merecimento e desmerecimento

merecimento e desmerecimento

Eu e minha equipe numa reportagem em São Francisco, SC.

Mania que temos de exaltar quem já trabalhou fora da Igreja, erguendo sobre todos os grandes talentos que nunca atuaram fora e dedicaram seus talentos integralmente dentro da Obra. É uma coisa meio provinciana que mistura bajulação e esconde uma ponta de inveja, veneração e baixa autoestima, talvez.

Sou jornalista e trabalho para a Igreja Adventista há sete anos, seja em rádio, assessoria, televisão ou revista. Neste meio tempo também trabalhei no SBT em Santa Catarina e até hoje quando sou apresentada em algum lugar é algo mais ou menos assim:

“A Fabiana, que foi jornalista do SBT….”  e por aí vai.

Acho engraçado e não se ofenda, se você que lê já o fez também, mas fico pensando nesta coisa de supervalorizar quem trabalhou fora da instituição, como se fosse melhor, mais talentoso ou algo equivalente. E olha que nem estou falando de mim, não, pois nem sou assim tão adulada. Contudo, olhe um pouco nas pessoas que são “entrevistadas”, “destacadas” em algum canto dentro da Obra.

Outro dia eu brinquei com meu marido que ele devia alardear que trabalhou na sede mundial do HSBC em Londres. É verdade, ele trabalhou. Foi lavando panelas, quando estudava por lá, mas trabalhou, não trabalhou? É assim em muitos destes casos. Às vezes a pessoa em questão fez apenas um estágio e nem foi tão bem assim, ou foi contratado para uma função daquelas que nem o gerente conhecida direito o sujeito. Pode ser uma função irrelevante, pode ser por curto período, pode até ter sido a pior experiência da vida do sujeito ou da sujeita, todavia isto parece brilhar mais no currículo do que qualquer grande realização que faça ou venha a fazer dentro da Igreja.

Com toda a ovação em cima do indivíduo, fico pensando em quem nunca saiu. Que sempre ficou “aqui”. É inegável que temos experiências diferentes e não renego todo meu aprendizado fora, mas já não o poderia tê-lo feito dentro das paredes da organização? Por um acaso o cantor que veio de fora, a moça que foi “sei lá o quê” naquela agência badalada, ou na empresa X, é melhor ou mais eficiente do que os que trabalham sempre pra Igreja? Não acredito.

Você, leitor inteligente, sabe que estes escritos não se aplicam a todos, obviamente. Ninguém está autorizado a interpretar mal minhas palavras, pois acho mesmo que haja mérito em conseguir um bom emprego e desempenhar com louvor sua função, mas não menos aqui do que lá. E alguns que talvez nunca teriam se destacado do outro lado, vem agora aqui arrotar de super cortês por ter deixado todos “os privilégios” pra devotar o talento a Deus. Ahã, sei…

 

 

2 comments

  • Concordo com vc Fabi, acho que todos aqueles que trabalham na obra deveriam ser valorizados e tratados como igual, mas já sabemos que isso nunca acontece. Valoriza-se aqueles que como vc escreveu trabalharam fora da obra e aqueles que o único mérito é ser filho de um grande pastor.
    Há mais de 3 anos moro fora do Brasil, e a igreja aqui é muito diferente, a música adventista no Brasil é muito mais valorizada tão valorizada que pra quem esta de fora como eu (nao fora da igreja, mas fora do Brasil) parece uma idolatria aos músicos adventista.
    Há muito o que devemos rever. Mas essa é só a minha opinião.

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  • Perfeito. Gostei muito, nunca tinha pensado assim, que uma experiência fora é mais valorizada do que na IASD. Viagem pura e não serve de atestado de competência pra ninguém… Os que trabalham na obra são dignos de respeito tb. E tb admiração, pois creio que muitas vezes enfrentam desafios maiores em vários aspectos.

    Texto leve, mas que convida a pensar mais profundamente. Muito bom mesmo.

    Abração.

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