Suicídio qualificado

Minha avó está com câncer. Descobrimos há pouco mais de quatro meses e, como é de se esperar diante do pessimismo médico, os filhos já estão velando a mãe, antes mesmo de ela morrer. O tumor é um tipo severo que tomou o pâncreas, esôfago e estômago. Ela não pode comer e uma sonda faz a vez de nutrir seu já debilitado organismo que mal compõe 40 kg. Aos prantos, minha mãe relatava ao telefone que o médico se dizia assustado com a rapidez com que as células cancerígenas se multiplicam – dispenso tamanha sinceridade e espanto do tal profissional. Quimioterapia foi sumariamente descartada.

Sabe aquela história de esperar para morrer? É assim que minha vovozinha vive. Para uma ativa senhora de 73 anos que passou a maior parte da vida trabalhando na roça, esta era a doença da qual nem queria ouvir falar, todavia, não fez o que lhe cabia para isso. Perdoem-me os mais sentimentais, contudo, verdade seja dita: na área da saúde, colhemos o que plantamos. “Ah, mas ela sempre viveu no campo, sem poluição ou agrotóxicos”, bradam uns tios. E tem opinião pra tudo, já que são 11 os irmãos.

Vendo o desespero deles e a resignação com o inevitável que parece ter minado a fé dos que, no início, rogavam a Deus por cura, pensei na hipocrisia de rejeitar orientações divinas e depois clamar por reparação. Não que Deus tenha minha teimosia e temperamento obstinado em retrucar, mas convenhamos ser no mínimo blasfemo rejeitar tudo que Ele oferece de recursos e informações para mantermos a saúde para depois manifestar descontentamento com o fecho da história. Uma das tias, diga-se de passagem, já afirmou que não acredita mais em Deus por não ter ouvido “sim” como resposta.

Fatos: minha avozinha querida nunca manteve hábitos saudáveis à mesa, abusando de frituras, farinhas refinadas, açúcar, abstinência de frutas frescas e deleitando-se em animais mortos – sem ofensas. Acalentou sentimentos de amargura e ranço contra alguns que a empertigavam, como muitos de nós que tomam veneno esperando o outro morrer. Suas horas de sono eram sacrificadas em benefícios de labutas domésticas que sempre poderiam ser feitas noutra ocasião, mas que em sua própria visão jamais podiam ser adiadas.

Não é necessário morar na cidade, em meio à poluição e estresse do trabalho moderno, para cultivar tumores. Para os que se alvoroçam em afirmar que até pessoas saudáveis têm câncer, vale lembrar que a carga genética tem sua influência, sim, mas que os hábitos podem atrasar a chegada do intruso agressor e até a morte pode chegar antes que ele se manifeste. Ninguém está a salvo de doenças no mundo em que vivemos. Mas a súbita notícia da eminente prostração de minha avó materna me fez pensar que cedo ou tarde, para alguns organismos mais rápido que pra outros, colheremos o que plantamos na saúde.


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