Geração embalagem

bebe-marcas1Sou de uma família muito pobre. Hoje eles já não são tão pobres, mas ainda são pobres. Ainda mais se comparado à gente rica. Mas isto não vem ao caso, tá? Só falei para entender o que eu quero mesmo dizer. É que eu queria não ser pobre. Era quando eu estava pequena. Na verdade eu também não queria ser pobre hoje, mas queria menos quando eu era criança.

Meus pais não tinham dinheiro para comprar roupas novas e bonitas pra mim, então eu me vestia com o que ganhava dos outros. Uma vez por ano eu ganhava algumas peças novas e podia escolher, numa loja bem cheia de gente com balaios e caixas lotados. Eu lembro bem do calor, das mulheres gordas disputando uma camiseta com a estampa da Minnie. Uma delas tinha um relógio vermelho e grande e eu olhava paralisada para ele, mas era muito caro para minha realidade. Não sabia quanto era, mas sabia quando não podia ter.

Tirando estas poucas roupas novas, a maioria era velha. Daí eu cresci. Não muito. Até hoje, aliás, eu não cresci muito pra cima. O fato é que eu cheguei na adolescência e minhas colegas entendiam tudo de roupas, moda e marcas. Elas tinham um pouco mais de condições do que eu e algumas já trabalhavam, mas eu não. Meu pai queria que eu estudasse, só que eu começava a querer as tais roupas de marca. O tênis New Balance virou febre na escola, com seu N em várias cores e saltitando ao som de Corona e o hit The Rhythm of the Nigh. Uma amiga fingia que sabia inglês e cantava. Era tudo errado, mas nós acreditávamos e eu queria muito saber cantar em inglês e também queria o New Balance roxo igual ao dela.

Até que um dia eu ganhei uma calça jeans usada e meu pai também. Só que a dele era da Levi’s e isto era muito chic pra minha turma. Lee também era e eu descobri que podia ser melhor vista na galera a partir do dia que arranquei a etiqueta da calça do meu pai e costurei na minha. As meninas me chamaram para as conversas e os meninos me incluíram na roda para falar da última moda. Segui fazendo isto, esta falsificação inocente para exibir a marca da minha roupa até descobrir que isto era ridículo. Ainda bem que foi logo, mas parece que ainda não acabou isto. Achei que era coisa dos anos 90, mas hoje vejo que as etiquetas estão todas para o lado de fora da roupa. Mais importante do que o que você veste é a marca disto e o quando supostamente custa e de repente a pessoa que veste perde sua importância, a menos que tenha um jacaré ou a Dudalina no peito. Ou ainda a maçã no carro, sinalizando o computador ou telefone que tem.

Claro que gosto de coisas boas, mas chego a me recusar a comprar algumas coisas que posso ter por me sentir ofendida pela comercialização do ser. Pode ser que seja só uma utópica idealista, mas tenho medo de uma sociedade que valoriza seus pares pela marca da bolsa ou do sapado, pelo monograma da bolsa. Num convívio destes não posso ostentar minha realidade e nem ser eu mesma, pois meu mesma sou um tanto baratinha demais, sem grife nenhuma.

20 comments

  • Fico feliz em saber que existem outras idealistas utópicas que recusam comprar coisas por uma suposta comercialização do ser embutida. Que dizem não a consumolatria! Eu até admiro algumas marcas e até algumas iniciativas que têm certas marcas, ou até a qualidade que parecem primar, mas não compactuo com a idéia de vc ser promovido a ser humano por causa da força de uma marca. As pessoas são muito mais que isso!

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  • Muito interessante, Fabiana! Esse tema “marca” nunca me tirou uma hora de sono, nunca perdi meu tempo querendo ter o ser algo para agradar a alguém; sempre tive minha opniao formada sobre isso e nunca fui de vestir “marca”. Claro que tenho alguma coisa de “marca” , porque eu gosto da qualidade e nao do preco. rsrsrs. E principalmente as roupas e sapatos para as montanhas, essas sim, sao realmente necessárias.
    As ” marcas” escravizam as pessoas e está ficando cada dia pior. Ojala! eu possa criar meu filho com o meu pensamento sobre esse tema.
    E uma vez que voce ler o livro A Doutrina do Choque de Naomi Klein, voce se convence ainda mais que NAO PRECISA E NAO VAI COLABORAR PARA ESSAS ” MÁFIAS”, uma vez que nao estamos livre de ser culpados em gereal. Nao existe uma vida correta, em uma vida falsa. Mas, nao vamos pensar taoo profundos, porque vamos enloquecer. rsrsrsrsrs
    E outro dia vendo uma moca que tem um blog de “moda” me chamou muito atencao, porque ela tem quase 2 milhoes de seguidores e outras do mesmo tipo de blog. Entao, eu quis saber o que tem na cabeca de uma moca com quase 2 milhoes de seguidores. E a surpresa!!!?? tchan..tchan..tchan..rsrsrsrs MARCA, MARCA E MAIS MARCAAAAAAS. Ou seja, uma moca que leva para os seguidores a seguinte mensagem: VAMOS COMPRAR, COMPRAR E COMPRAR…marcas e mais marcas. Isso é um prato cheio para o capitalismo/consumooo. E fiquei pensando: quantas mulheres sonham com isso e nao podem ter e ficam loucas querendo aquilo que ela mostra, tenho certeza que saoo poucas que podem comprar aquelas bolsas, sapatos,óculos, perfumes e roupas que ela mostra e nao em pouca quantidade; mas, em grandes quantidades. Nós nao necessitamos de tudoo isso, naoo precisamos mostrar isso e muito menos incentivar a outras pessoas que sejam assim. Claro que só as pessoas que nao tem nada na cabeca se deixam levar por esse tipo de coisas. E assim está ficando a sociedade. Uma sociedade doente e carente de VALORES.
    E ela fala em um video que nao lembra do livro que leu e nao é fa de ler e a última vez que ela quis comprar um livro foi o 50 tons de cinza e decidiu esperar o filme porque era mais fácil. Fiquei em CHOQUE. Sem mais comentários. Mas, ela lembra dos sapatos vs bolsas que comprou e ainda mostrou no video. E as mulheres pirammm, ficam loucas com a ostentacao da moca.
    Que mundo, que sociedade, que pessoas.
    NAO, NAOO PRECISAMOS DE MARCAS, NAO PRECISAMOS DE RÓTULOS.

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  • Acho muito importante,como quase toda adolescente tive vontade de comprar roupas de marca,como meus pais não tinham condição ficava só na vontade. Hoje tenho um trabalho, posso dizer que ganho bem, mas já não tenho a coragem de comprar marcas. Lembro que com esse dinheiro posso comprar três peças que vestem do mesmo jeito. E sempre que quero comprar algo caro me lembro de alguém que precisa e compro pra mim e pra essa pessoa.

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  • Infelizmente hoje as pessoas valem o que tem. E algumas cansadas de serem subestimadas, fazem loucuras e até se endividam para manter a aparência. Triste realidade!

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  • Minha realidade foi a mesma, roupas usadas. Hoje sei dar valor ao meu dinheiro e não compro algo por ser de marca. A dureza me fez ver as coisas simples da vida e a dar valor ao “ser” e não ao “ter”. Existem pessoas tão pobres, mas tão pobres no mundo que a única coisa que elas tem é dinheiro.

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  • Olá querida Fabi, gosto muito dos seus vídeo, suas publicações, vídeos, e amei o seu livro Submissa. E de fato vc agora entrou na minha casa, e não vai sair mesmo! Um grande abraço!

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  • Excelente o comentário da Ana. Amigos, está em nosso ser (de ser semelhantes a Deus) querer ser e ter sempre o “melhor” (dentro da concepção de cada um) porque foi assim que o Senhor nos criou, para a perfeição. Infelizmente o pecado distorceu a pureza desses conceitos.

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  • Na verdade, acho um pouco de inocência (ou até mesmo em alguns casos hipocresia) achar que esses pré-julgamentos estão distantes de nós. Eu levanto o seguinte questionamento: Quando vc vê uma pessoa mal vestida (com roupas simplórias, e gastas) vindo em direção ao seu carro vc não a julga de antemão pensando que vai pedir esmolas? Quando vc vê alguém com um carro popular, com manutenção por ser feita vc também não o julga como alguém que não tem condições para fazer o que tem que ser feito? Se vc for ser operado por um médico cirurgião “com a cara e o cabelo do Einstein” (ou seja que não esteja com cabelo e roupa alinhada), vc realmente vai se sentir seguro em expor sua vida nas mãos deste?

    Este tipo de pré-julgamento sempre existiu e sempre vai existir. Não é exclusivo desta geração e também não será da próxima. Faz parte do ser humano dar valor a quem tem mais (ou ostenta mais) e dar menos importância a quem tem menos. Cabe a nós selecionarmos o que realmente importa e faz diferença na vida.
    Eu também sou de família muito pobre e também não tive todos os brinquedos que quis na infância e muito menos roupas de marcas. Mas acho que cada pessoa reage de uma maneira a sua realidade. Em mim, isso não fez efeito algum. Apesar de hoje ter a possibilidade de comprar o que quero, não dou a minima para marcas de roupas e pelo contrário busco sempre as oportunidades mais baratas. Já o meu irmão é um comprador exclusivo de roupas de marcas. E a aparência para ele é de suma importância.
    Não me acho melhor (ou mais evoluida) do que as pessoas que dão importância para marcas. Apenas acho que a experiencia de vida delas e o meio em que vivem, fazem com que elas creiam que terão maior notoriedade ou valor se estiverem “marcadas”. O que as vezes é real.

    O que quero dizer com tudo isso é que os julgamentos sempre vão existir. Até mesmo por nós que nos dizemos inertes a esse tipo de questionamentos. Acho que não é a mídia (ou sociedade) que vão ditar o que realmente interessa a nós. Apenas temos que nos lembrar (quando esse tipo de pensamentos pré-julgatórios virem a nossa mente) de expulsá-los de nosso coração e saber que o que interessa no ser humano é o que ele tem por dentro.

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  • Interessante observar um comentário como o seu. Vai na contramão contra tudo aquilo que a publicidade mostra e como o mundo consumista nos faz sentir. Querer “ter” para poder “ser”. Vejo por mim mesmo. Gosto de “ter” e em muitos momentos acredito que isto define quem eu sou. Que engano. Nada mais é que uma embalagem.

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