Perigos no trabalho ameaçam o coração

Perigos no trabalho ameaçam o coração

A tortura começa ao acordar. Cristina, 46 anos, vendedora, levanta da cama, querendo voltar a dormir. Sai de casa para trabalhar como se tivesse indo para um campo de batalha dos mais árduos. O problema com o chefe que, a princípio parecia algo banal, se tornou tão insuportável que sua saúde mental e física foi dando reflexos da crise. Não suportou mais. “Chorava constantemente, minha saúde ficou abalada, todo o meu organismo sofreu com o clima do meu trabalho. Fui ao médico e não deu outra”, lembra Cristina, que agora está de licença por problemas arteriais, depressão e alteração na tireóide.

Se você se identificou com a situação dessa profissional – que preferiu ter o nome trocado para manter a privacidade – saiba que não está sozinho no barco. Quem sofre com injustiças no trabalho, atribuídas geralmente ao superior imediato, tem consciência de que todos os aspectos da vida são atingidos pelo iceberg da insatisfação. Tão importante que é, o assunto virou tema de pesquisa no Reino Unido. Uma equipe do Buchinghamshire Chilterns University College, na Grã-Bretanha, separou uma turma de enfermeiras de um hospital para realizar o teste. O que era “senso comum” se comprovou cientificamente: pessoas que se sentem injustiçadas no trabalho sofrem aumento da pressão arterial e são levadas à depressão.blogtrabalho2

No estudo, as enfermeiras foram dividas em dois grupos: um não achava os superiores injustos, o outro pensava bem diferente. Não é difícil entender o que aconteceu. Depois de ter a pressão medida a cada 30 minutos por doze horas durante três dias de trabalho, foi constatado um aumento médio de 15 milímetros na coluna de mercúrio na sístole e de sete milímetros na diástole. Os especialistas garantem que um aumento de dez milímetros e cinco milímetros na sístole e na diástole, respectivamente, é o suficiente para garantir indesejáveis 16% de risco para as coronárias e assustadores 38% na probabilidade de um derrame.

O cardiologista Walter da Luz explica que “as tais sístoles e diástoles são populares. Quando você diz que a pressão está 12/8 quer dizer que está com sístole 12 e diástole 8”. O médico acrescenta que esse aumento registrado no estudo é preocupante, ainda mais por existirem tantas pessoas insatisfeitas com seus superiores. “Os casos são muitos e as consultas na clínica e as emergências dos hospitais mostram que os chefes deveriam prestar mais atenção à postura no trabalho, com seus funcionários. Já estamos vivendo uma crise cardíaca por isso”, adverte o cardiologista.

Não é para menos. Muitos funcionários vão guardando a mágoa, a raiva e a sensação de desagrado. “No fundo, eu não tenho ódio do chefe, da pessoa em si, mas das atitudes que ele toma. Como trabalho com vendas e no mesmo setor trabalha a mulher dele, era difícil agüentar que ela recebesse mais privilégios que os outros. Essa injustiça me adoentou”, indigna-se Cristina. Ela acredita que teve parte da culpa por não tomar uma decisão antes, mas pondera que “se falo, corro o risco de ser demitida, se não falo, minha saúde fica comprometida. Deveria ter pensado mais na minha saúde e em minha família, que sofreu junto”.

 

Trabalho chato

Trabalhos chatos também são prejudiciais à saúdeO cardiologista e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc), em Florianópolis, Renato Maciel, adverte para o fato de que o coração pode ser vítima também quando a trama gira em torno de um trabalho chato, mesmo que haja bom relacionamento com o chefe. Quem tem um ofício considerado maçante e não tem qualquer prazer na atividade corre riscos muito grandes de sofrer um ataque cardíaco. Não é o caso de pedir indenização ou auxílio insalubridade pela chatice, como podem se antecipar alguns, mas prestar mais atenção aos sinais.

Para tentar qualificar a situação a Fundação Britânica do Coração pesquisou mais de dois mil servidores públicos. E o estudo comprovou: trabalho chato está intimamente ligado ao batimento cardíaco mais alto e com menor variação. “O coração de uma pessoa normal deve bater de 60 a 100 vezes por minuto, mais que isso e sem variação, ou seja, constantemente, aumenta os riscos de um ataque fulminante”, ensina Maciel. A variação do batimento cardíaco demonstra a capacidade do organismo em se adaptar nas diferentes situações, ao correr, ler e comer, por exemplo. Se a variação é baixa, como mostrou o estudo, as pessoas ficam mais sujeitas a um ataque súbito.

Além do trabalho chato, baixa remuneração e pouca escolaridade estão associados ao resultado. O que os responsáveis por essa pesquisa européia salientam é a relação da depressão, mesmo que escondida, com essa condição cardíaca de risco. A taquicardia, embora bastante comum, é também responsável por grande parte dos óbitos. Para o cardiologista Walter da Luz a pesquisa britânica confirma o que já notava, há anos, como médico da Assembléia Legislativa de Santa Catarina e afirma que a ambição por subir de cargo ou ser reconhecido são fatores inclusivos no grupo de inimigos do coração. “Quando chegam ao trabalho todos têm a saúde ótima. Contudo, ao passar de cinco anos a pressão arterial está bem mais alta e muitos confessam ficar deprimidos com freqüência”, exemplifica.

Virando o jogo

Para quem costuma dizer que “separa bem” o trabalho da vida pessoal e da saúde, fica o alerta: Funcionários devem prestar mais atenção aos sinais do corpo antes que seja tarde. Se não dá para trocar de trabalho ou de chefe, tente olhar com mais positivismo os obstáculos do dia-a-dia. Os pessimistas baterão o pé que não, mas é só procurar que sempre tem algo de bom em toda situação e em toda pessoa. Parar um tempinho durante o expediente para alongar o corpo e convidar o superior para a atividade – por que não?! – pode ser uma alternativa de brecar o mau-humor.blogtrabalho3

Já para os que estão no outro lado da balança, os chefes, é interessante pensar mais de duas vezes antes de soltar um comentário maldoso e desestimulador para o funcionário. Além, é claro, de pedir mais a opinião dos subalternos. Talvez seja desconfortável a princípio, “mas ser humilde, elogiar e motivar quem depende de suas ordens rende muito mais que cobrar, fiscalizar ostensivamente e repreender por qualquer falha. Os patrões podem testar que vão comprovar a produtividade e o ambiente de trabalho melhorarem”, garante Luz.

O psicólogo Narbal Silva, professor na Universidade Federal de Santa Catarina, chama a atenção para o fato de que funcionários têm uma parte muito importante na hora de transformar a situação. Quem se sente injustiçado, por exemplo, “deve parar e pensar se é injusto mesmo o ato ou se de sua perspectiva parece errado. Não se pode julgar alguém, o chefe, por exemplo, por uma atitude que você tomaria diferente, mas que o certo ou errado depende da consciência de cada um e não de um consenso”, arrazoa Silva. Não é demais lembrar que reclamar do superior para outras pessoas, naquele tom de crítica e fofoca, não adianta muita coisa. “O ambiente de trabalho se torna mais insuportável e não se resolve o problema. Melhor é tomar uma decisão e falar com o superior do chefe imediato e reportar o problema. Apesar do medo, geralmente é a solução”, recomenda o especialista.

É claro que olhando de fora, alguém tem sempre uma alternativa. Parece até fácil demais. Às vezes é mesmo. Para quem está nas situações mencionadas vale uma auto-análise:

* Será que não é pura e simples implicância da minha parte? Não estou fazendo uma tempestade em copo d’água?

* A situação é humanamente insuportável ou eu estou sendo inflexível e fechado a novas perspectivas?

* O trabalho é enfadonho mesmo, mas será que não tem nada mais para eu fazer que o torne mais agradável?

* Os defeitos que encontro nos outros, não são as minhas próprias falhas?

* Eu realmente vivo num campo de batalha ou minhas reclamações é que criaram o efeito bélico?

* Se eu tomar uma atitude mais otimista frente aos problemas, não seria melhor?

            Não é o caso de ser simplista, mas pequenas ações partidas de quem se sente vítima, pode transformá-la numa pessoa vencedora frente aos problemas e até ajudar outros ao redor. Se nada funcionar, o psicólogo é enfático: “mude de trabalho ou de profissão. Ficar num constante martírio é que não dá”.

Atitudes campeãs no ambiente de trabalho

 

Se o chefe é injusto

Trate seus colegas ou subordinados com educação e justiça, o exemplo pode tocar seu chefe;

 

Não revide às ordens, espere passar a raiva e o calor da emoção para dialogar e expor o seu ponto de vista;

 

Responda com trabalho de qualidade às injustiças. Tem sempre alguém vendo e mesmo que não haja, você terá a consciência tranqüila de que fez o melhor que pôde.

 

Quando sentir que foi injustiçado, pare e pense se você tem mesmo toda a razão que pensa ter. Ser sincero consigo mesmo ajudar a não colocar a culpa nos outros.

 

 

Se o trabalho é chato

 

Em muitas atividades enfadonhas é possível ter tempo livre para uma leitura. Se for o seu caso, gaste o tempo aprendendo.

 

Perceba ao redor se não tem mais nada que possa fazer. Agregue valor à sua presença no local. Não é porque foi pago para ser vigilante que não pode ajeitar a sala ou limpar o ambiente onde está.

 

Faça o melhor que puder no seu trabalho e mostre que tem conhecimento e vontade de subir de posto.

 

Não reclame para amigos e colegas de trabalho. Por pior que seja, tem sempre alguém querendo seu lugar.

 

Em último caso…

 

Peça demissão e procure algo com que vá se realizar. Não adianta ficar reclamando e não fazer nada para mudar.

 

 

 

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