muito se comparado ao Malawi, o país onde eu estava antes que tem este número em dez anos menos. A diferença aqui é comida. Como há dinheiro, comem mais e mesmo magros pela doença auto-imune, há um pouco mais de adiposidade corporal que no país anterior, onde não há nenhuma. Fato é que a magreza predomina, ainda que não seja o desejo deste povo.
Lá estava para gravações de um documentário sobre trabalho missionário voluntário que foi ao ar no meu programa na Novo Tempo e queria registrar a vida e o cotidiano de um casal argentino que largara ao país assim que casou para trabalhar como médicos lá. E a tal prática que em países mais desenvolvidos se resume a olhar e fazer pequenos curativos. Na carência total de saúde e de médicos, muitos países africanos permitem que estes alunos pratiquem o que aprenderam na faculdade, ainda que os pacientes sejam muitas vezes cobaias. O favor que eles fazem à comunidade é enorme, pois todos os médicos vêm de fora e não existem muitos dispostos a ir.
Era sábado pela manhã e iríamos para a igreja naquele dia, portanto resolvi me levantar mais cedo que os missionários e meu cinegrafista e fui tomar o desjejum sozinha na cozinha do hospital, como fizera nos outros dias. A comida que os funcionários e convidados comiam era a mesma dos pacientes. Ótima, por sinal. Embora sem saúde – metade da população oficialmente tem o vírus do HIV -, o país dispunha de dinheiro para manter um ótimo hospital e “sustentar” os missionários. Gianinna, a estudante missionária, e eu éramos as únicas mulheres brancas na cidade do Kanye, naqueles dias. Mas eu só tomaria conhecimento do impacto disso naquele momento.
Depois de me servir o chef da cozinha se sentou à minha frente – sem ser convidado! – e fitou-me demoradamente. Incomodada, mas não intimidada, olhei em retorno e perguntei se havia algo errado.
– Yes, I’m in love – esboçou com olhos quase lacrimejantes.
Já imaginando onde isto daria, nem perguntei por quem, mas ele não queria mesmo perguntas. Queria resposta.
– Marry me?
Hã?! Ainda pensei que pudesse não estar entendendo o inglês carregado dos africanos, mas ele não deixou espaço para dúvidas.
– I Love you!
Primeiro respirei uma vez mais. Não queria cair na gargalhada ali, sem nenhuma consideração pelos sentimentos alheios, mas também não queria bancar a boba de acreditar naquela declaração insólita. Pra dizer o mínimo! Disse a ele que não era possível estar apaixonado por mim e menos ainda me amar, pois ele me conhecia há uma semana, apenas. Ele então confessou que me espreitava todos os dias trabalhando, nas refeições, enquanto conversava com o pessoal do hospital e estava só esperando uma chance de me encontrar sozinha. E que naquele curto período de tempo tinha certeza do amor que sentia por mim.
Quase ri de novo.
Expliquei que não podia casar com ele, pois já era casada e ele não se importou com isto. Nem um pouco, aliás. Embora a bigamia não seja oficial é aceitável e bem praticada em vários países africanos. Até hoje não sei se também o é em Botswana, mas pelo andar da carruagem, chocante é que não deveria ser. Ele insistia em segurar e alisar minha mão que insistentemente eu retirava. Aquilo estava me incomodando mais que o habitual. Falei que se ele achava normal ter dois maridos, eu não achava e que isto era crime no meu país.
Parecia não me ouvir.
Ele então se rendeu ao cúmulo: “olhe, sei que você já tem o seu marido branco, mas não me importo. Deixe-me apenas te amar. Eu vou para o Brasil e fico lá com você, só pra viver junto contigo. Não precisa se separar do homem branco.”
Oi?
Falei que não, não podia, impossível, sinto muito e ele então insistiu em me dar um beijo. Imagine a cena. Ele agarrando uma das mãos e eu puxando de volta enquanto afastava o corpo. Ele vindo na minha direção com o beicinho a postos para uma bitoca até que chegou o casal de missionários e deu um corridão no cidadão, ameaçando chamar a polícia. Ufa! Trégua ele não deu. Ficou atrás de uma coluna enquanto comíamos e me enviava beijos apaixonados, as vezes com o auxílio das mãos, daquele jeito: soprando pra chegar mais longe.
O que veio a seguir é que me deixou estupefata! O missionário explicou-me então o fascínio que eu exercia sobre o pobre moço. Num país de negros e numa cidade onde pouco se via brancos, dominada pela Aids e com habitantes tão delgados, eu e meus dez oportunistas quilos extras éramos a sensação. Sim, branca e gorda! Eu era o ideal de purificação e fartura que eles tanto almejavam. Fiquei pasma! Todos me olhavam, uns chegavam perto para tocar meus cabelos mal tratados pelo sol e achavam tudo “legal”.
No Malawi, por exemplo, me pararam na rua, durante uma caminhada para me tocar e cheirar minha pele. Riam e diziam coisas que não entendia, já que não tive o privilégio de aprender Chichewa. Mas pareciam gostar do que viam e sentiam. Ótimo para a autoestima, curvo-me a confessar. E eu que andava às turras com minha imagem, com meu peso, me descubro ali, me amando, me gostando. O que não faz a opinião pública a nosso respeito? Que padrões são estes que me fazem feia no meu país e uma deusa naqueles recônditos africanos? Quem foi que disse o que é belo e feio?

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