no pictures, please!!

no pictures, please!!

Estou com certa vergonha de mim. Fiz algo do que não posso me orgulhar. Gostoso não é, falar dos seus defeitos, admitamos. Nada gostoso! Contudo, acho que é uma espécie de expurgação. Talvez não. O fato é que me sinto agora tão “chata, boba, feia” (como diria minha mana caçula aos 5 anos) que quero receber mais xingamentos, como se justiça assim se fizesse. De um modo ou de outro, já me arrependi.
Estou em Lancaster, na Pensilvânia para ver os Amish – aquelas pessoas descendente de suíços anabatistas que estão sediadas nos Estados Unidos e Canadá – e entender suas razões para manterem-se afastadas do mundo. No fundo, acho que entendo este povo que ainda usa roupas do século passado, dispensa telefones e eletricidade e não faz a menor questão de veículos automotores. Nas fazendas, onde a maioria trabalha, bois e cavalos ainda são os melhores parceiros para a dura jornada.
Amish não gosta de se fotografar ou filmado, pois consideram isto uma futilidade que fere princípios religiosos. Já sabia desta particularidade e da dificuldade de entrevistá-los, mas decidi percorrer algumas fazendas, flagrá-los na lida diária e filmá-los sem ser vista, ou sendo mesmo, não me importava. Na minha cabeça racionalizei o seguinte: Eles não tiram fotografias, mas não significa que seja pecado fotografá-los, pois o ato vem de mim, onde isto não é imputado como pecado e não deles. Logo, eles não ferem seus princípios se eu os filmar. Não parece lógico pra você? Pra mim parecia até que avistei ao longe na estrada dois garotinhos loiros em seus trajes típicos (homens só usam preto, azul ou marrom) andando numa espécie de patinete, mas com pneus de bicicleta.
Gritei para o cinegrafista focá-los e fui dirigindo logo atrás, preparando para dar a volta e filmá-los de frente. Até que um deles percebeu o carro atrás e contou ao outro que começou a sacudir o chapéu em nossa direção com o cenho franzido. Ensaiei um “hello” sorridente para a hora em que passaríamos ao lado (sempre com a câmera em punho) e qual não foi o peso em meu coração e consciência o vê-los desesperados sem saber se tampavam o rosto com o chapéu de palha ou continuavam a gritar: “No, sir, please, no pictures!!”
Não, não mandei parar. A contrário: “Gravou isto, gravou eles gritando?!” foi minha preocupação inicial, para mostrar justamente a aversão em expor sua própria imagem. Não foram necessários 30 segundos para eu e minha equipe nos darmos conta da invasão, da afronta, do abuso que cometíamos. Que eu cometia impetuosamente com aqueles dois garotos por volta dos 8 anos. Ora, toda a minha racionalização de que não fazia nada demais, pois não estava pedindo pra eles posarem, mas sim registrando uma cena do cotidiano, foi por terra. Até agora o rostinho contorcido e o sonido das vozinhas infantis reprovando e implorando “no pictures, please” pressionam meu peito.
Como jornalista sempre mantive a postura de primeiro gravar/fotografar pra depois perguntar. Não vamos entrar no mérito da ética, aqui, todavia hoje, dois loiros garotinhos em roupas de filme de época me ensinaram que minha sanha por mostrar a realidade de alguma coisa não pode invadir tão desrespeitosamente a realidade alguém.
Não precisa me condenar. Já fiz isto. Eles já fizeram.

PS: Aqui você pode assistir à reportagem

10 comments

  • Oi fabi posso te chamar asssim né?
    Bom sou super fãn sua , li todos os seus livros .
    E vejo todo os seus videos no yotube te admiro muito sua forma de pensar .
    Comecei até a escrever um livro e acredite foi influencia sua , as mulheres da minha religião não poder ver ou ler , coisa de pessoas de outra religião , e a mulheres da minha religião tem muitas duvidas sobre sexualidade , sobre casamento etc. Acho que como toda mulher né , e por isso decidi escrever um livro para elas . quando eu terminar de escrever , quero que você seja a primeira a ler .

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  • Não entendi uma coisa: porque se condenar, pela informação que foi buscar, pela sua gana em levar novidades, informação e outras culturas aos que te acompanham? De modo algum….Parabéns pela sua profissão, parabéns pela sua sede de novidades, e parabéns por saber quando é hora de parar, só os sábios sabem quando é necessário parar e respeitar a individualidade e a individualidade de cada um.Uma atitude de uma cristã que segue o princípio básico de respeitar o próximo.

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  • Muito forte flor, tiro meu chapéu pra vcs. Grata por compartilhar, saio daqui levando mais um aprendizado, como vc disse no fim de sua sua fala ..
    mostrar a realidade de alguma coisa não pode invadir tão desrespeitosamente a realidade alguém.

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  • Esse post foi muito interessante. O fato de você se sentir mal por algo que te parecia antes tão natural é algo admirável e que poucos conseguem fazer: admitir que erraram. Achei muito bom mesmo, um bonito testemunho, tanto teu, como dos menininhos.

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  • Olá =)
    Como são interessantes as culturas né?
    Em Angola várias pessoas ainda não se deixam fotografar, dizem que quando se fotografa a máquina rouba a alma, que é colocada dentro da máquina.
    Enfim, vale o respeito…
    Bjo

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  • Legal hein Gata, a preocupação deles deveriam ser a nossa. Como nos misturamos com as coisas desse mundo e estamos dispostos a afrouxar nossos principios por poucas coisas. Gostei do exemplo desses garotinhos, vivem em todo o momento o que aprederam de seus pais, o que sua cultura prega. Que bom que esta aprendendo grandes cosias… Volte logo para gente conversar sobre tudo…

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  • Legal seu ponto de vista! Lido sempre com isso, mas, ironicamente, no meu caso, nós somos os menininhos aguardando o pôr-do-sol para iniciar a prova, enquanto os demais nos filmam e fotografam perguntando: por que eles insistem em algo tão antigo com guardar um mandamento bíblico? Sua reportagem vai ser muito rica! Aguardarei ansioso.

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  • Parabéns por deixar o lado humano falar tão alto a ponto de romper com os valores e práticas que temos adotado no dia a dia. Levou alguns segundos para que te deste conta da “invasão”, para ouvires o apelo da tua própria consciência. Quem dera todos nós fôssemos tão rápidos assim (alguns de nós somos surdos!).

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