Menos mamães para comemorar

Menos mamães para comemorar

Eis que chega maio e é hora de lembrar das mães, preparar presentes, fazer lembrancinhas e programar o encontro de toda a família com ela, a mulher que concebeu os rebentos, depois de os carregar por cerca de 38 semanas na barriga dando o sangue (literalmente) por sua vida. Técnico demais dito assim, supõe-se. Pode ser descrito também daquela em torno da qual os filhos se ajuntam em carinho, buscando proteção, afago e conforto e que o peito oferece não só alimento, mas segurança e compreensão. De um modo ou de outro, estas pessoas – as mães – estão cada vez mais em falta no mercado e um mercado milionário cresce a cada dia de olho nas mulheres que querem se tornar mães: o da fertilidade.

O fator social não só não pode ser descartado como deve ser minuciosamente estudado para compreender este fenômeno. Após todas as revoluções “istas” dos últimos anos a mulher ganhou espaço para trabalhar, estudar e adiar os planos com a família. Ela quer se formar, ganhar prestígio e dinheiro antes de pensar nas fraldas e mamadeiras. O grande problema é que o estilo de vida e o adiamento não são nada amigáveis com a maternidade, isto porque o relógio biológico não foi avisado ainda de que ela está dando um tempo. No momento de parar, ele para e pronto. Para o médico e especialista em fertilidade, Dr. Karan Saad, a programação nem sempre pode ser feita com sucesso. “A mulher tem uma idade limite para ter óvulos. Chega o período de 45 ou 46 anos e eles já se foram. Claro que existem mulheres engravidando naturalmente depois desta idade, mas são raras, assim como são as pessoas que vivem mais de 100 ou 120 anos”, sentencia o profissional.

Problema é que nem sempre a idade precisa avançar para os empecilhos chegarem. Em alguns casos se apresentam bem antes disto, como com a Solange Hildinger, 50 anos. A advogada casou aos 20 e por 14 anos tentou engravidar sem sucesso, passando por quatro procedimentos de proveta e diagnosticada com Esterilidade Sem Causa Aparente (ESCA). Antes dos 35 anos conseguiu e engravidou de 5 bebês, dos quais apenas 3 sobreviveram. “Eu queria muito ser mãe e paguei o preço por isto. Os remédios e procedimentos eram caros e dolorosos. Cheguei a tomar 350 injeções num ano. Mas queria tanto que relevava os incômodos.” Depois que conseguiu, parou de trabalhar para cuidar dos seus 3 projetos de vida, hoje com 16 anos.

Não só engravidar, mas amamentar antes dos 30 anos é importante para a saúde da mulher e a protege

contra o câncer. “A mama é um órgão feito para amamentar e enquanto isto não acontece as células não amadurecem. Sendo jovens estão mais suscetíveis às mutações e multiplicações aumentando o risco de tumores”, explica José Roberto Filassi – Mastologista do Icesp – Instituto do Câncer do Estado de São Paulo.

blog_ferti6A idade é mesmo cruel com a mulher quando o assunto é fertilidade. Para você poder entender melhor, vamos de números: aos 15 anos uma menina tem 1% de risco de infertilidade. Aos 35 anos este número salta para 30% e aos 45 anos já é de 50%. Isto porque ao ser gerada a mulher carrega 3 milhões de óvulos que vão se perdendo com o passar dos dias e chegam por volta de milhão até a hora de nascer. O problema é que a cada mês eles diminuem, se perdendo na menstruação até que chega ao fim. Simples assim. Claro que não se trata só de um problema feminino, já que entre os homens não há muito o que comemorar quando o assunto é fertilidade e o passar dos anos. Não se trata de idade, mas de decadência física. Há 30 anos a média de espermatozoide era de 60 milhões e vem caindo a cada ano ao ponto de os médicos acharem satisfatório hoje uma média de 20 milhões ou menos.

Tanto é que a reprodução humana é o ramo da ciência que mais evoluiu nos últimos anos, segundo Saad. O tratamento de casais sem filhos ganha notoriedade à medida que aumenta o número de mulheres independentes, realizadas profissionalmente e que perderam a hora no que tange à própria capacidade de gerar. Isto tem a ver com a idade, claro, mas também com outros fatores que podem ser amainados. É preciso começar a pensar no efeito nocivo da sexualidade precoce, por exemplo. Tirando o fato de que é um risco de gravidez antes do tempo, acarretando problemas desde aborto mal feito até procedimentos insalubres, tem o problema das relações sexuais em excesso e com variedade de parceiros. Numa sociedade onde tudo é permitido e corre-se o risco de isolamento e ostracismo ao condenar este comportamento libertino, todavia é preciso alertar as meninas mulheres de que esta postura hoje trará dores amanhã. Doenças venéreas, infecções e outros problemas físicos por relações sexuais com diversos parceiros ao longo da vida.

As infecções de útero, ovário e trompas, seguidas de mioma e endometriose também compõe a lista quando o assunto é infertilidade feminina, lista, aliás, composta também por irradiação (celular, wireless, micro-ondas), agrotóxicos usados indiscriminadamente e hormônios nos animais. A lista de problemas também fica pesada quando se comprova que a obesidade é outro grande vilão, provocado por má alimentação e sedentarismo. Num mundo cada vez mais gordo não existe discriminação de sexo neste assunto. Homens e mulheres têm a capacidade reprodutiva afetada com o ganho de peso.

Em excesso a gordura corporal induz maior quantidade de estrógeno e age controlando a fertilidade nas blog_obesidade1mulheres, além de alterar testosterona e estradiol, comprometendo a produção de esperma, além de maior índice de fragmentação do DNA do espermatozoide, falhando na hora de fertilizar o óvulo. Segundo pesquisa da Universidade de Adelaide, na Austrália, publicada no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, quando obesas as mulheres têm os ovários com inflamação e alto níveis de gordura que bloqueiam a fertilidade. Aí o peso é maior – com o perdão do trocadilho – pois nem idade conta. Até as jovens e com ciclos menstruais normais estão em risco se estão gordas. Não bastassem os riscos na sensibilidade do metabolismo do óvulo, a gordura danifica os mesmos e afeta a sobrevivência do embrião.

Não é estranho, então, que os médicos e especialistas em reprodução comecem por recomentar o corte no consumo de gordura trans (salgadinhos, biscoitos e alimentos industrializados), carne vermelha e açúcar. Em contrapartida são unanimes em recomendar frutas, verduras e fibras. Já que os carboidratos simples aumentam o índice glicêmico, comprometendo a sensibilidade à insulina. Esbarra-se, novamente no estilo de vida saudável que, ora veja, influencia até na hora de fazer neném.

Opção de tratamento
Jovem e nada de engravidar. Este foi o drama de Adriana Domingues, 34 anos que não tem trompas, pois foram retiradas depois de uma inflamação crônica na infância e cistos no ovário. Ela descobriu que produzia óvulos, mas que os espermatozoides do marido tinham dificuldade em fecundá-los. Brasileira, morando na Inglaterra, descobriu que o serviço de saúde pública de Londres oferece tratamento gratuito com três tentativas. “Eu não tinha muita informação até 3 anos atrás, quando decidimos engravidar e tivemos problemas. Achei que sofreria demais. Mas minha vontade de ser mãe era tão grande e por tantos anos acumulada que eu encarava tudo com alegria”, emociona-se hoje a mãe de gêmeos que nasceram no Brasil.
Ainda quando existe a possibilidade e engravidar usando o espermatozoide do marido e o óvulo da esposa, o problema é mesmo só o custo dos procedimentos que começam em torno R$1.500,00 e chegam ao imprevisto. Contudo, quando se fala em idade feminina que avança, esbarra-se de novo na extinção dos óvulos e aí é preciso lançar mão de óvulos doados, um drama para os pais que demoram a aceitar a ideia. “Biologicamente o bebê é igual à doadora, não à mãe que gera. A maioria das mulheres acima de 45 anos que engravida hoje o faz com óvulo doado e há grande sofrimento até optar de fato por este procedimento, geralmente um segredo de família”, explica Saad que recomenda a gestação até os 30 anos. “A fertilidade é alta, a gestação é tranquila e tudo conspira bem até esta idade. Dos 35 em diante a queda da fertilidade é mais acentuada e surgem problemas como tireoide, pressão alta, pulmão, coração da gestante. Sem falar nos índices de má-formação mais elevados a partir dos 35 anos, piorando com o tempo”, Alerta.
blog_ferti1Até por isto a opção de congelar os óvulos vem surgindo na cabeça das mulheres que podem começar com R$ 5 mil. Embora quando jovens não acreditem que terão problemas mais à frente e prefiram usar o dinheiro para outros projetos, tendo que desembolsar muito mais quando a idade bater à porta. Esta possibilidade, no entanto, também é a saída de fertilidade para mulheres jovens ou ainda crianças que se submeterão a quimioterapias e outros tratamentos para o câncer, por exemplo, gatilhos da infertilidade. Uma forma de usar a ciência a favor do mais primitivo dos instintos.

Vilões da fertilidade
Sexualidade precoce
Alimentação com muita gordura
Sedentarismo
Miomas
Endometriose
Abortos prévios

 

 

Esta reportagem também foi publicada na revista Vida e Saúde

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