O presente merece um presente

O presente merece um presente

A apresentadora Hebe morreu neste final de semana e eu fiquei pensativa sobre a efemeridade da vida. Ela foi uma grande mulher (e não discuto aqui valores nem moral) para a TV brasileira e abriu portas para tantas outras que vieram depois. Representava simpatia e acolhimento e tinha um maneira bem peculiar de reagir frente às dificuldades. Pensando na morte dela eu lembrei de um texto que escrevi logo depois que minha avó morreu e quero dividir com vocês.

Sou do tipo que guarda as coisas, esperando uma ocasião “especial” para usá-las. Tem bastante gente assim como eu. Pelo menos eu espero. Minha mãe também é assim. Acho que peguei. Ela tem talheres novos esperando convidados especiais. Também tem pratos copos e baixelas. Na gaveta tem sempre uma lingerie com etiqueta. Não é para todo dia. O todo dia é muito normal, não merece tal deferência. Meu pai não é assim, minha mãe é que é e nisto sou parecida com ela, mas não queria ser.

É que minha avó, a mãe da minha mãe, também era assim. Mas ela morreu. Já faz dois anos que um câncer levou a minha avó e não deu tempo de ter dias “especiais” para usar a camisola nova, comprada há 5 anos. Também não houve ocasião para usar os copos bonitos, nem comer com os talheres diferentes. Todos os dias eram ordinários demais, até que a morte acabou com todos eles. Triste, né? Eu acho. Já chorei por isto e por estes dias especiais que temos mania de colocar num futuro intocável.

Não que sou da política inconsequente do Carpe Diem na qual cabem aqueles que não querem compromisso com o depois. Não se trata disto. É que tem muita gente indo embora da nossa vida, da sua vida, sem receber o tal tratamento “especial” e acho injusto isto, pois cada dia em que levanto, que abro os olhos, respiro e me movimento, é especial, único e merece aplausos. A correria tirou um pouco da cerimônia, mas acho mesmo que mereço usar a roupa que gosto só porque gosto. O sapato bonito só porque fez sol, e uma tiara cara porque o passarinho pousou na minha janela.

O amanhã como idealizamos talvez não chegue como o sonhado ou talvez eu (você) não seja mais como era ou nem esteja neste tal futuro. Eu não pensava assim antes, só depois que minha avó morreu. Ainda é difícil não guardar a toalha nova, o vestido com etiqueta ou os caderninhos bonitos de anotação, mas cada dia eu me esforço mais. É como o meu brinde à vida e ao privilégio de estar pensando lucidamente hoje. Já que não bebo, é assim que brindo. Não espero ocasião especial para dizer “eu te amo” a quem eu amo mesmo e nem de sorrir para um estranho na rua. Vá que não o veja mais! Não quero dar coroa de flores para queridos que não vão saber da minha dor. Faço questão de fazer do hoje um dia singular, com direito à copo e baixelas novas, com direito ao sorriso mais bonito que eu puder dar. Vá que eu não chegue no amanhã ou vá que o futuro não esteja lá quando eu chegar.

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