Infecção Urinária pode matar?

Infecção Urinária pode matar?

Primeiro aquela sensação de “apertada” como se não desse para de segurar o xixi, daí vem o incômodo, a ardência e a frustração: tanto sofrimento para três ou quatro gotinhas que mais parecem ter saído com pimenta. São poucas as mulheres que nunca ouviram falar da cistite, ou infecção urinária. Estimativas apontam que cerca de 20% das mulheres, já tiveram, têm ou terão este tipo de infecção pelo menos uma vez na vida.

A culpa, frequentemente, é da bactéria Escherichia Coli (E. Coli) que vive naturalmente no intestino humano. O problema começa quando ela resolve mudar de habitat e migrar para a vagina ou uretra. A bactéria está associada a 80% ou 90% dos casos de infecções urinárias. Isto acontece principalmente nas mulheres, por uma questão fisiológica. Como o ânus é próximo da uretra e esta tem cerca de quatro centímetros, a Escherichia tem mais chances de sobreviver e chegar à bexiga do que nos homens, onde ela tem que vencer a distância do ânus ao pênis e o tamanho da uretra masculina, três vezes maior.

fabiana bertotti caminho escherichia coliEsta é a infecção urinária que mais atinge o ser humano e a bactéria não faria mal algum, se ficasse na pele, por exemplo. No trato urinário é que se faz um grande dano. Alguns fatores facilitam a entrada e fixação da Escherichia Coli na bexiga. Segundo o uroginecologista Ângelo Palma Contar “pode começar pela defesa natural do organismo, que esteja baixa. O muco que protege a uretra pode não estar funcionando bem e não impede a entrada da bactéria. Além disso, a Escherichia Coli consegue sobreviver se a urina estiver menos ácida que o ideal ou se as glicosaminoglicanas, que envolvem a bexiga, não estiverem densas o suficiente para impermeabilizá-la. Alterações de imunodeficiências como câncer, Aids e desnutrição também colaboram para a entrada e permanência da E. Coli na bexiga. Em algumas pessoas, todos estes fatores atuam juntos e aí o problema é mais complicado”, descreve o médico que atua em Curitiba.

As infecções mais graves, aliás, podem subir pra os rins, ocasionando a chamada pielonefrite, e trazer problemas sérios, além de demandar internação. As infecções baixas da bexiga são as cistites e, estas, o uso de antibióticos pode solucionar. Mas os casos de infecções do trato urinário podem ir bem mais adiante que uma ardência ao urinar. Em alguns casos mais sérios, pode haver sangramento, febre e cólicas. É comum a dor na altura da lombar e a contração da bexiga, provocando desconforto. Se evoluir, pode levar a uma incontinência e muitos casos serão investigados por mais tempo. O problema também pode vir por uma má formação do canal do ureter ou mesmo dos rins e da bexiga.

Repetição

Rachel Brandão, uroginecologista que atua em Belo Horizonte, explica que de todas as mulheres que tiveram cistite, um quarto delas volta a apresentar o problema. A cistite de repetição ocorre quando a mulher tem mais de duas ocorrências da infecção urinária por ano. “Isto é muito comum e 99% das mulheres não têm nenhum motivo anatômico como alteração do rim, ureter, bexiga ou uretra para explicar o problema, infelizmente”, informa a médica que afirma ser o tratamento profilático, ou seja, antibióticos com o objetivo de prevenção, o mais indicado.

Foi nesta rotina que se viu a estudante e atendente de tele-marketing, Tatiane Almeida. Com 22 anos e casada há cinco, ela começou a apresentar os sintomas logo após o casamento, fato comum entre as mulheres. A jovem percebeu que logo após as relações sexuais, o problema aumentava e procurou tratamento. “Sinto mais quando está frio e já tomei muitos antibióticos. Faço tratamento há dois anos e os médicos só me dizem que é normal, já fizeram tratamento profilático com meu marido e nada. Tive sangramentos e depois de meses com remédios, uma pausa na medicação fez voltar o problema. Agora me mandaram procurar um imunologista”, resigna-se a Tatiane. E vale lembrar que o frio não provoca o problema, como diriam nossas avós, mas elas não estão de todo erradas. A temperatura mais baixa acorda a bexiga de quem já tem a bactéria, por causa da contração natural que os órgãos têm no frio.

Em casos assim, com tanta repetição, os cuidados são maiores. A doutora Rachel diz que o tratamento quimoprofilático é o que apresenta os melhores resultados. “O tratamento é feito através do uso de um quarto da dose do antibiótico, em um período que varia de seis meses a um ano. Funciona como se estivéssemos dando mais defesa para a mulher, pois a infecção ocorre quando a balança entre seus fatores de defesa e de invasão ficam desequilibrados, e com esse tratamento o organismo da mulher passa a ter maior defesa”, garante a médica.

Mas não funciona para todos. O doutor Contar argumenta que estes casos recorrentes acontecem geralmente por causa da bioafinidade. Ou seja, a bactéria se dá bem no organismo. “É como algumas pessoas que vivem com dor de garganta. A bactéria gosta daquele lugar, mesmo sem ser onde ela deveria morar”, resume. Há ainda os casos de cistite intersticial, quando o organismo rejeita a própria bexiga e a trata como intrusa. Neste processo ela baixa as guardas e perde as defesas naturais e neste caso, não existe cura para o problema que é conhecido também como bexiga dolorida. “Existem tratamentos paliativos e a doença é caracterizada por dor pélvica crônica e uma freqüência na necessidade de urinar, sem que se constate qualquer bactéria. Isto ainda é um mistério para a urologia”, define Contar.

Higiene e sexo

É no sexo, muitas vezes, que reside o problema. Seja por uma troca constante de parceiros ou pela falta de higiene. Raquel Brandão adverte para que exista uma limpeza antes e depois do ato sexual. “Uma ducha antes do sexo elimina boa parte das impurezas acumuladas durante o dia e, para a mulher, fazer xixi depois do ato sexual pode ser uma salvaguarda na proliferação de bactérias, já que a acidez da urina limpa a uretra”, ensina a médica. Em muitos casos, a bactéria do parceiro se sente confortável no corpo alheio e se multiplica ali.

Para o doutor Ângelo Contar, a higiene vai além das atividades sexuais. “Muito se poderia evitar se somente fosse ensinado às crianças, ainda, a forma certa de passar o papel higiênico, que é da frente para trás, para que não houvesse contato das bactérias do ânus com a vagina e uretra. O hábito de usar o bidê, que foi extinto, ajudaria muito nesta hora”, lembra o médico, para quem a água e sabão neutro ainda são as melhores formas de se limpar, depois de fazer as necessidades fisiológicas. As construções atuais estão trazendo um substituto para o bidê, que é a ducha higiênica, mas esta geração perdeu o hábito de usar este recurso. Seja pela pressa, seja pelo desleixo.

Em alguns casos, não só o que vem de fora provoca a infecção urinária, mas o que é formado dentro do organismo, como no caso de cálculos renais em que as pequenas pedras entopem o canal excretor e, muitas vezes, é necessário uma pequena cirurgia para desimpedir o caminho. A gravidez também pode ser a causadora do problema. “Algumas mulheres param de ter cistite quando engravidam, em outros casos, quem nunca teve, passa a apresentar o problema. No Brasil, a maior causa de abortamento é infecção do trato urinário. No caso de tratar com antibióticos, existe o perigo para o feto”, informa o Contar, que adverte para ter cuidado no tratamento de gestantes. E mesmo que não tenha a infecção, a gravidez já interfere no processo de urinar.

Renata Nadaline, grávida de seis meses, já tomava muitos líquidos, principalmente água. “Deixo uma garrafa de 1,5L em cima da minha mesa de trabalho e tomo pouco a pouco durante todo o dia. Em função disso, minhas idas ao banheiro sempre foram constantes, mas praticamente duplicaram durante a gravidez. Essa parte da fase tão gostosa que estou vivendo não é agradável, principalmente quando estou na rua e não tenho um banheiro disponível facilmente. Se eu seguro muito tempo, sinto dores leves, inclusive no momento de urinar e por mais algum tempo depois”, descreve. Este incômodo acontece por que o útero aumenta de tamanho e diminui a capacidade da bexiga e isso acontece justamente quando a gestante está produzindo mais urina. A pressão dá a sensação de que a bexiga está cheia, mesmo quando está vazia. Contudo, é comum aparecer cistite em mais de 10% das grávidas e, se não for tratada, leva à contração maior do útero, expelindo o bebê prematuramente. Beber muita água neste período é um bom método de prevenção da infecção, por lavar a bexiga, mandando a bactéria embora.

Gravidade

Embora os casos mais simples sejam curados até com a orientação de amigas, mães ou conhecidas, é Fabiana Bertotti Cistite sintomasperigoso deixar os sintomas de lado, com comprimidos paliativos. O caso da modelo Mariana Bridi, no início do ano foi um alarme e motivo de muito corre-corre nos consultórios. A jovem morreu depois uma infecção urinária e antes do óbito teve trombose nos pés e mãos, provocando necrose e conseqüente amputação. As bactérias que infectaram Mariana foram pseudomonas e estafilococos, nada comuns em infecções urinárias e que despertaram a suspeita de infecção hospitalar. Para piorar, as bactérias entraram na corrente sanguínea e os antibióticos não tiveram muito espaço ou tempo para atuar. Ela já foi procurar ajuda em estado bem grave e que evoluiu para a septsemia que, segundo Ricardo Lima, médico cirurgião e intensivista do hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, pode acontecer com qualquer paciente, por várias infecções. “Pode acontecer um caso como o da modelo Mariana Bridi, mas não deve. Ali houve um conjunto de fatores, todavia faltam peças no quebra-cabeça. É bem verdade que se traça na cabeça de qualquer médico um quadro de demora em procurar ajuda, já que se tratava de final de ano e período de festas. A própria família informou que ela sentiu uma dor, mas procurou ajuda bem depois”, pondera.

Para Lima, é preciso ressaltar que num caso de infecção, existe um triângulo a ser considerado em que os três lados são: 1-imunidade do paciente, 2 – tipo de contaminação e 3 – germes. Normalmente, o corpo humano se adequa ao ataque de bactérias com um sistema imunológico saudável. “É extremamente raro uma pessoa com estes vértices adequados chegar a este ponto. Ainda mais em se tratando de alguém tão jovem. A infecção urinária pode se agravar se não for tratada, mas não a chegar neste ponto”, ratifica. Para Contar, a percepção é a mesma. “O caso da modelo Mariana Bridi é um tanto anormal, já que menos de 1% das infecções urinárias graves chega ao óbito. Em 15 anos de urologia eu nunca vi um caso assim. Já tive pacientes graves, com os rins totalmente infeccionados, mas não a evoluir para a morte. Para chegar neste nível, o sistema imunológico deveria estar muito abaixo do normal, o que ocorreria com diabetes, câncer, AIDS ou desnutrição”. Ricardo Lima aponta ainda outro fator, a Síndrome do Anticorpo Antifosfolipídio, que gera hipercoagulabilidade e é uma doença adquirida que gera coágulos mais frequentemente. Isto explicaria a rápida trombose. Mesmo assim, o caso da modelo não é parâmetro de preocupação para quem tem infecções urinárias, mesmo que recorrentes.

Novidades no tratamento

Preocupações à parte, quem sofre com o problema sabe como é desgastante fazer uso constante decranberry_cistite medicamentos fortes, que acabam desencadeando gastrites ou até candidíase, por alterar o ph vaginal. As novidades no tratamento das infecções urinárias têm sido a volta ao natural com o uso da vitamina C e da cranberry, uma frutinha azeda, pouco comum no Brasil e cara ainda. A vitamina C deixa a urina mais ácida, diminuindo as chances de sobrevivência da E. Coli, no caso de chegar à bexiga. Já a cramberry, tem poderes a mais. Segundo um estudo da Cochrane Collaboration, rede dedicada à revisão de estudos na área da saúde, divulgado pela Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, a fruta que é muito comum no hemisfério norte, tem antocianidina, substância que impede a adesão de bactérias na parede da bexiga, evitando assim a reprodução. Segundo o estudo, o trivial suco de cranberry, tomado diariamente, pode até acabar com o problema, principalmente para quem sofre de crises recorrentes. O efeito colateral está no preço, um litro da bebida que daria para dois ou três dias, pode custar até 15 reais por aqui.

Há quem garanta que compensa. A secretária Rafaela da Silva Cruz, que mora em São Carlos, interior de São Paulo, teve crises e passou por todas as fases de investigação até experimentar o suco de cranberry. “O meu médico dizia que não era comprovado o resultado, mas continuei tomando meio copo por dia. Minha patroa trouxe dos Estados Unidos vários pacotes de cranberry em passas e eu como cerca de uma xícara de café por dia e não tive mais crises há dois meses”. Outros casos são ainda mais animadores, como o da auxiliar de escritório, Leontina Araújo dos Santos, de 50 anos, que mora em Caconde, SP. Há quase cinco anos ela começou a ter infecção, com sangramentos e um intervalo de no máximo três meses a cada recaída. “Usava os antibióticos de sempre, mas sentia muita dor de cabeça e os exames constatavam infecção altíssima. Um dia meu urologista recomendou cranberry e passei a tomar meio litro por dia, por quase dois meses. Fiquei um ano e meio sem sentir nada. Quando a cistite ameaçou voltar, fiquei mais 24 dias tomando meio litro diariamente e estou há quase três anos sem infecção”, comemora.

prevençao cistiteA ginecologista Fabiana Aver Rabaioli, de Caxias do Sul, tem recomendado o extrato de cranberry para suas pacientes com infecção urinária e garante que os resultados são rápidos e perceptíveis “Além de antocianidinas, a fruta é rica em flavanóides, proantocianidinas, taninos condensados e ácidos fenólicos. Estes componentes agem impedindo a adesão de certas bactérias no nosso organismo e também inibem bactérias associadas à úlcera estomacal”, enumera a médica que viveu uma experiência mais pessoal com o tratamento quando teve sua filha, hoje com cinco anos. A menina nasceu com quatro rins – e um deles obstruído -, sendo operada aos oito meses de idade. E até que tirasse as fraldas, precisava usar antibióticos para evitar a infecção urinária. Mas nem isto adiantou e a criança teve pielonefrite.

O sofrimento só acabou quando um representante de laboratório contou sobre o extrato e a geléia de cranberry. “Estudei o assunto e comecei um tratamento contínuo com minha filha todas as noites e tenho resultados ótimos. Há seis meses não tivemos mais nenhuma recidiva. Troquei também alguns tratamentos de antibióticos de manutenção de algumas pacientes pela geléia e também estou tendo resultados maravilhosos”, festeja. Mas a médica ressalta que a forma de tratamento varia com cada paciente e a intensidade da infecção. E ela não recomenda o suco, pelo gosto não muito agradável. “Também não indico para quem tem litíase renal e crianças abaixo de dois anos. Se for tomada em doses altas, a cranberry provoca diarréia. Prefiro a geléia ou em cápsulas, que tem se mostrado muito eficaz”.

Como é um produto natural, apesar do ceticismo de alguns profissionais, não custa nada, aliás, custa caro, mas não faz mal experimentar. Contudo, medidas simples como hábitos alimentares, higiene adequada e muita água, podem retardar ou eliminar o problema em sua forma mais simples. Emcausam cistite determinadas cidades, isto é um problema. Curitiba por exemplo, é uma cidade onde se apresentam números elevados de cálculo renal, em virtude da alta concentração de cálcio na água. Embora não seja consenso, muitos médicos associam isto ao alto consumo de carne, de sal, ao pouco consumo de água – como em todo lugar frio – o que também aumenta a ingestão de leite e derivados, que estão lentamente sendo associados a infecções. Ou seja, um estilo de vida saudável continua sendo remédio e prevenção no tratamento de doenças. Vale lembrar que de duas a três infecções por ano são consideras normais. Mais que isto, não se aperte em procurar um profissional e investigar as causas do problema. Afinal, fazer xixi é o natural da vida, e não é nada gostoso viver com dor para isto.

cistite pielonefrite

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*Reportagem publicada também na revista Vida e Saúde

3 comments

  • Quase morri por infecção urinária, que evoluiu para septsemia, justamente após o natal, tenho certeza que foi um milagre ter sobrevivido, agradeço muito a Deus por isso e pelas orações de minha igreja que juntos pediram a Deus o milagre, dia 31/12/2012 já estava com pneumonia, falta de ar, hemoglobina em 3 (tenho anemia falciforme), taquicardia…. e uma semana depois estava de alta hospitalar. Deus é maravilhoso, mas aprendi que não devo negligenciar os sinais que meu corpo manda, mesmo que seja um pequeno ardor (que não senti) ou apenas a sensação de não consegui esvaziar a bexiga (meu primeiro sintoma).
    Aproveito para parabenizar o blog adoro, acho super bacana… bjos

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