Lições

Lições

Ela queria conhecer o mundo. Dei um globo pra ajudar...

Se tem uma coisa que gosto mais do que as outras é ficar com minha sobrinha linda, a Milena. Ela é filha do meu cunhado, o irmão mais velho do meu marido. Linda como só, deve mesmo ter puxado a mãe, a beldade loira da minha cunhada amada. Estar no meio deles, da minha família, é divertido e restaurador, sobretudo quando podemos esticar um pouco mais que os habituais três dias.

 

Minha pequena, no entanto, tem me ensinado mais que eu pretendia passar a ela. Descobri como criança absorve o que você diz. Quando ela era menorzinha – hoje tem 8 anos – eu dizia que ela valia um “ovo frito”. Era para zoar e relacionar com fato de ser branquinha com longas madeixas louras. Daí no aniversário de 5 anos, bem grandona e esperta eu brinquei: “Quanto mesmo você vale, Mi?” “Um ovo frito”, foi a resposta que recebi para gargalhada dela e dos outros comensais à mesa.

Eu quis “promovê-la”, pois já estava maior, dizendo que agora ela já era um omelete. Rimos mais e no outro dia a avó foi brincar, falando do ovo frito ao que ouvi: “Não, vó, já tô valendo um omelete. Foi a dinda que disse”. Mais gargalhadas e me dei conta de como ela aprendia e internalizava o que dizíamos. Era preciso cuidado com aqueles ouvidos bem sintonizados.

Muitas lições e momentos gostosos para um aperto no coração com a maior lição que minha pequenina me ensinou. Era setembro e eu tiraria uns parcos dias de férias, mas antes de viajar fomos passar uns dias lá em Xaxim, no oeste de Santa Catarina. Cheguei de madrugada, vindo de Curitiba e meu marido já estava lá. Ele foi de Porto Alegre. Ao me buscar na rodoviária, avisto um bolo de cobertor no banco do carro. Era minha florzinha, buscando a dinda naquele frio. Um amor, uma expectativa. Fez até calor.

Apertos, abraços, muitos beijos e um dia, enroladas na cama seguiu o seguinte diálogo:

– Dinda, eu não quero que você vá embora. Fica mais comigo! – pediu.
– Mas eu preciso trabalhar, minha flor! – repliquei.
– Então trabalha aqui. Tem TV em Chapecó e tem jornal em Xanxerê – argumentou.
– Mas o dindo também trabalha – era eu tentando.
– Tem igreja aqui também!! – era ela irredutível
– É que o trabalho da dinda é lá longe – tentei explicar.
– Mas você disse que eu sou importante, não sou? Eu não sou mais importante que o seu trabalho?
– Claro… – era eu me contendo pra não chorar.
– A gente tem que ficar junto de quem a gente ama. Você tem que ficar perto de mim! – argumentou no golpe fatal.

Não respondi mais nada. Eu não tinha o que falar. Nem meu marido, que ouvia a conversa e já se apertava na convicção de que recebíamos ali uma grande lição. Uma dura verdade.

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