Pão e Circo, o retorno à barbárie

Pão e Circo, o retorno à barbárie

Um público berrando e torcendo para um ser humano cair ensanguentado

Eu devia ter uns 10 anos quando ouvi pela primeira vez a expressão “panis et circenses”. Era uma aula de história em que fiquei sabendo dos horrores da carnificina promovida por imperadores romanos para distrair o povo, o famoso pão e circo. Na minha cabecinha ficou a associação entre violência gratuita e pessoas degeneradas moralmente, coisa de muito antigamente.

Sou pacifista por opção religiosa e índole. Lamento até em matar um pernilongo e fico pensando em como sofrerá a esposa e os filhinhos do bichinho que não voltará para casa. Até por isto rodeios, touradas e a infame farra do boi que acontece no litoral catarinense me exasperam. Tive que fazer reportagens lá, quando trabalhava numa TV local, e não conseguia ver lucidez na face daqueles homens (bêbados ou não) maltratando os animais só para rir.

Mas daí que esta insanidade me aparece novamente como moda do momento e com uma aura “cult”. São todos falando do tal UFC e da MMA que pelo que entendi é uma espécie de quase vale-tudo onde a graça é deixar o oponente no chão, de preferência inconsciente. Atores, artistas, intelectuais e – pasme! – cristãos comentando, torcendo, perdendo o sono para ver as tais lutas, como se fosse de fato um esporte. Tá que não sou das mais esportistas e admito que a preparação com corridas, musculação e ginástica seja de fato esporte, mas entrar no ringue como galos numa rinha e esmurrar o “parceiro”, fala sério!

Você pode ter uma opinião diferente, sinta-se livre, mas não consigo imaginar uma pessoa que torce, grita esbaforida vibrando com cada golpe violento achar coerente falar contra a violência. Você deixa seu filho assistir isto e quer ensinar pra ele que é errado brigar na escola? Você acompanha seu marido nestes serões de murros e golpes e depois advoga contra a violência doméstica? Como assim? Não vou culpar as tais lutas pela onda de violência nas casas, nas ruas, no mundo todo. Não sou burra, como eventualmente pareço. Contudo com apenas dois neurônios é possível perceber como afeta, sobretudo os que já têm tendência, os mais influenciáveis.

Transformar isto em show e nos vender com pacote bonito de esporte é zombar e subestimar a influência da violência, é voltar à antiguidade, aos gladiadores sanguinários e a insanidade coletiva ávida por sangue. É, de fato, comprovar a falta de civilidade.

17 comments

  • como alguém que escreve DESCORDAR consegue um diploma em história?como alguém que não sabe diferenciar mas de mais,quer falar sobre ignorância.desculpe,mas fica até difícil respeitar os argumentos de tais.

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  • A lucidez elegante, a crítica aguda e a argumentação clara, conjugaram-se nesta
    brilhante obra, levando inexoravelmente, o leitor a profunda reflexão. O estilo da jovem escritora com sua capacidade para captar os aspectos essenciais de um drama humano coletivo, sem se perder nos meandros dos detalhes menores ,
    fazem deste texto uma contribuição, de matizes éticas de profunda relevância
    histórica e sociológica. Parabéns, mas parabéns mesmo, pelo grito retumbante em meio ao caos moral, em que se situa nossa desvairada sociedade…!…

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  • Fabiana, gostei muito do blog, e da forma que você escreve, é atrativo e o seu argumento fica claro. Porém me dê o direito de descordar de você. Faltam informações nos seu texto. Pão e circo não consistia em violência, ainda que a violência fizesse parte do espetáculo. Sou cristão e não goste de meias verdades, o UFC não é, e nem parece VALE-TUDO. Tem regras rígidas, e atletas que se preparam o ano todo para fazer muitas vezes uma luta. Dizer que não é esporte é depreciar, o empenho, treinamento e disciplina de seus atletas, além de invalidar o lado positivo que é tirar muitos das ruas e muitas vezes das drogas. Para ter coerência a negativa em relação ao UFC, tem que ser acompanhada a campanhas contra o boxe, jiu-jitso, e outras formas de artes maciais, futebol, futebol americano… todos esportes de contato, e que os atletas por muitas vezes acabam machucados. A foto que você usou é forte, mas não condiz com a realidade das maiorias das lutas. Apoio o esporte e creio na Bíblia como o único meio de salvação completa. Por favor não procuro ofende-la apenas expor minha opinião. Respeito a sua tbm e você enquanto profissional.

    obs: Sou Lic. Bach. em História pela UFPA ( só pra esclarecer o comentário do pão e circo)

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  • Eu já acho a violência inerente ao ser humano. Faz parte dos nossos instintos animais, por assim dizer.
    Ninguém é obrigado a gostar do UFC, ou gostar de boxe, ou gostar de futebol que, em matéria de lesões, é um esporte muito mais violento à integridade dos praticantes.
    Mas acho um exagero tentar aplicar a expressão “pão e circo” a eventos de artes marciais. É no minimo incoerente, em um planeta onde a imbecilidade é aceita como modelo social, sendo propagada por novelas e demais instrumentos de massa, dizer que um esporte cujas origens remontam aos primórdios da sociedade é sinônimo de barbárie.
    Usar a suposta mentalidade religiosa pra embasar esta concepção, então, é mais incongruente ainda, levando em consideração a história do cristianismo, “invenção” humana muito recente em relação aos combates homem x homem que sempre ocorreram na Terra.
    E sobre o Pão e Circo aqui fica um questionamento. Qual é o espetáculo mais digno de revolta? O UFC ou ver o Papa sentando em um trono de ouro rezando pelas crianças com fome? Qual realmente é a imagem da alienação social?

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  • Não se sinta obrigada a me responder, porém tenho que discordar. Colocar a roupa de boa cristã, detentora da boa moral e costumes, enquanto ainda vivemos em um mundo onde a violencia é que protege o nosso estilo de vida.

    O que seria de Israel sem o uso da violencia? Violencia que, depois, sofreram de volta multiplicado por dez. E de onde saiu a semente que plantou o evangelho em nossos corações hoje?

    A violencia não é algo ruim, nem bom. Tudo tem duas faces, e o que vemos no UFC não é o tipo de violencia ruim. É, alias, bem mais leve do que a violencia que vemos no futebol, no basquete, no rugby, e em todos os esportes.

    No final os lutares se abraçam e são amigos. A opinião equivocada de que o esporte é o pão e circo da sociedade, está cada vez mais, erradamente, difundida na nossa cultura.

    Quando o brasileiro vai aprender a pensar fora do que ensinam no ensino fundamental?

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    • Acho que você, meu caro, é que devia pensar. Defender uma insanidade dessas é no mínimo irresponsabilidade perante um mundo de violências que já vivemos. Quando Anderson Silva fez aquele discurso raivoso dizendo que iria acabar com Sonnen, o que houve por aqui foi uma verdadeira catarse, todos desejando que Anderson Silva “destruísse” o americano, com discursos de ódio e violência. Em que isso nos faz melhores? E não me venha com esse discurso idiota que os outros esportes são violentos também, pois no futebol, por exemplo, o objetivo não é entrar em campo e fazer sangrar um oponente, acontece o às vezes algo violento e o jogador é punido na hora, com cartão, e depois, se for grave, levam muitos jogos de suspensão. Além de deixar os admiradores do esporte indignados com a violência. No UFC, pelo contrário, quanto maior a agressividade, melhor, pois o objetivo é esse mesmo, “destruir o adversário”.

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      • Vejo que a discução de ideais são o que realmente todos nós temos que fazer discordar uns dos outros e espor isso, não sou contra o que fazem no UFC ou em qualquer outro TORNEIO DE MMA, por simples motivos quem entra lá não entra obrigado não é um escravo como em roma, não é uma pessoa despreparada são pessoas que por vontade e por DINHEIRO estão dispostos a fazer o que fazem…existem regras e quem está lá sabe delas, não é lutar até a morte como estão indiretamente dizendo, e outra coisa o SER HUMANO O ANIMAL HUMANO é na sua origem violento.

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    • Bruno, sejamos francos, seu argumento não convence. Disse que o UFC traz uma violência que não é do tipo ruim, mas se baseando em quê? Que benefícios ela traz? Citou que o futebol e o basquete, por exemplo, têm mais violência, contudo o propósito de ambos é a competitividade sem violência, e, ainda que contenham violência, isso a justifica? Aliás, existe como ocorrer um bom jogo em tais esportes referidos sem a violência, mas no UFC é inviável, visto que é seu único meio. Circo sim, meu caro, pois qualquer pessoa com discernimento consegue enxergar que antes mesmo das lutas os adversários fazem um teatro, geram falsas discussões, uma rivalidade simulada que aumenta, indiscutivelmente, o lucro obtido com tais lutas.

      E por que criticá-la por vestir a conduta cristã simplesmente porque existe a violência? Você é a favor da passividade? Só porque há violência, não significa que você deve ser um praticante… Seguindo tal pensamento, vai roubar porque se vê cercado de ladrões? E afirmar que é a violência que protege nossas vidas ainda assim não se torna justa razão para que se financie esse circo, pois uma coisa é usar para legítima defesa, outra é por sadismo, meu caro. Todos temos instintos violentos, todos temos instintos egoístas, e que nos faz diferente dos animais é exatamente a racionalidade, é saber que caímos, mas não necessariamente seguirmos a correnteza.

      Dizer que a violência foi essencial na história descrita nas escrituras também não é explicação válida para financiar a violência. Realmente sem a violência o que teria ocorrido com Jesus? A violência teve um papel fundamental, do mesmo jeito que as trevas têm para que valorizemos a luz! Percebe o quão absurdo é seu embasamento? Não falo com hipocrisia, caro, não é afirmar que deve haver censura contra cenas de violência em filmes, às guerras e cenas da história da humanidade, no entanto transformar a violência num esporte, prática dita saudável a qual inspiram os jovens, é ultrapassar os limites da moderação. Prudência, Bruno.

      E, por fim, seu último questionamento, é pobre e demais pretensioso. O que o faz pensar que alguém que é contra esse tipo de esporte tem acesso a menos informação que você? Por que julga que alguém que saiu do Ensino Fundamental, completos o Ensino Médio e o Superior, com Mestrado e Doutorado não encontraria razões precisas para contrariar essa prática de violência? Na realidade, experiência de vida e muito estudo decerto garante muito mais referência que se opõe a essa sua apologia.

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    • O adjetivo CRUEL é classificado, pelos humanistas,como o termo mais extremo
      da maldade, na lingua portuguesa.Você sabe o que significa ? Conhece sua origem Etmológica ? Seus fundamentos Filológicos ? Sua Concepção
      Conceitual
      na Filosofia, na Sociologia, na Antropologia ? Se não conheces, procure saber…
      Resumindo Cruel significa sentir prazer com o sofrimento alheio. Existe coisa mais obscena que isso.Bruno Vc tem filhos ? Pai e Mãe certamente.Gostaria de vê-los sangrante em cima de um Octógono,caído sobre a lona e a torcida delirando.Diga-me Gostaria ?

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  • Concordo. Sinceramente não consigo ver Jesus em uma platéia dessas. É como a violência perdesse seu conceito. Bater é chic desde que seja na televisão. Oh Deus, abre os olhos do teu povo.

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  • O momento sublime é quando o lutador cai ensanguentado na lona….
    O lugar mais caro numa pista de corrida de carros é no final da reta mais rápida, seguida da curva….-Querem ver o piloto sair capotando….
    Em qualquer sinistro de trânsito, todos param e querem ver as vitimas sofrendo….
    O que acontece com nossa Sociedade???
    ACORDA SOCIEDADE!!!

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      • Mais pensando bem se fizerem umas pesquisar vc se sente um pouco alterado ao ver essas lutas ja fui ao estadio uma vez e me senti o matador ao dar socos ao ar deverao fazer uma pesquisa as pessoas que tem mente parecida com a nossa aguardaremos os resultados e nao deveria ser permitido menores de 16-18 nao sei se estou sendo radical mais penso que ja tem esse horario para nao atrir esse tipo de publico mais nao sei se tem evitado!
        Desculpe qualquer incomodo

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  • Como sempre Fabiana você foi direto ao ponto. Texto lúcido e contundente. Estava até agora no twitter postando mensagens no hastag #soucontraufc atendendo o desafio do Pastor Ivan Saraiva feito durante o primeiro dia da Semana Jovem transmitida pela internet e TV Novo Tempo. Estava tentando fazer a pauta da edição deste mês da Revista da Família Adventista e este assunto veio a calhar. Obrigado pela inspiração. Abraços.

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  • Concordo. Me lembro que quando criança, certa noite acordei para ir ao banheiro, e ao ver as luzes da TV ligada, não me contive e fui dar uma espiadinha. Para minha (desagradável) surpresa meu pai estava assistindo Box, um “esporte” visto por muitos naquela época graças ao espancador (dentro e fora do ringue) Michel Tayson.
    Não importa quanto tempo passou e este continua sendo um grande paradigma. Ao mesmo tempo que todos condenam a violência ( Lei Maria da Penha, Projeto de lei contra Palmadas….) ainda se satisfazem com esta mesma violência.
    Como construir uma sociedade pacífica se ainda levamos nossas famílias para ver homens serem estraçalhados por feras nas arenas?

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  • Parabens… Muito bem argumentada… Acredito nos mesmos princpios que vc … É realmente a politica do pão e circo… Pessoas que acham que isso é apenas esporte realmente estao se afastando dos principios biblicos… Pois quando o Rabino chamado Jesus deu a outra face para outra pessoa bater, pra muitos é loucura.. Mas parar e assistir pessoas se batendo por dinheiro… Ahh isso parece louvavel? Olha a insensatez do mundo hj em dia… E o pior, dos cristãos… Nao to julgando.. Mas eh minha opiniao

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