Nem lá, nem cá

Nem lá, nem cá

Quando eu me mudei para outro país, no caso Inglaterra, nem imaginava quantas portas se abririam pra mim. Não estou falando de oportunidades profissionais, nada disso. Estou falando em portas mentais, emocionais, cômodos novos dentro de mim mesma. Viemos com data marcada pra voltar e estamos no meio do período que estabelecemos para nós mesmos, mas depois de um tempo você questiona seus próprios tempos e propósitos e reavalia algumas das metas pessoais, que sim, mudam conforme você mesma muda. Uma coisa, contudo, sempre esteve claro em nossa mente: otimizar o tempo.

Tenho um certo pavor de ver a vida simplesmente passar, correr, voar e não ter feito nada de útil, proveitoso ou que pudesse olhar com certo orgulho lá da frente, naquelas clássicas e inevitáveis olhadas de ombro que damos pela vida, flertando com o que já foi e o que fizemos do que era. Ai, estou metaforizando demais…

É que comecei a prestar atenção nas pessoas que saem de seus países e vem pra cá, ou vão pra lá. Outro dia mesmo conheci um casal na academia. Ele de Santa Catarina, ela do Paraná. Saíram do Brasil há 21 anos e estão rodando o mundo em “busca de melhores oportunidades”. Ele, casado pela segunda vez, já morou nos Estados Unidos, na Austrália, vive há 13 anos aqui e quando o conheci, estava com a esposa fazendo planos para irem viver no Canadá. Perguntei porque queriam mudar tanto e se já tinham aprendido bem o inglês, depois de tanto tempo em países anglófonos. Não, ainda não tinham aprendido bem a língua, pois se dedicavam só a trabalhar e juntar dinheiro para mandar para o Brasil, pra “fazer a vida lá” e estudar, na concepção deles, era “gastar” dinheiro.

Os filhos estavam longe, os pais e netos também. Viviam como nômades de terra em terra, juntando algo e vivendo precariamente o hoje, na esperança de ter algo melhor amanhã. Mas quando o amanhã deles de fato chegaria? Não sei e achei deselegante perguntar demais, todavia não fez muito sentido pra mim. Assim conheço vários que vivem precariamente o hoje, no exterior, no ledo engano que construíram para si mesmos de que estão sofrendo agora esperando um dia bom no futuro. Enquanto isto o presente corre, foge, os filhos crescem, os amigos mudam, os pais envelhecem, a vida passa e não fizeram nada de realmente válido com suas vidas hoje, nem terão algo de que se orgulhar amanhã. E nem os laços que mais valem, pelo qual se matam hoje, a família, no caso, vai mesmo sair mais nutrida no fim da jornada, se é que esta jornada terá um fim.

Às vezes tenho medo disso. Você já teve a sensação de fugir de você mesmo? É assim que imagino alguns de nós, mudando de lugar como que querendo mudar de “eu”, mas se carregam junto para onde vão, não encaram a realidade de que mudança de verdade se dá com os pés no chão, enfrentando quem são, os medos, deficiências, também os talentos e força. Muitas pessoas que conheci aqui, brasileiros ou de outras nacionalidades, ainda não se deram conta que o futuro bom que almejam só chegará quando derem valor ao seu presente, ao se olhar no espelho e se dar conta de quem são hoje, o que tem maior preço pra eles. Do contrário, continuarão vagando a ermo, sem encontrar este sonhando lugar no futuro, sem nunca encontrar a esperança que procuram. O tempo passa, os laços se dissolvem, não pertencem a ninguém e a lugar nenhum. Nem lá, nem cá.

6 comments

  • Me sinto assim Fabi… e várias vezes quero ir embora, independente de que eu realmente quero morar fora, para fugir, tentar mudar algo que eu posso mudar onde quer que eu esteja.
    Não quero deixar de viver o hoje… quero honrar a Deus com minha vida e atos hoje e sempre. E viver Seus planos e sonhos para mim.. hoje!

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  • Morando em outro país somente com o marido igual a voce, tambem penso exatamente tudo que vc escreveu…
    “Tenho um certo pavor de ver a vida simplesmente passar, correr, voar e não ter feito nada de útil, proveitoso ou que pudesse olhar com certo orgulho lá da frente”
    Nao, sei vc Fabi mas depois que vc mora fora do Brasil vc quer voltar por causa da familia e amigos, mas em contra partida tambem quer ficar por causa da vida confortavel que outros paises te proporcionam… Uma mental luta diaria…

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  • Esse é um tema que sempreee me chamou muuitoo atencaoo!!!! Pois, tenho 8 anos na EU e durante todo esse tempo, tenho conhecido muuitoos brasileiros e de outras nacionalidades, que realmente NAO TEM MUITO INTERESSE NESSE CRECIMENTO ” pessoal/emocional/intelectual”. Conheco vários que vivem há muito tempooo e nuncaa aprenderam realmente os idiomas dos respectivos países. Vivi quase 3 anos em Barcelona e lá vi muitaa gente sem interesse algum nesse aspecto, mal falavam o espanhol e olha que o idioma nao é difícil. E questoes culturais, como, MUSEOS, EXPOSICOES, GALERIAS, TEATRO,CINEMA, LEITURA, COLINÁRIA DO PAÍS, que acho suupeer INTERESSANTE, tao pouco teem interesse. Para se viver intensamente uma outra cultura o individuo DEVE conhecer o IDIOMA E A CULINÁRIA do país. Sao dois pontos MUITOO IMPORTANTES para se integrar numa “sociedade” que nao é a nossa. DIRIA: CRUCIAL.
    Por onde passo, eu procuro aprender, nao importa o tempo que fico nesse país. Passei uma temporada na Itália e lá aprendi o idioma e muitoos truques de cozinha com as italianas e hoje vivo e aprendo cada dia mais da cultura alema. Já vou completar 6 anos aqui e ainda me falta muuitoo para aprender. Mas, quando olho atrás, vejo que já aprendi muuitooooo dessa cultura que tantoo amoooo.
    Gosto muuitoo desse tema e gostei muitoo do que voce escreveu.
    Um abraco, Fabi
    bjs
    Ray Albuquerque

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  • Entendo bem os seus sentimentos. Mudamos a 10 anos para Portugal, mas de maneira privilegiada. Podemos viver bem o hoje e sentimos que Deus tem uma missão através das nossas vidas e tentamos vivê-la diariamente. Noutros casos é o que você descreveu, trabalhar agora para um futuro que nunca se viverá. Só deve sair do país quem realmente sentir a direção de Deus, pois não é fácil ser estrangeiro, são muitos os sacrifícios, mesmo para aqueles que vivem bem.

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  • Oi Fabi , eu gosto muito de seus posts , e tem mostrado a sabedoria de uma mulher de Deus .
    Esse texto é interessante , fala sobre o real sentido de ir a um lugar , e que devemos ser sempre nós mesmo .
    Eu quase caí no erro de moldar a minha vida em outra pessoa , namorei uma garota de outro lugar do Brasil ( Moro em São Paulo , e ela em Belém do Pará ) , e tinha planos de casar e morar lá , depois de terminar estudos , mas não deu certo .
    Sinto essa vontade de mudar , conhecer lugares , mas dentro do Brasil , com a permissão do Senhor Jesus.
    Beijos Fabi .

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