Peregrinos…

Peregrinos…

Claudia é o nome dela e o marido se chama Adrian. São bonitos, bem-sucedidos e criam dois filhos lindos com inteligência e disciplina – regados com muito amor latino. São romenos e eu os conheci quando morei em Santa Felicidade, bairro gastronomicamente italiano de Curitiba. Isto foi em 2006 e de cara achei a Claudia diferente. Ela estava grávida na época e seus traços finos e nobres me chamaram a atenção. Simpáticos, logo nos ligaram, convidaram para jantarzinhos que receberam reciprocamente o agradecimento devido. Nos tornamos amigos. Eu virei admiradora inconteste.

Morávamos num charmoso sobrado alugado, naquele pequeno condomínio de 20 casas iguaizinhas. O do casal romeno era geminado com o nosso e eles simpaticamente nos alertaram quanto ao vazamento de prováveis “ruídos” no dormitório. Entendemos o recado e nos enchemos de prudência. Se bem que nem adiantava. A Claudia tem até hoje ouvidos absolutamente sensíveis, se posso dizer assim. Numa manhã gostosamente rara de sol ela perguntou porque nos levantávamos tão cedo, se só saímos duas horas mais tarde. Hã?

Ela ouvia o estalar do interruptor quando meu marido acendia a luz para estudar a Bíblia e também o ruído da escovação, sinalizando que começava a preparação para sair de casa. Sim, ela ouvia tudo! Talvez pelo final incômodo da gravidez e o início da vida do caçula, que lhe rendia alguma insônia. Não sei ao certo. Meu sono pesado e eu nunca entendemos tamanha disposição auricular. Poucos meses depois eles se mudaram pra Itália, carregando parte da nossa amizade. Numa viagem dessas desviamos a rota e os visitamos em Pescara, litoral italiano onde o Adrian trabalhava agora para uma multinacional.

Economista de formação a Claudia abandonara a carreira pois acreditava que seus filhos deviam ser parecidos com os pais e não o poderiam ser se criados por estranhos. Já falei que ela é ultra-disciplinada? Outra hora conto de como me inspirou quanto à educação de filhos, contudo o que me marcou mesmo foi que tanto na casa de Curitiba, como na da Itália e a de São Paulo – ele voltou ao Brasil por outra empresa – ela mantinha a simplicidade que não condizia com sua condição financeira e status social.

Nada luxuoso ou caro, moveis e acessórios usuais e simples. Por quê?

– Porque me sinto peregrina aqui, Fabi. Não sou destes lugares por onde ando e não vou gastar energia e dinheiro aqui. Um dia volto pra casa e preciso viver aqui com a esperança de que isto vai chegar logo, ainda que não pareça.

Estas palavras ainda ecoam na minha mente ao pensar no quanto gasto aqui na terra e no tanto de vida que deixo aqui com meu tempo, paixões e dinheiro. A casa para onde a Claudia sonha voltar é a Romênia – seu país – e parece um sonho distante por conta do trabalho do marido. Mas minha pátria é perfeitamente tangível. Meu lar é o Céu e já estou quase lá. Aqui eu preciso viver como peregrina que sou, pois meus investimentos devem ser para meu Lar Eterno. Onde coloco toda minha energia determina o lar que quero pra mim e, definitivamente, não é aqui.

5 comments

  • Olá,Fabiana!
    Confesso que fiquei emocionada com esse relato.
    A minha mais profunda vontade é me desprender do TER.Quero que a minha essência e todo resto estejam ligados ao SER.
    Mas como é difícil lidar com isso no no dia a dia,pois hoje o seu sucesso e capacidade está ligada diretamente ao quanto tem.
    Tenho que me policiar todos os dias,não que eu tenha alguma coisa,mas preciso me lembrar que tenho o suficiente e não necessito de mais.

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  • eu preciso exercitar muito o desapego…. gostei da história.
    já te disse q vc escreve m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a-m-e-n-t-e bem? não?
    te digo agora…
    vc escreve m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a-m-e-n-t-e bem…
    um abç!

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  • Bom dia Fabianaaa….

    Amo ler suas historias no blog…. sou definitivamente sua fã…rsrsr…Que Deus continue te abençoando…bju!

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  • Bem escrito …gostei de ler e irei ler outras histórias no seu blog neste próximo fim de semana. Gosto da maneira como termina a sua história …Meu lar é o Céu e já estou quase lá. Aqui eu preciso viver como peregrina que sou, pois meus investimentos devem ser para meu Lar Eterno. Onde coloco toda minha energia determina o lar que quero pra mim e, definitivamente, não é aqui …Que Deus a abençoe Fabiana e se não antes, vamos conhecer-nos no “Novo Lar” 🙂

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