Shayenne

Shayenne

Foto: Sebastião Salgado

Estava no Morro do Alemão, esperando para falar com uma pessoa na biblioteca desativada para virar abrigo, por conta das chuvas que deixaram 78 famílias sem suas casas, ou arremedos de casas. Várias mulheres, homens e crianças se acumulavam nos corredores, meio sem rumo, estampando uma face perdida e desolada, mas curiosamente conformada. Gente que aprendeu a depender de solidariedade e não esperar isto do governo, pois governantes não são solidários.

De esgueio vi o moço da limpeza enxotar a pequena franzina, depois de suas mãozinhas miúdas receberem os biscoitos de maizena. Contei 6. Um ela colocou na boca e os outros acomodou como pôde, enquanto apressou o passo para ficar longe do moço que a repelia como a gente faz com cachorro de rua que vem cheirar. Andou e parou a um metro de mim. Parou e chorou. Chorou e se calou, que era para não atrapalhar mais ninguém como quem toma consciência de que sua figura não é bem recebida em todos os lugares e se dá conta de que seus cabelos revoltos, suas roupas desgrenhadas e pés descalços não são atrativos. Foi uma dor de rejeição que também senti.

Engoli meu choro e fui consolar o seu, o dela, que também era um pouco meu. Perguntei porque chorava, embora soubesse. Ela não respondeu e abaixou a cabeça, olhando para os dedos dos pés com unhas sujas e há muito sem cortar. Apertou suas bolachas contra o peito e me olhou como se tivesse um óculos e por cima deles observasse. Seus cabelos tampavam parte do rosto sujo e molhado de lágrimas insistentes. Perguntei a idade. Ela apontou com os dedos. Tinha quatro anos. Quatro aninhos, eu diria. Então sussurrou seu nome que, imagino, se escreva Shayenne. É de fora, a mãe deve ter visto na novela e nomeou a filha, só não estava por perto para consolar seu choro.

Perguntei da mãe e ela não sabia, perguntei do pai e ela me olhou. “não tenho pai”, afirmou com olhos expressivos de quem repete esta verdade desde que aprendeu a falar e não entende como ainda eu não sabia o óbvio: ela não tem pai, nunca teve. Embarguei de novo. Ando frouxa. Perguntei para umas mulheres e elas conheciam a pequena e sua mãe, que estava trabalhando fora do morro e a pequena ficava ali, recolhendo migalhas de pão enquanto desejava um pouco mais de atenção. Depois de me contar do pai, foi embora. Acho que não gostou da pergunta, da lembrança da ausência e eu ali fiquei, esperando minha vez.

Eu queria contar para  pequena Shayenne que ela estava equivocada, todos temos Pai. Mas nem todos sabem… Preciso voltar no Alemão.

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