Mulheres ganham mais e precisam repensar família

Mulheres ganham mais e precisam repensar família

As mulheres representam hoje 42% da força de trabalho no Brasil. O último censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) aponta que 37,3% das famílias são chefiadas pelas mulheres, o dobro de uma década atrás. Entretanto, a força feminina ainda não representa índices tão relevantes em altos postos – 8% em grandes cargos e salários 30% menores que os dos homens entre as executivas brasileiras – porém, cada vez mais elas são visadas pelas grandes empresas, especialmente pela capacidade de gerenciamento e resolução de conflitos.

A mudança no perfil sócio econômico refletida no novo modelo familiar, onde os cuidados com os filhos e família antes responsabilidade exclusiva das mulheres passa a ser compartilhado, e muitas vezes trocado pela ação do marido, tem trazido muitas dúvidas entre os pesquisadores. Como esta troca de papéis pode influenciar na formação da nova geração? Quais benefícios e malefícios são sentidos pelas mulheres atuais? E as famílias?

Em seu livro O Sexo mais Rico, a escritora norte-americana Liza Mundy, analisa o que ela chama a inversão do conto da Cinderela, onde o homem é um beneficiário do casamento, e cada vez mais os casais são formados por mulheres com escolaridade superior à dos homens, o que reflete em melhores condições de trabalho e, consequentemente, renda.

Andreia e Elizângelo com a filha do casal. (arquivo pessoal)

Andreia e Elizângelo com a filha do casal. (arquivo pessoal)

É o caso da secretária Andréia Wichinheski do Espírito Santo, 30, casada com o jardineiro Elizângelo Lacorte do Espírito Santo, 32, residentes no Rio Grande do Sul. O salário do marido é, em média, 30% da renda mensal da Andréia, o que fez com que a família adotasse um novo modelo: é dele a responsabilidade pelos cuidados com a filha, Layz, de 8 anos, que é especial, e com a casa.

Com oito horas e meia de trabalho diário, Andréia não consegue dar atenção os cuidados terapêuticos necessários para o desenvolvimento da filha. A opção pela inversão dos papéis, segundo ela, não influenciou no relacionamento do casal, embora a cultura machista da região onde moram faça com que a situação seja bastante exposta. “Meu marido é ótimo e não se importa com comentários. Na verdade, ele sempre me ajudou, mesmo antes de eu trabalhar fora, e eu o admiro ainda mais por isso”, diz. Mais descansada, Andréia pode ter tempo de qualidade com a filha e com o esposo.

Mas esta não é a realidade da maioria das mulheres que trabalham e assumem as contas da família. A dupla ou tripla jornada de trabalho ainda é a dura rotina. Para a médica ginecologista, especialista em sexualidade humana, Renata Vieira de Carvalho Isaac, o corpo sofre com tanta sobrecarga, e isto é evidenciado pelo aumento de crises de ansiedade, stress, depressão, distúrbios do sono, disfunções sexuais, etc. “Além disso, outras doenças, como a hipertensão e o diabetes, podem surgir pelo sedentarismo e aumento de peso, consequência da falta de tempo para a prática de atividades físicas e alimentação balanceada”, explica. Embora cheia de atividades, as mulheres modernas levam uma vida sedentária.

Outro fator negativo trazido pela introdução e ascensão no mercado de trabalho é o adiamento da maternidade. “Se considerarmos que a mulher posterga o plano de ser mãe muitas vezes até os 40 anos ou depois, nos deparamos com uma incidência maior de casos de infertilidade, diminuindo também o número de filhos nas famílias e aumentando a incidência de cromossomopatias – a síndrome de Down, por exemplo”, destaca a médica.

Em certos casos, o sucesso na carreira e área financeira da mulher pode trazer dificuldades. É o que aconteceu com um casal que mora em São Paulo, que pediu para não ser identificado nesta reportagem. Quando se conheceram no início da década de 1990, no exterior, não havia diferenças financeiras entre os dois: ambos eram imigrantes que trabalhavam e estudavam. Estavam começando a vida. Lá eles se casaram e após algum tempo decidiram retornar ao Brasil.

A volta representou um up profissional para ela, que rapidamente se tornou executiva de grandes multinacionais. O salário, cerca de 5 vezes maior que o marido, e o contato com pessoas de nível social, cultural e econômico maior, teriam prejudicado a convivência do casal. “Eu tinha orgulho dela, e o dinheiro não era o problema. Mas havia muita diferença entre nós, no modo e objetivos de vida, nas escolhas”, explica ele.

Quem ouve a história desse casal, pode até pensar que eles divergem no motivo do divórcio. Entretanto, um olhar mais atento percebe que há uma palavra que apresenta a razão comum para o fim: escolha. Para ela, as diferenças eram mais profundas que o dinheiro ou o ambiente de trabalho. Tinha a ver com a escolha por seguir crescendo, vencendo as adversidades. “Quando morei fora eu escolhi estar entre os nativos pra aprender o idioma, porque sempre quis crescer”, lembra.

Mulher-alfa

Muitas vezes a sociedade estereotipa a mulher provedora, com perfil visual masculinizado, avessa à crianças, e do tipo mandona. Porém a mulher que entrevistamos se enxerga de outra maneira.

“Até as feministas desejam que o homem desempenhe o seu papel de líder, de ter a visão de onde e como a família deve seguir. Eu também quis isso no meu casamento, eu quis ser liderada. Mas, as mulheres que ficam esperando isso por anos, se frustram”, conta ela, afirmando que o fato de querer ser liderada não significa o desejo de ficar em casa, sem ser produtiva, esperando que o homem seja o único responsável pelo sustento. Para ela os papéis são definidos: o homem mostra o caminho e a mulher ajuda.

“A mulher deve ser uma auxiliar do homem, e pra desempenhar este papel ela também precisa ser forte, decidida. Se precisar tirar uma peça pesada de um lugar, você não pede ajuda a uma criança, e sim a alguém com força igual ou maior que a sua. É assim que tem que ser no casamento”, exemplifica.

Após o fim, tentando entender os reais motivos para a falta de sucesso no casamento, ela passou a fazer terapia e ler mais. “Quando as mulheres chegaram ao mercado, fizeram isso para ajudar os maridos no sustento da família, já que eles estavam na guerra. E fizeram isso muito bem, porém, na volta, esses homens não souberam mais lidar com a mulher batalhadora que encontraram, e isso perdura até hoje”, comenta.blog_mulher_fonte3

Segundo a psicóloga Ellen Camargo, muitas mulheres ainda hoje se assustam com o poder que adquiriram no aspecto profissional, financeiro e na liderança familiar; e não sabem como se comportar. Daí vem a culpa, sentimento que traz efeitos psicológicos e físicos devastadores. Segundo Liza, o papel do homem é ajudar a mulher a ser cada vez mais independente, porque esta é mais feliz.

A autora norte-americana, Camille Paglia, que recentemente lançou o livro Personas Sexuais, discorda que o crescimento profissional das mulheres traga felicidade. Ela afirma que os homens cada dia menos compreendem como as mulheres esperam que eles se comportem, e que por isso se distanciam delas, causando o esfriamento das relações. “Eles se comportam como elas dizem que querem, e daí quando se transformam a mulher não quer mais aquele modelo”, disse a autora numa entrevista.

Camille destaca ainda que as mulheres que investiram na carreira, e formaram outro padrão familiar, já visível na era pós-revolução industrial, erraram. “Minha geração deu de cara com a parede. Quando chegarmos aos 70, 80 anos, acredito que a felicidade não estará com as ricas e poderosas, mas com as mulheres de classe média que produziram grandes famílias”, defende.

A nossa entrevistada já tem mais de 40 anos e ainda sonha em formar uma família. “A sociedade cobra um preço altíssimo por esta postura feminina. Eu optei pelo trabalho, porque aprendi desde cedo que eu poderia conquistar o que quisesse com ele”, diz, salientando que o novo relacionamento só será possível com um perfil de candidato consciente do seu papel de líder.

Camille Paglia na casa de Daysi Bregantini

Camille Paglia, autora de Personas Sexuais

Segundo a escritora Camille, o feminismo cometeu o engano de tentar reduzir a vida feminina às conquistas profissionais. No universo masculino, a autora afirma que eles estão em uma encruzilhada. Muitos não enxergam que existem traços natos masculinos e femininos. “A compaixão e sensibilidade femininas são virtudes positivas, mas a conquista nas áreas de cultura e tecnologia requerem traços masculinos, como planejar a defesa de uma sociedade sob ameaças de ataque”, por exemplo. “O Brasil não tem a mesma obsessão pela questão militar que os Estados Unidos, por isso tem uma mulher presidente”, completa. Ela acredita que as mulheres não podem presidir países mais “bélicos”.

Para que este novo modelo familiar não resulte em perdas para as próximas gerações, a psicóloga Esther Tribuzy afirma que mesmo ganhando menos o pai deve ter voz ativa. “Tenho certeza que a dedicação, o carinho e aconchego vindos de uma mãe deixam marcas profundamente importantes na vida dos filhos, sendo ela a liderança na casa, no trabalho ou não. Porém, se ao invés de autoridade tivermos autoritarismo, não importa de onde venha, isso traz consequências problemáticas, com implicações às próximas gerações”.

Conforto e segurança

Parecem haver qualidades intrínsecas aos gêneros que definiram os papéis de cada um na família ao longo da história da humanidade. Os fortes, corajosos e decididos homens são responsáveis pela segurança e sustento da família. As dóceis, amorosas e zelosas mulheres cuidam do conforto de todos.

Entretanto, nos relatos bíblicos existem mulheres com características ditas masculinas; como a capacidade de decisão e a coragem da juíza Débora, descrita em Juízes 4. Ela foi, aliás, a única mulher na Bíblia que não apenas governou, mas deu ordens militares. “Eu vou à luta e as honras da vitória não serão suas, pois o Senhor entregará Sísera nas mãos de uma mulher”, conta a história no verso 9. E aquela guerra foi mesmo vencida, também com a ação de outra mulher.

Vale a pena ler esta história, assim como a que conta a valentia da rainha Ester que atuou no momento crucial de necessidade do seu povo. O livro de Provérbios (capítulo 31) traz características da mulher/esposa. O curioso que ele cita atribuições não exclusivas ao ambiente familiar, mas sempre voltadas ao fato de cuidar, ajudar.

Por muitos anos as mulheres lutaram pelo direito de trabalhar, de votar, etc. Um marco dessa luta é o dia 8 de março, onde se comemora o Dia Internacional da Mulher. Porém, infelizmente, há países onde elas ainda não podem sair de casa sozinhas ou pedirem o divórcio, mesmo sendo vítimas de violência ou correndo risco de morte. Os questionamentos levantados nesta reportagem nestes grupos ainda subjugados é algo impensável, surreal.

Dicas de leitura:

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5 comments

  • Francis, o seu texto é muito inteligente e faz uma das análises mais equilibradas que já vi entre pessoas da igreja. Acho muito importante esse tipo de discussão em nosso meio.

    Quando era adolescente me considerava ‘a feminista’. Jurava que só iria casar depois de formada, com um emprego e minha própria casa. Acho que Deus gargalhava quando me ouvia dizer isso porque me casei aos 19 anos com um rapaz 9 meses mais novo que eu! Dia 16 de dezembro vou fazer 7 anos de casada, sou muito feliz e sei que no futuro vou querer ter um filho.

    Hoje não me julgo mais uma feminista, odeio o machismo, tenho muito interesse nas questões de gênero, mas agora que a impetuosidade da adolescência passou não sou mais tão rapida em criar rótulos, rs.

    O livro da Fabi eu já li assim que tiver oportunidade lerei o da Liza Mundy

    Uma indicação interessante é o discurso de Chimamanda N Adiche, cujo o título é “Sejamos todos feministas”, apesar da realidade nigeriana ser diferente da nossa muitas das reflexões dela também se aplica a nós.

    Um abraço.

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  • Gostei muito do artigo!

    É muito difícil hoje em dia ser mulher em essência.
    Tem dias que quero a todo custo ser uma mulher bem sucedida profissionalmente e tem dias que quero me casar e ter filhos e cuidas da minha casa…

    Fui criada ouvindo meus pais falando ” Você tem que trabalhar e ter seu dinheiro pra não depender de homem” e hoje me enxergo totalmente independente de qualquer pessoa. Acho que esta “independência” nos tornou de certa forma independente até mesmo de Deus e isso me preocupa.

    O feminismo foi muito importante para nosso desenvolvimento como indivíduo na sociedade, mas querer ser igual aos homens a todo custo nos faz perder nossa essência como mulher e isso causa uma confusão e tanto na minha cabeça.

    É muto bom saber que Deus tem as instruções certinhas pra nos orientar entre tantos “eu acho” e “eu penso” hoje tenho buscado saber o que Deus espera de mim como mulher!

    Fabi, obrigada por ter compartilhado este texto da Francis. Você é sempre muito inspiradora…

    bjo!

    Deus abençoe seu ministério! :*

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  • Belíssimo texto. Gostei disso: “Para ela os papéis são definidos: o homem mostra o caminho e a mulher ajuda.” Pra mim, o erro foi “as mulheres” lutarem por direitos ‘iguais’. Na verdade a luta deveria ser pelos seus direitos de mulher. Não somos iguais, não fomos criadas para ser. Acredito que podemos ajudar nossos maridos (financeiramente falando) quando necessário, mas quando almejamos uma família, um casamento, temos que ter em mente qual é o nosso papel nisso. E se trabalhamos, precisamos sim buscar uma maneira de não deixar essa escolha tão importante (de ser família) em segundo plano. Se um certo padrão não fosse importante, acredito que não haveriam recomendações bíblicas – a qual, foi muito bem usada novamente como exemplo aqui, provando que na Bíblia temos a resposta pra tudo. Ele já nos orientou, desde sempre, como ser o que temos que ser. E eu busco, ser aquela mulher sábia que edifica seu lar. E ninguém disse que seria fácil.

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  • Eu sinceramente não gosto tanto assim dessa “força feminina”, claro que é bom crescer profissionalmente, assumir papéis do homem quando necessário, por exemplo, meu pai morreu quando eu tinha 14 anos e minha mãe assumiu tudo sozinha, criou 2 filhos e com a direção de Deus as coisas foram se ajeitando, mas a sociedade cobra que todas as mulheres sejam assim, inclusive eu comentei isso na sua página do face e aqui no seu blog, questionando a sua postura em relação à isso, visto que você também não tem filhos, essa coisa toda explicada no texto, impacta na sua vida também?

    Eu penso que se eu não pudesse trabalhar, eu seria a primeira a queimar o sutiã, mas as vezes tenho vontade de ser apenas mãe, esposa, cuidar da minha família, sem me preocupar com salário, com dinheiro, com profissão, com sociedade…

    Sou formada, tenho profissão, tenho um trabalho em paralelo, uma filha, um marido e mal consigo me envolver nas atividades extra da igreja 🙁 .. Acho que estou estressada com isso e queria até dar um peteleco em quem queimou aquele sutiã rs..

    Beijos Fabi!
    Deus abençoe <3

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