Novo Fantástico e a espetacularização da notícia

Novo Fantástico e a espetacularização da notícia

Painel touchscreen, palco e até um "café" para bate-papo.

Painel touchscreen, palco e até um “café” para bate-papo.

Talvez muitos aqui só me conheçam de textos como estes no blog, de fotos engraçadas ou meus vlogs, mas antes de tudo isto, sou jornalista. Nem faz tanto tempo assim, só 10 anos. Mas tá, é um tempo considerável. Trabalhei em rádio, televisão, jornal, assessoria e revista, minha paixão declarada. Na faculdade aprendemos técnicas, teorias e procedimentos de como se faz jornalismo, a farejar a notícia e a melhor maneira de contar uma história. E tem isto mesmo, o melhor jeito?

Moro fora do Brasil agora, com 4h na frente eu só fui ver a estreia do “Novo Fantástico” hoje pela manhã, enquanto a maioria de vocês dormia. Olhei, ri, chorei e fiquei pensando: será que realmente surtiu efeito no Ibope? O dados divulgados até agora deram 17 pontos para o novo formato do programa, enquanto o Domingo Espetacular da Record, ficou com 12 e o SBT segurou 9. Na semana passada, numa crescente decaída – com o perdão do trocadilho infame – os pontos ficaram em 14.

Já faz tempo que a Globo vem tentando fórmulas para revitalizar o dominical de 41 anos. Acho que não vão conseguir, só acho. A internet vem tomando o lugar da televisão e não é só no que diz respeito ao noticiário, como bem sabemos os que lemos sobre o assunto. Ouvi falar da crise de audiência da revista eletrônica global em 2007, quando ainda mencionavam o patamar de 30 pontos no Ibope. No ano seguinte trocaram a Glória Maria – que todos sabiam ser o desejo de metade da redação que não aguentava os faniquitos da estrela – por Patrícia Poeta. A ideia era rejuvenescer. Mudaram os quadros, investiram em grandes reportagens e…? Nada. Audiência só caindo. Renata Ceribelli assume o posto em 2011 e sai dois anos depois com Zeca Camargo, deixando a bomba para Renata Vasconcelos e Tadeu Schmidt.

Teve de tudo na estreia, robô teleguiado, cenário pomposo e tecnológico, show, bastidores – que todos gostamos de ver – interação e promessa de grandes matérias. Houve espetáculo.  Enquanto assistia (e sentia vergonha alheia) à reportagem de Lissie Nassar que parecia mais uma criança se divertindo num parque de faz de conta do que uma repórter interessada em mostrar algo novo sobre a prisão já tantas vezes noticiada, pensei em como o jornalismo está num período de vácuo.

Matéria encenada, sem nada de novo a acrescentar sobre a prisão.

Matéria encenada, sem nada de novo a acrescentar sobre a prisão #vergonhaalheia

Estamos todos tão inertes, adormecidos ou anestesiados que só o fato pelo fato não atrai ninguém. É preciso um drama, uma trilha, um repórter pagando mico, fazendo as vezes de ator, o caso de um menino cruelmente assassinado entre notícias de futebol e sonambulismo digital para provocar alguma coisa em nós. O que houve afinal? Como ficamos assim? Talvez o excesso de tudo isto por muito tempo, tal qual um sapato apertado que provoca calo e depois de anos não se sente mais a dor, com a proteção que se criou.

O fato é que a TV passa por uma crise, o jornalismo também. Isto porque toda a humanidade idem. A informação já não é tão bem-quista, entretenimento o é. E assim, o espetáculo se dá, onde a vida deveria acontecer e ela não é o bastante.

 

Comente, quero a sua opinião.

19 comments

  • Oi Fabiana, eu sou uma estudante de jornalismo no Perú (alias o próximo mes acabo a carreira). Quero dizer que estou totalmente de acordo com sua postura com respecto a crisis do jornalismo na televisao. Faz algum tempo eu estive no Brasil S.P. e lembro que ficaba vendo os telejornal e me estranhei com um, pela quantidade de efeitos e trilhas sonoras que foram utilizados para anunciar uma notícia, além que o apresentador se parecía mais com um candidato de política do que jornalista, pelo jeito de falar.
    Nao vou dizer que o Perú nao tem espetacularizacao da noticia, porque acho que esta crisis de jornalismo e de conteúdo nas producoes audiovisuais está em todo o mundo. Somos nós, jornalistas e cristaos quem temos a dupla responsabilidade para ser o exemplo de uma pessoa íntegra, profesional e moral cumpridores dos príncipios de Deus no trabalho e na nossa vida. Bencaos. Paz do Senhor.

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  • Oi Fabi!!!

    Acredito que a falta de audiência se deve ao anseio de paz. Aqui em casa não assito jornal e conheço muitos amigos que também não assistem pelo mesmo motivo: estamos cansados de ver morte, assalto, estupro, corrupção, epidemias, catástrofes e por ai vai. Quero chegar na minha casa depois de um dia de muito trabalho e ter paz! Sentar no meu sofá com meu marido e assistir Friends, um filme ou qualquer outro programa que nos agrade. Durante o trabalho fico ligada nas notícias, pois na internet não tem como não saber.
    E acredito que seja isso Fabi. Já é tão difícil estar nesse mundo que quando estou em casa quero ter meu momento relax….kkkk
    Beijos

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  • Concordo com tudo o que disse Fabiana. É impressionante sua visão simples, objetiva e verdadeira. Eu, particularmente, sou Agente e trabalho num Presídio Federal, a matéria de lançamento foi fraca (pra não dizer ridícula) – a repórter só sabia sentir “medo” e ficar com olhar de susto. Fiquei também com vergonha alheia (rsrs).
    Tomei conhecimento do seu site pelo vídeo da visão cristã da maquiagem, que também é muito pertinente. Alguém compartilhou no face e quis saber mais sobre você.
    Parabéns pelo trabalho. Vou acompanhar seus posts a partir de agora.
    Pretendes voltar a morar no Brasil?
    Amplexos de um novo fã!
    Marcelo.

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    • Oi, Marcelo! Seja bem-vindo. Pois é, esta matéria foi osso, quem sabe quando eu voltar ao Brasil eu vá aí no seu presídio fazer uma matéria! rsrs Um abraço!

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  • Graças a Deus não vejo mais este Jornal! Depois que parei de ver o Jornal Nacional a vida ficou até mais leve. Não sou alienado mas sensacionalismo, e leio as vezes, mas é eu quem escolho e na hora que eu quero, tudo na Internet é claro!

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    • Sem contar Paulo, que quando lemos, a informação permanece. Já assistido são tantas informações num curto espaço de tempo, que só guarda o que convêm ou o que te choca. E pouco tempo já nem se lembra mais. Nunca guardei todos os quadros que passam no horário de um jornal. Habitualmente, sabemos que será falado sobre futebol, politica e suas ramificações. Também não assisto TV, quais quer informações realmente relevantes, pesquiso em sites de revistas como VEJA e ÉPOCA, e tenho jornal impresso que recebemos em casa.
      TV se tornou um circo. Precisamos de pessoas como você Fabi, com foco e que mesmo com humor, nós proporcionaria momentos edificantes para vida e crescimento intelectual!

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  • Olha Fabi graças a Deus já faz um bom tempo que eu não assisto mais a Globo, salvo quando estou na academia onde não tem tv a cabo e as outras pessoas colocam nesse canal :/ enfim mas fico impressionada como jornais de outras emissoras conseguem atrair mais a atenção do que os da Globo sem a necessidade desse show todo… Eles bem que poderiam experimentar fazer o mesmo né

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  • Olá Fabi, tudo bem? Cheguei ao seu blog através do famoso vídeo da maquiagem, mas como sou de outra religião não quis postar naquele vídeo pra não ficar vinculado a qualquer coisa religiosa.
    De primeira mão, posso dizer que tiro o chapéu pra sua postura, religiosa, profissional, pessoal e afins, rs. Adorei o vídeo sobre a maquiagem não só porque você “deu um tapa na cara daquele que te julgou religiosamente”, mas sim porque você teve coragem de expôr a sua sinceridade, assim como ele. Acho que temos direitos iguais: a cada comentário uma resposta.
    Daí fui fuçando por que logo pensei que você seria uma dessas carolas e sim você me deu um outro tapa na cara. Adorei a sua postura em outros vídeos e tema, como o desse falando sobre o Fantástico. Pois é “tchutchuca” essa é a verdade da nossa profissão de Comunicação, não se espante, isso não acontece só com o jornalismo, dê um pulo até a Publicidade e verá a grande palhaçada que está se tornando essa profissão.
    Bom, fico por aqui desejando meus parabéns pelo seu maravilhoso espaço.
    Abraços da mais nova tchutchuca leitora do seu canal!
    bjs

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  • Me sinto da mesma forma quando (só quando) assisto o Fantástico… Há muito tempo que isso vem acontecendo, de o jornalismo não ser mais suficiente em si, e cada vez mais são criados programas televisivos onde a notícia é entretenimento, e a tragédia alheia é meu acompanhante no almoço… lamentável.

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  • De volta a era “pão e circo”. Queremos cada vez mais entretenimento e o que é realmente importante fica em segundo plano. Mais tempo para distrair e menos para trazer informações importantes. É interessante? Pode ser sim, mas é realmente isso que queremos?

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  • Eu acredito que as pessoas inteligentes ainda buscam sim pelo verdadeiro jornalismo, puro e simples. Mas nosso país não investe em educação e, infelizmente, poucas pessoas tem acesso à informação de qualidade para aprender diferenciar uma coisa da outra.

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  • Já faz um tempo que a televisão não faz mais parte da minha rotina… Mas o interessante notar é que assisitir ao fantástico ou qualquer outra coisa,faz parte da rotina do senso comum, as pessoas se acostumam com essa realidade e fazem disso sua única fonte de informação, não questionam nem querem saber de fato a origem desse fato.

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  • A tentativa de reinventar é válida, adorei os fantoches de cavalinhos na parte esportiva, a interação no cenário com outras pessoas, a tecnologia também me chamou a atenção.
    Já o lado jornalístico é difícil reinventar, séries espetaculares da BBC já não são mais inéditas, pois estão aos montes no youtube e internet em geral.
    Os quadros especiais como as do Drauzio Varella, Medida Certa, Bola Cheia, Detetive virtual tem seus espectadores, mas também precisam ser renovados, pois já passou a novidade.
    Matérias especiais como essa da penitenciaria federal exige muito tempo e planejamento, mas as vezes não surte o efeito desejado. Mortes e tragédias já não trazem a mesma comoção, quando a notícia é exibida já conhecemos muitos detalhes do fato ocorrido.
    A verdade é que o público evoluiu, a inclusão digital tornou pessoas comuns em cidadãos formadores de opinião, de crianças a idosos. Por isso os quadros e reportagens devem exigir do público uma reflexão, uma interação com seu dia a dia, pra que cada um de nós possamos evoluir com aquilo que foi apresentado.

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  • Como você mesma disse
    o programa envelheceu, são 41 anos no ar. Esse vinho virou vinagre. Estão
    tentando de tudo para conseguir audiência, acredito estamos próximos a um
    paradoxo onde o paradigma será modificado. Hoje o que falta na televisão é a
    interatividade que outros meios oferecem. Não sei se você irá ler ou comentar
    meu post, porém estou expressando minhas ideias. Uma vez escutei no rádio que
    as redes sociais são as caixas de gordura da humanidade, porém há exceções e as
    pessoas estão aprendendo a separar o joio do trigo. Na internet acredito haver
    mais isenção no jornalismo, ao contrário do que ocorre na televisão, onde
    diversos fatores determinam o que iremos assistir e às vezes a noticia acaba
    recebendo uma maquiagem e cirurgias plásticas e a tragédia vira comedia, ou
    vice-versa. Finalizando todos os meios estão sofrendo mudanças com o advento das
    tecnologias digitais, empregando a ideia da evolução de Darwin, veremos o que é
    ruim desaparecer e o que possuir mais excelência, isenção e credibilidade
    sobreviver a tudo isso. Quem viver verá!

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  • Concordo com quase tudo, menos com a colocação de que o Fantástico possivelmente não conseguirá se manter no ar. A televisão no ano de 2013 teve mais renda de publicidade do que todos os anos passados, mesmo com a queda de audiência. A Globo está mesmo tentanto se ”reinventar”, e acredito que ”conseguirá”. Afinal, é maior rede de comunicação do país…. também viviam dizendo que o papel iria acabar, e ai está ele ainda. Veja com mais de 1 milhão de assinantes, e a Folha de SP se mantendo como o jornal impresso com o maior numero de exemplares diários circulando pelo ”Brasil”. É complicado falar que tal coisa vai acabar, se desgastar, até pq a internet ainda é ”novidade”, uma hora vai parar de ser também.

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  • Fabi, antigamente no inicio do Fantástico, as noticias realmente eram para a época “fantásticas” e por isso a proposta do nome, lembro de algumas que realmente impressionavam… era noticia verdadeira, limpa, jornalismo sério… com o passar do tempo isso deixou de ser importante, como vc mesmo mencionou e o que passou a valer foi o espetáculo, consequência de uma sociedade que não quer se ver ….

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  • Quanto a estreia do fantastico, gosto e não gosto. Nada definido em minha mente. Mas com a sua opinião eu pude perceber o quão inútil foi a reportagem da semana. Esperava mostrar algo a mais, mas esperei por muito e não vi nada.

    Gostei da parte dos bastidores, gosto muito disso. Ver a discussão de uma pauta para a reportagem me deixa bem interessado, mas pra quem não gosta dessa area de comunicação acha desnecessário essa parte, como meu pai!

    Cenário muito bonito, ainda mais aquele tapete que eles recebem os convidados hehe

    Mas vamos esperar e ver

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