Um Deus que não escandaliza

Um Deus que não escandaliza

Todos já ouviram a história do milagre da moeda na boca do peixe e pra ser bem sincera, nunca prestei muita atenção a este que parecia um “milagre menor”. Até que ouvi o pastor Ranieri Sales, da Igreja do Unasp, pregar sobre o assunto. Fiquei pensativa e escrevi este artigo, baseada no sermão dele que agora compartilho com vocês.

Mateus 17:24-27

E, chegando eles a Cafarnaum, aproximaram-se de Pedro os que cobravam as dracmas, e disseram: O vosso mestre não paga as dracmas? Disse ele: Sim. E, entrando em casa, Jesus se lhe antecipou, dizendo: Que te parece, Simão? De quem cobram os reis da terra os tributos, ou o censo? Dos seus filhos, ou dos alheios? Disse-lhe Pedro: Dos alheios. Disse-lhe Jesus: Logo, estão livres os filhos. Mas, para que os não escandalizemos, vai ao mar, lança o anzol, tira o primeiro peixe que subir, e abrindo-lhe a boca, encontrarás um estáter; toma-o, e dá-o por mim e por ti.”

Alguns estudiosos concordam que é uma das passagens de maior dificuldade de compreensão e é um dos 3 milagres registrados apenas por Mateus, dos 35 descritos nos evangelhos. Os outros dois que só ele registra são o da cura dos dois cegos e do mudo endemoniado (capítulo 9). Cafarnaum era um ponto de parada, lugar frequente na narrativa bíblica. Se pudéssemos dizer que Jesus tinha um endereço, certamente seria a casa de Pedro, em Cafarnaum. É curioso que muitos milagres falem de Pedro, no total oito o envolvem de alguma forma e 5 se relacionam diretamente com ele como: a cura da sua sogra, a pesca maravilhosa, o dia em que andou sobre o mar, a cura da orelha de Malco – que ele tinha cortado – e a liberdade miraculosa da prisão registrada em Atos 12. Embora não se saiba quantos milagres exatamente foram operados por Cristo, nota-se que a eleição dos 35 dispostos nas escrituras são para uma lição importante.

Olhando de perto para este milagre, algumas singularidades saltam à vista como:

– O fato de que este só aparece em Mateus e pode ter sido por um interesse especial e particular dele, já que era coletor de impostos antes de seguir a cristo.
– É o único que Jesus opera e o próprio Jesus é beneficiado pelo milagre: “paga por mim e por ti”. Sabe-se que Ele nunca usou Seu poder divino em benefício próprio, sempre para os outros. Ele estava preocupado com o “escândalo” dos outros.
– É o único milagre envolvendo dinheiro, talvez mais uma razão pela qual Mateus se interessou por esta história.
– Único milagre envolvendo um único peixe de um total de cinco milagres envolvendo peixes.
– Nos evangelhos é a única pesca envolvendo anzol. O que é curioso, pois os discípulos eram profissionais da pesca e usavam redes.
– É o único em que o milagre em si não é contado (verso 27). Se pudesse adicionar o verso 28 ou 29 seria algo como: “Então Pedro tomando sua vara de pescar foi para o mar e lançou o anzol e ao retirar o peixe abriu sua boca e retirou a moeda”
Talvez Mateus não precisasse contar o milagre, pois para Cristo falar e fazer são a mesma coisa.

Significado do milagre

Os cobradores de impostos descritos aqui não são os publicanos, como era Mateus, que recolhiam para o governo romano. Estas duas dracmas são referentes aos serviços do templo devido por todo homem acima de 20 anos e equivalia a um dia de trabalho de um camponês. O que ressalta a extrema pobreza em que vivia Jesus, pois ele não tinha à sua disposição esta quantidade, se tivesse, não teria operado o milagre. Não se pode ver em nenhum dos evangelhos Jesus lidando pessoalmente com o dinheiro.

Não existia uma moeda no valor específico de duas dracmas, era comum então dois homens se juntarem e darem um estáter que era o equivalente a 4 moedas. A resposta o coletor é retórica, do tipo “Seu mestre paga o imposto do templo, não paga?” Ele não queria o risco de falarem mal de Jesus pro ali, de que não honrava seus compromissos e ao ser consultado Pedro de pronto respondeu, sem nem consultar Jesus. Queria proteger Jesus, mas o Mestre não precisava de proteção.

No verso 25 Pedro entra em casa e vai conversar com Jesus que já antecipou a pergunta com a questão: “Disse ele: Sim. E, entrando em casa, Jesus se lhe antecipou, dizendo: Que te parece, Simão? De quem cobram os reis da terra os tributos, ou o censo? Dos seus filhos, ou dos alheios?”

É interessante pensar que este capítulo da Bíblia começa falando da divindade e termina com a humanidade de Cristo. Começa na transfiguração e termina com pagamento de impostos, a mais cotidiana das ações civis humanas. O curioso é que levitas, sacerdotes e profetas não pagavam esta taxa e Jesus era mestre, com discípulos e considerado o profeta dos profetas. Ele sabia que não precisava, ainda mais sendo o Filho de Deus. Se havia um imposto que não devia pagar era este! O templo, os serviços, as cerimônias, tudo nele apontava para Jesus. Ele era o objetivo do templo.

Pagar o imposto significaria que não era profeta. Não pagar era deslealdade ao Templo e aos seus serviços e Jesus paga como pagou. O dilema acaba, pois mostra lealdade ao templo, mas Sua divindade para operar milagres.

Onde está o milagre na história? A moeda na boca do peixe não é exatamente algo extraordinário, já que até agora é possível encontrar este animal com coisas cintilantes na boca, pelas quais são atraídas. Pedro poderia pegar exatamente este peixe? O primeiro peixe a ser fisgado, ser a quantia exata do imposto? O milagre está na conjunção destes fatores. Tudo junto é o completo controle sobre a natureza mostrada por Cristo.

Lições do milagre

Deus tem o controle sobre todas as circunstâncias da vida, nada que nos acontece foge ao controle do Pai. Ainda que as coisas pareçam difíceis ou fora do nosso controle, Ele tem as formas mais inesperadas para solucionar as coisas e é confortável crer.

A postura de Jesus dá uma lição secundária referente ao compromisso civil, ainda que isento desta taxa (capítulo 22 Ele diz dai a César o que é de César). Ensina o respeito às instituições e o compromisso com a vida religiosa. Não deixe-se seduzir pela argumentação diabólica de que o uso que fazem do dinheiro seja governo ou igreja é que vai definir se é fiel ou não às suas obrigações. Ele mesmo chamou os líderes de salteadores, mas pagou o imposto.

O milagre de Deus não dispensa o esforço humano, embora a conjunção de fatores fosse milagrosa, Pedro teve que ir pescar. Quer milagre? Peça e busque, mas vá para o mar pescar. Deus fez o que Pedro não podia fazer, mas só isto. O que Pedro podia, teve que fazer.

A nossa vida sempre deve ser uma benção para outras pessoas, ainda que nossos direitos sejam prejudicados. Jesus tinha o direito de não pagar esta taxa por ser rabi, profeta e filho de Deus. A pergunta a Pedro era auto-respondida, entretanto no verso 27 ele diz: “mas para não escandalizarmos”. Ou seja, algo que poderia atrapalhar a pregação do evangelho. Então, ele abre mão dos seus direitos para não prejudicar outras pessoas. E tem muito cristão com esta mania de “faço o que é certo e não me arrependo”.

Pra pensar…

Buscamos nossos interesses e não nos importamos com o que os outros pensam e como nossa vida vai influenciar a vida de outras pessoas. Pense em seus modos, vestimentas e diversão ao lembrar do exemplo que Cristo deu. Pense se sua influência é para a salvação, pois sua vida deve servir para abençoar outras pessoas. Comida e bebida podem servir para isto, não escandalizando. Sua vida deve provocar interesse que atraia para Cristo, ainda que envolva perder nossos direitos. Em 1 coríntios 9:12 lemos a admoestação de Paulo que abriu mão de tantos privilégios que eram por direito seu por entender que a vida cristã tem como objetivo abençoar os outros “Se outros participam deste poder sobre vós, por que não, e mais justamente, nós? Mas nós não usamos deste direito; antes suportamos tudo, para não pormos impedimento algum ao evangelho de Cristo”. É o que diz o apóstolo. Em 1 Coríntios 10 23-33 lemos quase um sermão sobre não escandalizar os outros, sobre cuidar de nossa postura e nossas ações. A lição foi forte para Pedro que mais tarde escreveu em 1 Pedro 2:13-15: 

“Por causa do Senhor, sujeitem-se a toda autoridade constituída entre os homens; seja ao rei, como autoridade suprema, seja aos governantes, como por ele enviados para punir os que praticam o mal e honrar os que praticam o bem. Pois é da vontade de Deus que, praticando o bem, vocês silenciem a ignorância dos insensatos.”

E para nós, como é? A quem você está devendo imposto? Talvez no seu relacionamento? As coisas estão ruins e você sabe que está com a razão, mas não seria o caso de pedir perdão e pagar o imposto, ainda que não deva? Se Cristo que é Senhor dos senhores nos deixou esta lição de humildade, por que não seguir?

13 comments

  • Fabi, bom dia!

    Te mandei uma mensagem pelo site alguns dias atras. Ela chegará na sua caixa de mensagens mesmo? Gostaria de obter uma resposta, por favor! Seria sobre um dos ultimos posts no facebook.

    Obrigada, Deus te abençoe!

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  • Esses textos de governos e impostos foram retirados das Bíblias de boa parte dos empresários e profissionais liberais adventistas. Eles sempre têm umas desculpinhas: “eu não vou dar dinheiro pra corruptos”, ” eu não preciso do Governo”, ” se for para dar para o Governo, eu ajudo alguém”.
    Primeiro, o fato o dinheiro dos impostos não é do Governo, é do povo, é do próximo, então vc está furtando o seu próximo. Todos, mais cedo ou mais tarde precisam de algum serviço público. Então além de vc estar furtando seu próximo, ainda tem sido um peso para ele, porque não paga impostos e ainda usa os serviços que outros pagaram. E por fim, existe um mandamento: “não furtarás”.

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  • Muito edificante o texto. Me fez lembrar de várias atitudes minhas que não condizem com um bom testemunho. Graças a Deus ainda temos tempo de nos ajustarmos aos moldes de Cristo.

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  • Oi Fabi!
    A parte que mais me tocou neste post foi: “A nossa vida sempre deve ser uma benção para outras pessoas, ainda que nossos direitos sejam prejudicados.” Nossa jornada nessa mundo é tão difícil, pois temos que ser puros onde habita a impureza, luz, onde habitam as trevas…Na nossa humanindade, é tão difícil ter que deixar de lado nossas vontades, nossa razão em benefício do outro…principalmente quando somos as vítimas da situção…Mas, como você bem afirmou, Jesus, que foi a “pessoa” mais justa que habitou nessa terra deixou esse exemplo…que somos nós para não seguir esses passos?
    Que Deus continue usando a sua vida abençoar muitas outras vidas. Beijinhos!

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  • Aprender de Cristo é muito bom, na verdade é mais que isso,é indispensável,e eu vejo amor de Deus nas exortações. Deus falou muito ao meu coração.
    Que Deus continue abençoando sua vida,porque suas palavras sempre me edificam.
    Beijos te gosto muitooooooooo.

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  • Fabi,
    Tem uma coisa também nessa passagem, que você não colocou mas que, creio eu, vale ressaltar também. O fato de Jesus não precisar pagar imposto não era penas por ser um profeta/sacerdote/levita, mas também porque Ele era da linhagem de Davi. Uma das recompensas de Saul ao matar o gigante Golias, era a isenção de impostos por toda sua linhagem, e Jesus era do ramo de Davi. Isso implica que Jesus pagou algo que não devia e nem deveria, porém Ele pagou assim mim. Logo esse milagre é uma sombra da sua crucificação!

    Att

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