Uma história de família

Uma história de família

(esta reportagem foi feita há quase três anos pelo aluno de jornalismo Daniel Moreno, para um projeto do curso. Ele me enviou e resolvi publicar hoje, em comemoração aos meus 10 anos de formatura)

Fabiana Bertotti acordou bem humorada. No início da manhã, enquanto não está viajando a trabalho, leva seu marido, Rodrigo, até o serviço dele. No carro da família, um Renault Sandero Stepway cinza, me dá uma carona desde a alameda de entrada do Unasp de Engenheiro Coelho até seu escritório, no interior da sua casa. Na porta de entrada da residência, que separa a garagem dos cômodos, há uma plaquinha pendurada com o desenho de um casal, na qual está escrito: FAMÍLIA BERTOTTI. Chegando ao escritório, ela me oferece a melhor cadeira, quase uma poltrona, preta e de couro, e se senta em uma cadeira mais simples, mas talvez almofadada, com a justificativa: “Essa daqui é melhor para minha coluna”, argumenta, com uma gargalhada.

O escritório tem uma mesa grande no centro, onde fica seu computador, microfone e acessórios de trabalho. “Aqui é meu cantinho. A minha bagunça organizada. É talvez a parte da casa que eu mais gosto”, aponta Fabiana. Quem senta no lado do visitante da escrivaninha fica deslumbrado com a quantidade de livros que ela e seu marido têm na estante. São tantos que não é possível contar, demonstrando o interesse da família pela leitura. Nas estantes (sim, são mais de uma) há livros para todos os gostos. Literaturas religiosas, de cultura brasileira, de poemas, biografias, livros de comportamento, obras históricas, livros de história de pessoas reais e de ficção. Mas uma de suas paixões é a leitura de livros de investigação criminal, os quais ela diz ser seu vício oculto, com cara de quem está aprontando. “Sou muito curiosa e, por isso, gosto muito de tudo que tenha investigação policial”, confessa. “Mas gosto mais de ler biografias, porque acho que todo mundo tem uma vida para mostrar e ensinar alguma coisa pra gente”, comenta. A última que leu foi da Clarice Linspector, escrita por Benjamin Moser. “Chorei muito lendo. Acho que a gente aprenderia muito mais se prestasse atenção na vida das pessoas. O que elas fizeram, o que erraram, o que acertaram, e, o mais importante, porque fizeram”, afirma.

“Acho que hoje as pessoas leem muito pouco na faculdade. Lembro que eu tinha gana de ler.”, relembra. “Gosto de investigar gente comum, conhecer pessoas e contar a história dessas pessoas. É minha grande paixão”, relata, ao dizer que pensa escrever um livro desse gênero. A jornalista também gosta muito de escritores internacionais, como Gay Talese, e nacionais. “Sou muito fã do Laurentino Gomes”, conta. Logo que citou Laurentino Gomes, contou que ele mora em Itu (SP), na mesma cidade onde os pais dela moram. Uma vez conseguiu o número de celular dele e ligou pra ele, perguntando se o jornalista e escritor poderia autografar os livros de autoria dele que ela tinha comprado e lido. “Foi muito engraçado. Eu disse que não era maluca e nem fanática, e que aquilo era muito esquisito, mas eu queria muito que ele autografasse os livros que tinha comprado”, conta. Então ele perguntou se ela poderia ir a casa dele, mas como é muito retirada da cidade, Fabiana perguntou se ele não iria passar no centro, já que ela estava por ali. O escritor então disse que precisava passar no banco para retirar dinheiro e, então, eles se encontrariam lá. Isso na véspera de natal. “Ele autografou os meus livros e tirei até foto com ele, numa agência bancária. Minha irmã estava comigo e quase morreu de vergonha”, lembra aos risos. “Ele é muito engraçado, querido e atencioso. Aquilo foi tão legal que, hoje, eu tento atender todos os meus leitores com muito carinho. Ele deu uma grande lição de humildade pra mim”, destaca.

Quem a conhece apenas pela televisão a vê como uma pessoa séria, imagem passada devido às suas aparições em programas televisivos, seja como apresentadora ou repórter. Mas quem a conhece pessoalmente se surpreende. “As pessoas se impressionam quando faço congresso, porque brinco e faço piada, mas faço como Fabiana mesmo, né. Acredito que a risada faz tudo ficar mais fácil de engolir. E dou risada sozinha também nos congressos, porque adoro fazer piadas que deixam o povo constrangido”, conta, sorrindo. “As pessoas vivem me dizendo que me acham séria na TV. Acho que é por causa dos meus olhos arregalados”, comenta. Uma das profissionais mais reconhecidas do meio Adventista, a jornalista Fabiana Bertotti é baiana, mas tem um diferenciado sotaque gaúcho, conquistado depois de casar com o catarinense Rodrigo Bertotti e viver por oito anos no sul do Brasil. Na verdade, morou um pouquinho em cada lugar, e agora se muda novamente. Desta vez, para o Rio de Janeiro.

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Formatura em dezembro de 2004

Fabiana se formou no Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), campus Engenheiro Coelho, no ano de 2004, com 21 anos. Ela fez parte da segunda turma de Jornalismo da instituição. Sua formatura aconteceu uma semana depois do seu casamento. “Minha lua de mel foi bem corrida. Mas eu sou assim, adoro viver a mil por hora”, conta. “Sou bem apressadinha”, solta. E dá mais uma gargalhada, jogando o corpo para trás e encostando-o na cadeira. Com o seu Macbook aberto em cima da mesa e um iPad do lado, se faz presente em dois mundos, o real e o virtual, com a justificativa de que tem que estar ligada em tudo por causa do trabalho. Contudo, Fabi, como é chamada pelas pessoas mais próximas, gosta de enfatizar que seu trabalho é apenas um hobby e o faz nas horas vagas. “O que está em primeiro lugar é a minha família. Em horário integral, eu sou a mulher do Rodrigo. E essa é minha principal atividade. Sou a jornalista Fabiana Bertotti nos momentos livres. Sou bem família mesmo”, afirma.

Praticamente todo o seu histórico de trabalho foi um acidente de percurso, algo que não havia planejado como ela mesma diz. Logo que saiu da faculdade, após sua formatura, foi para Santa Catarina. Seu marido estava trabalhando como pastor auxiliar de publicações na capital do Estado, Florianópolis. “Assim que eu cheguei lá me chamaram para trabalhar na rádio Novo Tempo da cidade. E me contrataram rapidinho porque estavam precisando de alguém para fazer as horas de jornalismo na programação da rádio”, lembra. “E eu tenho um carinho muito grande por aquela cidade, porque lá foi o meu início. O início de tudo sabe? Aprendi muito no período que fiquei lá”, argumenta. No entanto, sua história de trabalho em ‘Floripa’ estava só começando. Na capital de Santa Catarina ela também foi uma das quatro selecionadas entre um grupo de 110 candidatos para trabalhar no Diário Catarinense, jornal impresso de maior circulação no estado, pertencente ao Grupo RBS, rede de comunicação que abrange os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. “A única infelicidade foi ter que largar o DC, que era o meu sonho de consumo, pois sempre quis trabalhar com impresso”, lamenta. “Essa foi a parte que mais me doeu. E se tem alguma coisa que eu digo que perdi por causa do ministério foi isso, porque eu queria muito trabalhar com impresso. Mas por questões muito maiores precisei largar”, realça, com um triste olhar, mas com a certeza de que fez a escolha correta.

Certa vez, naquela mesma cidade, soube de uma vaga de emprego na emissora do SBT em Florianópolis. Porém, o SBT precisava de uma repórter para televisão. Como não era a sua praia, resolveu ir à emissora e levar seu currículo apenas para desencargo de consciência, sem esperança alguma. “Fui só para ver no que ia dar”, confirma. Devido ao calor da cidade, Fabiana foi levar seu currículo, vestida com uma regata, calça jeans e um chinelo. “Assim que saí de lá e estava indo embora, descendo o morro da rua, me ligaram e pediram para eu subir correndo lá e fazer um teste que eles tiveram interesse em me contratar”, menciona. “E fui contratada”, conta, ainda sem acreditar completamente. “Mas confesso pra ti que a minha maior dificuldade em trabalhar na televisão era me arrumar. Ter todo aquele ritual de preparação com a imagem. Porque eu não ligo muito pra isso. Gosto mesmo é de andar assim como estou agora”, constata, apontando para a roupa que estava vestindo no momento, uma calça jeans, chinelo de dedo e uma blusa cor de rosa. Ao falar do chinelo, fez questão de mostrar o pé por baixo da sua escrivaninha, enfatizando que gosta mesmo é de andar confortável.

Durante sua estadia no SBT, Fabiana desempenhou várias funções. Fazia reportagens de cunho jornalístico, foi garota do tempo (momento que ela lembra com risadas), apresentou programas da emissora e, por algumas vezes, o jornal principal. Segundo seus relatos, acompanhados por diversas gesticulações com as mãos, quando chegou ao auge do seu trabalho dentro daquela emissora foi chamada para ser a âncora oficial do jornal principal. No entanto, a histeria de chegar ao posto durou apenas uma semana, porque seu marido recebeu um chamado para trabalhar no Paraná. “Era mais uma coisa de ego conseguir chegar lá”, aponta, se referindo ao posto de âncora. “Só posso dizer que aquele foi um dos momentos mais difíceis da minha carreira, ter que escolher me mudar com o meu marido ou ficar no trabalho. Mas como eu o amo e minha vida é mais que um trabalho, me mudei pra Curitiba junto com ele e abandonei o emprego”, admite. Seu chefe não acreditava e não entendia a situação, e fez várias propostas para que ela ficasse. “Mesmo assim abandonei aquilo. Na hora foi uma escolha inconsciente, mas muito prudente. Naquele momento que comecei a entender que a profissão não era minha vida”, salienta com um sorriso no rosto e pensamentos longe, como se lembrasse da cena naquele instante. Então, em 2006, após os dois anos de trabalho em Florianópolis, a família Bertotti se muda para Curitiba.

Chegando em Curitiba foi convidada para trabalhar no Grupo RIC – Rede Independência de Comunicação – indicada pelo seu antigo chefe do SBT de Florianópolis, Marcelo Campanholo. No entanto, como agora sabia mais do que ninguém que seria difícil ficar trabalhando em um único jornal local por causa do ministério do seu marido, recusou a oferta e fez a escolha de, a partir daquele momento, trabalhar só para a igreja. Foi aí que ingressou de vez na rede de comunicação da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Daquela ocasião em diante começou a fazer parte do time da Associação Sul Paranaense da IASD e da Novo Tempo.

Quando ouviu a pergunta sobre o NT Repórter, programa de reportagens que produziu durante um ano com mais três pessoas, seus olhos brilharam como se uma mãe encontrasse seu filho após vários dias longe. E ela se lembra com orgulho de ter feito parte desse programa. Cada episódio que ia ao ar tinha um total de 30 minutos e demoravam cerca de dez dias para ser produzido. Esse emprego no NT Repórter permitiu que ela viajasse para vários lugares do Brasil e do mundo para fazer reportagens como, por exemplo, a que fez em Loma Linda, nos Estados Unidos, ou sobre o povo Amish. “Eu amo viajar e adoro cidades históricas. Na verdade é porque gosto de história mesmo”, revela Fabiana, acrescentando que gosta de visitar os grandes centros que se renovaram sem se perder, como a cidade de São Paulo, Londres e Nova Iorque. “Sempre nas férias vou com meu marido para algum lugar que tem muita história. Essas cidades não param. E eu gosto de parar no meio da multidão e ficar observando tudo. Pareço uma louca. É incrível pensar quanta vida acontece por ali”, destaca, sonhando acordada. Toda vez que viaja traz alguma coisa de onde foi. Qualquer pessoa que visite sua casa tem essa noção logo que anda pelo interior da residência. Há objetos de outros países pendurados na parede do escritório, cerca de 25 a 30. Eles também se espalham pela sala de estar, em cima da pequena estante que está encostada na parede. E Fabiana mostra todos os objetos com prazer. E enquanto mostrava, voltando ao escritório, cantarolou “Tcham, tcham ram ram”, se mostrando confortável, sem vergonha alguma e animada em mostrar as peças das suas viagens.

Porém, após um ano no programa, Fabiana saiu da equipe para se dedicar ao trabalho na Associação. Hoje, ela é funcionária da União Sul e está produzindo um vídeo documentário sobre a chegada do Adventismo no Brasil. Também é colaboradora especial da revista Vida e Saúde. “Amo a Vida e Saúde porque é o mais próximo de trabalho impresso que faço. E tenho liberdade pra escolher minhas pautas”, afirma. Também tenho uns projetos futuros, mas prefiro deixar em off ainda”, conta com um ar de mistério e olhos entre abertos.

“Quando saí da faculdade achava que o trabalho era minha vida. Que o jornalismo fosse a minha vida. Mas não é. É uma parte muito legal dela. Mas não é a minha vida inteira”, assegura Fabiana, enfatizando mais uma vez que estar com sua família é prioridade. “Já viajei tanto por aí, fiz tantas coisas legais e não preciso mais provar nada. Não vou ficar me matando de trabalhar”, alega. A jornalista já esteve frente a frente com pessoas muito importantes do cenário brasileiro, como quando entrevistou Cid Moreira. “No começo eu tava meio nervosa. Mas depois de cinco minutos caiu a ficha que ele era mais um entrevistado apenas e aquilo fazia parte do meu trabalho”, revela. “Foi bem engraçado porque o Cid até brincou comigo dizendo que eu estava gordinha. E naquela época eu estava com dez quilos a menos do que tenho hoje”, brinca. Outra situação como essa aconteceu com o escritor e jornalista Fernando Morais. “Sou muito fã dele. Mas ele queria apenas divulgar o livro dele, assim como quero que as pessoas me entrevistem hoje para eu poder divulgar o meu livro. É gente normal como a gente, com suas dúvidas, anseios e necessidades”, reconhece Fabiana.

Falando em livro, ela acabou de lançar um, com o título: “Submissa? Todos têm um dono”. O livro é direcionado mais ao público

Fabiana e seu primeiro livro publicado

Fabiana e seu primeiro livro publicado

 feminino. Entre suspiros e sorrisos, Fabiana diz que está apaixonada pelo seu livro. “O livro é uma dor de parto, mas é a alegria de um filho. Quis muito fazer o livro porque todo mundo no fundo tem uma dificuldade para entender o que é submissão, tema do qual o livro trata. Todo mundo quer o bônus do cristianismo, mas ninguém quer o ônus. Você quer que esse Cristo te dê tudo, mas você não quer dar nada pra esse tal de Cristo”, acrescenta, mostrando-se feliz pelo sucesso do seu livro. Afinal, seis mil e quinhentos exemplares se esgotaram em 31 dias. “Foi uma vitória pessoal, porque fiz sem editora. Foi por conta própria. E isso é muito difícil. Só tenho as redes sociais pra divulgar e nenhuma editora para apoiar”, destaca. De acordo com Fabiana, esse livro é um projeto muito antigo, que dependeu de muita motivação do marido. “É muita exposição fazer um livro desses, que inclusive fala sobre sexo. Contar uma ficção é fácil, porque você se esconde atrás da história. Mas quando se escreve um livro onde o autor dá a cara à tapa é como andar pelado no meio da rua”, argumenta. Quando a jornalista disse que tem um capítulo sobre sexo em seu livro, confessou que gosta de falar sobre o assunto porque todas as pessoas fazem ou tem vontade de fazer sexo. No entanto, a maioria delas fica com vergonha de tocar no assunto. Com uma pausa na conversa, e toda a sua intimidade com entrevistas, dá uma leve olhadinha no gravador em cima da mesa pra ver se estava funcionando corretamente.

Como a própria Fabiana já havia dito no início da conversa e enfatizado por várias vezes, ela afirma que a parte mais importante da sua vida é a família. E no programa Feliz Sábado da TV Novo Tempo no qual participou como convidada juntamente com Rodrigo, ela reafirma isso. Naquele programa exibido, que pode ser encontrado facilmente no site do Youtube, como resposta a uma das perguntas do apresentador, mais uma vez ela disse que é jornalista apenas nas horas vagas. Voltando ao cenário do escritório na casa da família Bertotti, e em meio à conversa sobre a família, a esposa do Rodrigo diz que quando as pessoas estão super bem na profissão esquecem de todos ao redor. Mas quando tudo ficar mal e for mandado embora? “Nessa hora nem eu nem você vamos correr pra redação. Eu não tenho a menor dúvida do que escolher. Aliás, acho que nem chega a esse ponto de escolher. Assim como acredito que aconteça com as outras pessoas, eu corro pro meu marido, meus pais, irmãos. Eles é que são a minha vida. As outras pessoas estão comigo quando surpreendo elas, mas quando veem os defeitos, elas se afastam”, aponta. “E com a família não é assim. Eles me conhecem como eu sou e me aceitam do jeito que sou. Eu amo minha família, meu pai, meu marido, sou completamente apaixonada por eles. O melhor momento é estar junto com eles”, ressalta com um brilho nos olhos e um espírito de emoção.

Fabiana sempre foi a mais animada da família. Gosta de ser o centro das atenções. Desde pequena adora estar junto com a família. Ela é a mais velha de três filhos, a primogênita. Seu irmão do meio, Vagner, hoje, tem 25 anos e é programador proprietário de uma empresa de software. Já a caçula, Aline, tem 19 anos e estuda comunicação. Fabiana afirma se preocupar muito com os dois irmãos e com o que eles querem. Os pais, Dalva e Joaquim, atualmente moram em Itu (SP), mas Fabiana nasceu em Maetinga, na Bahia, em 1983. Contudo, na sua primeira certidão de nascimento aponta como local de nascimento Vitória da Conquista. Sim, ela possui mais de uma certidão de nascimento, como não é de costume. Na verdade, tem três, devido às mudanças no nome do local onde nasceu e seus subdistritos. A segunda se referia ao distrito de Presidente Jânio Quadros. E a terceira, que precisou retirar para casar, pois havia perdido novamente, já conta com o nome de Maetinga, por causa da emancipação do distrito, que hoje é município.

Sua família em Curitiba, Natal de 2006.

Sua família em Curitiba, Natal de 2006.

Filha de uma família muito pobre de imigrantes nordestinos, admira o esforço que os pais fizeram para ela e seus irmãos terem a oportunidade de estudar. “Saindo da Bahia viemos para São Paulo. Moramos algum tempo em Jundiaí e depois fomos para Itu. Mas a maior parte da minha vida foi em Itu”, destaca. Logo que terminou o ensino médio, prestou vestibular para Jornalismo e foi estudar no Unasp. “Na verdade eu fui influenciada a fazer Jornalismo pelo pastor da Igreja Adventista Evaldo Krahenbuhl. Quando eu tinha 13 anos , ele sempre me colocava para fazer os anúncios de comunicação da igreja minha igreja, e eu achava muito legal”, lembra-se, claramente. Mas Fabiana admite que cursar Jornalismo não foi sua primeira opção. Como era, e ainda é apaixonada por histórias, pensou em seguir a carreira de historiadora. Depois pensou em fazer Direito. “A minha vontade era de ser promotora pública para atacar os corruptos miseráveis”, expõe, com uma gargalhada maquiavélica. Como ela mesma diz, sempre foi muito justiceira. Entretanto, em meio às dúvidas sobre o futuro, percebeu que tudo que ela desejava se resumia no jornalismo, como investigação e a oportunidade de defender o próximo. Compreendendo isso, teve vontade de ir para um internato, mas o pai não concordou. Em seguida, desistindo da ideia do internato, disse ao pai que iria fazer Jornalismo na cidade de São Paulo. “Meu pai odiou a ideia de eu ir para a capital e resolveu me mandar para o internato. E foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Tudo que sou hoje e o que conquistei é devido ao que aprendi no Unasp. Não pela faculdade em si, mas pelo ambiente. Sou muito feliz e realizada por ter estudado aqui”, argumenta, apontando para a região em volta de sua casa, já que mora há poucos metros da instituição.

Por todo o período que estudou no Unasp teve a oportunidade de ser beneficiada com uma bolsa de estudos. Nos três primeiros anos, seu pai pagava uma parte da mensalidade e, a outra parte, Fabiana pagava com trabalho na instituição. Começou na cozinha, ajudando a preparar a comida para os outros alunos. Depois foi transferida para o Centro White, um museu dedicado a história da escritora americana Ellen G. White e da Igreja Adventista do Sétimo Dia. O local também é considerado um centro de pesquisa das obras da escritora White. “Meu pai ganhava bem na época, trabalhando como caminhoneiro e conseguia pagar o restante da minha mensalidade”, relata a jornalista. Contudo, quando estava no início do quarto ano da faculdade, o último ano do curso, ladrões roubaram o caminhão de seu pai e o mantiveram em cativeiro por dois dias. “Ele ficou no meio do mato lá perto de Piraporinha por dois dias, e depois foi libertado”, conta Fabiana cabisbaixa. O local a qual ela se refere fica nas redondezas de Diadema, São Paulo.

Com tudo que aconteceu, o medo, as ameaças de morte, o cativeiro, e o caminhão roubado, o pai de Fabiana entrou em depressão. E depois disso foi muito difícil ele se reerguer financeiramente. “Enquanto ele estava sequestrado a preocupação dele era arranjar meios de me ajudar a continuar os estudos. Ele perdeu tudo porque deixou de pagar o seguro do caminhão para pagar a minha faculdade. Na época, o seguro do caminhão era mais ou menos R$ 700, mas como começou a ter pouco serviço, ele teve que escolher entre pagar o seguro ou a faculdade. E escolheu meus estudos”, conta, repetindo várias vezes qual tinha sido a decisão do pai. Segundo ela, um caminhoneiro deixar de pagar o seguro do caminhão é algo impensável. Naquela ocasião, ele tinha um caminhão grande da Mercedes. Por isso, o orgulho que tem pelo pai salta das palavras que saem da sua boca. “Meu pai perdeu tudo. Se não fosse a questão do seguro, ele tinha sido sequestrado e roubado, mas ia ter outro caminhão. E talvez não tivesse ficado com depressão”, revela Fabiana, revoltada, porém emocionada, com a situação. “Nenhum elogio no mundo vale mais que o olhar do meu pai”, expõe, com a voz levemente trêmula. Sempre foi muito apertado, financeiramente, para Fabiana estudar, no entanto, era possível. Porém, com tudo o que aconteceu com o pai, ela teria que trancar o curso, pois ele não tinha mais nem um centavo, além de ele estar em crise de pânico. Fabiana também tinha colportado nas férias para ajudar nos estudos, um trabalho de vendas de literatura sobre saúde física, mental e espiritual. No entanto, nesse programa de férias, haviam roubado o dinheiro que ela tinha conseguido.

Dividia entre o drama do pai, a falta de dinheiro e a vontade de estudar, até porque só faltava mais um ano de faculdade, ela decidiu correr atrás de seus próprios interesses e arranjar um jeito de terminar o curso. “Teve gente que me disse para trancar a faculdade e voltar quando as coisas tivessem se ajeitado lá em casa. Eu disse que não. Tinha só 20 aninhos, podia muito bem voltar mais tarde. Mas eu queria valorizar o esforço dos meus pais, por isso corri atrás das coisas sozinha”, lembra. Fabiana foi a primeira da família a ter a oportunidade de cursar uma faculdade e não queria perder isso. Como ela tinha feito uma história dentro do Unasp, mostrando aos professores que queria muito ser jornalista e se destacava na faculdade e no trabalho, seu chefe na época, pastor Alberto Timm, diretor do Centro White naquele tempo, foi interceder ao pastor Paulo Martini, atual diretor geral da instituição, que havia recém chegado e não a conhecia, por uma bolsa de estudos integral para Fabiana. Com essa bolsa ela apenas trabalharia no Unasp e não precisaria pagar o restante da mensalidade. Benefício e privilégio concedido a poucos. O pastor Timm, um homem reconhecido na instituição e de boa índole, conseguiu a bolsa de estudos para Fabiana. “Fiquei muito feliz porque assim eu iria poder continuar meus estudos”, destaca.

Mesmo assim, aquele ano foi muito sofrido para ela. Como iria casar no fim daquele ano, precisava arranjar dinheiro para o casamento e a formatura. Por isso, mesmo trabalhando muito no Centro White, fazia uns freelancers sempre que possível, inclusive para um ex-professor, Rogério, que tinha uma agência de comunicação, na qual ela realizava trabalhos para completar a renda e comprar livros e outros acessórios. Entretanto, de acordo com a jornalista, esse período, caracterizado por ela mesma como ‘ralado’, foi muito gostoso, e afirma não lembrar com dor, mas com muito orgulho. “Tudo aquilo contribuiu pra mim e moldou quem eu sou. Nunca veio nada de graça pra mim. Sempre precisei batalhar. Você não consegue grandes méritos sem ter que fazer esforço. Existe um mal da geração Y (conhecida como a geração da Internet) de querer trabalhar pouco e ser promovido rápido. Todo mundo não quer fazer nada. É uma desgraça”, argumenta. Fabiana afirma ter sido criada na cultura ‘no pain, no gain’, que quer dizer que sem dor não há conquista. Devido a isso, tem muita dificuldade em dar alguma coisa para os outros, porque na sua concepção, se ela facilitar a vida para a pessoa, acredita que vai estar atrapalhando. “Por isso, quem me conhece sabe que sou uma chefe exigente, mas as pessoas que passaram por mim hoje são grandes profissionais. A vida fácil se torna difícil, mas quando a pessoa passa por uma vida dura ela se torna uma pessoa mais forte”, realça, reafirmando que não acredita em sucesso sem esforço.

Em relação ao estudo, sempre foi muito dedicada, mas confessa que não se interessava muito pela parte acadêmica, ou seja, as matérias teóricas da faculdade. Só fez porque tinha que fazer. Entretanto, o ensino superior foi um divisor de águas em sua família, pois Fabiana foi a primeira a ter uma educação superior. “Ser de uma família pobre e conseguir estudar já é um grande mérito. Agora, ser se uma família sem bagagem cultural, de pouca informação, no sentido acadêmico, e conseguir se destacar, não é por mim, me esforcei pelos meus pais”, afirma. Enquanto os olhos vão ficando avermelhados e cheios de brilho, ao lembrar tudo o que os pais fizeram por ela, a jornalista continua: “Imagina um retirante nordestino semianalfabeto, que não fez nem a quarta-série do fundamental. Ele mal sabe assinar o nome, e fez questão da filha fazer faculdade. Isso é muito grande. Eu tenho uma admiração muito grande pelo meu pai”, menciona, deixando escorregar uma lágrima no lado direito do rosto. “Todos os meus primos não tiveram esse acesso que eu tive. Meus outros tios não pensaram assim. Mas meu pai fez um esforço para todos os filhos estudarem. Mandar e manter uma filha na faculdade é o maior orgulho da vida dele”, reconhece. Sem mais conseguir segurar as lágrimas, de admiração e gratidão pelo esforço dos pais, e lembrando do sofrimento que a família passou, Fabiana revela que eles chegaram a passar fome em determinado período da vida. Devido a todo esse esforço da família, sua intenção é dar orgulho para o pai e a mãe, mostrando que valeu a pena investir nela. “Os meus pais são pessoas incríveis. Eu sempre soube disso”, assegura. “Pra mim, o ensino superior é mais do que uma educação formal ou acadêmica. É uma conquista de família. E por isso tinha muito valor pra mim ser a melhor aluna, a melhor profissional, e ser reconhecida por isso. Um valor maior do que a conquista acadêmica. Sempre batalhei para dar aos meus pais o orgulho de missão cumprida”, completa, tentando secar as lágrimas que, continuamente, caem do rosto.

Hoje, após muito esforço próprio e, principalmente, dos pais, Fabiana Bertotti é uma profissional de destaque no mundo do jornalismo. Mesmo em meio a dificuldade financeira e emocional na época, obteve sucesso, e isso aconteceu justamente por causa do empenho em retribuir aos pais tudo o que eles fizeram por ela. Com admiração pela relação com sua família, conta que quer ser mãe, e acredita que 30 anos, idade que vai completar em 2013, é uma boa idade para ter filhos. Contudo, precisa conciliar a agenda para dar o valor que os filhos merecem. “O que a gente deixa nessa vida são os laços de sangue, amor e afeto. O resto tudo muda. A cadeira muda, o chefe muda, conquistas se perdem, salários se vão… Mas família é para sempre”, salienta. Com o tom de voz voltando ao normal, após muitas lembranças que lhe causam emoção, dá risada ao falar que ela e o marido já escolheram nome para seis filhos. “Meu marido quer muito ter uma menina, ele até já criou um Twitter pra ela com o nome de @CescaBertotti. Mas eu gosto muito de menino também. Quero ter uma família grande, a casa cheia e bagunçada. Temos nome pra seis filhos, mas quero apenas quatro”, constata eufórica com o assunto e gesticulando com mais intensidade. O núcleo familiar da jornalista é pequeno, apenas ela e dois irmãos, mas ambas as avós tiveram 14 filhos cada.

Como ela e o marido são fascinados por livros, os futuros filhos já tem até uma biblioteca infantil, com livros para criança em português, inglês, espanhol e italiano, para que eles saibam os mesmos idiomas que ela sabe. “Meus filhos não tem roupas nem calçados, mas tem um biblioteca”, confessa ao cair na gargalhada, apontando para várias literaturas infantis, na estante de cima da sua escrivaninha, no lado direito e do lado esquerdo, fora os que estão guardados no armário do escritório. Orgulhosa, conta que a biblioteca infantil não é só de historinhas, mas também de cultural geral, inclusive composta pela obra completa de Shakespeare numa linguagem para crianças, que ela comprou na Inglaterra.

A mulher do Rodrigo, filha de Dalva e Joaquim, irmã mais velha do Vagner e da Aline, e futura mãe de quatro filhos, ocupa seu tempo livre sendo jornalista por aí, como ela mesma diz. “Sou jornalista apenas nas horas vagas. Em momento integral sou membro de uma família na qual tenho orgulho de fazer parte”, alega, com outro sorriso no rosto, de orelha a orelha.

17 comments

  • Bonita historia fabi , muito bom ler. Estou fazendo um estudo sobre pessoas bem sucedida e fracassadas, entre as bem sucedidas escolhi você e Flávio Augusto da Silva. Está sendo maravilhoso descobrir mais de você e sobre sua família. Isso é sucesso, ter uma ”bandeira” e ser fiel a ela! fique com Deus.

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  • Menina o guri escreveu muito,deu ora cansar de ler rs. Quem diria Fábio minha Chara tu com essa cara de pati se de origem humilde, linda história foi bom conhecer um pouco mais sobre sua vida bjos no coração flor.

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  • Nossa, que história! Não tem como não chorar. Que Deus continue te abençoando. Você é uma grande jornalista, que me serve de referência. Você é o que um jornalista deve ser. Parabéns!

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  • Que história lindaa! Emocionante e valiosa.
    Deus continue te abençoando. (Bom saber que você é baiana e que gosta de livros de investigação 😀 ) Beijos linda!!

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  • A Fabiana Bertoti foi aos poucos me conquistando; na verdade eu a achava meio “desenfreada” no palavreado, até que percebi que “eu” é que tinha uma” viseira e freios de cavalo” que me impediam de avançar,aprender e ser bem mais feliz, desfrutando de tudo quanto, a Fabiana, inspirada por Deus tem a nos ensinar e motivar. Agora, não passo um dia sequer sem a “Fabi”. Que Deus a abençoe neste ministério.

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  • Me emocionei em vários momentos durante a leitura… Sua história é linda e vitoriosa!
    Passo por adversidades parecidas pra poder concluir meus estudos, mas me mantenho firme. Sua história me encoraja a continuar…
    Tenho seus livros, e te tenho como referência. Obrigada por ser essa luz pro mundo!

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  • Lindo Fabiana, seus valores, sua história inspiram aqueles que estão atentos e dispostos a buscar o novo, a buscar bons exemplos. Parabéns. Ameiii, que Deus abençoe sua vida a cada dia, e que você continue crescendo e voando alto.

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  • Que história inspiradora!
    Fabi parabéns por ser essa pessoa tão especial, que Deus continue abençoando sua vida e guiando seus passos. Muitas vezes reclamamos de coisas pequenas e não percebemos que tudo aquilo que acontece, está moldando nosso caráter, está nos transformando em quem seremos no futuro.
    Admiro muito você, sua família, sua vida como um todo, tanto no aspecto pessoal, como profissional e espiritual. Espero que Deus me ajude a ter pelo menos um pouco das qualidades que tanto admiro em você!
    Abraço
    “O Senhor te abençoe e te guarde;
    O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti;
    O Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz.”

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    • Amém! Obrigada Elô por palavras tão gentis e sim, as dificuldades são limões da vida e nós decidimos se vamos azedar a cara ou fazer limonadas com eles. Beijocas

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  • Fabiana, vi uma vez apenas uma foto de seu vídeo, senti vontade de assistir, mais por motivos de “internet lenta” o vídeo no Facebook não carregou. Alguns minutos mais tarde, meu namorado enviou um vídeo do Youtube, não me lembro ao certo qual foi, mais sei que me apaixonei pelo seu modo de falar sobre tabus na sociedade, sua visão sobre o cristianismo, e em como em tudo ele está banalizado, mostrando, principalmente a nós mulheres como nos comportar a margem da Palavra de Deus. Posso dizer que hoje, que seus ensinamentos só estão complementando em minha vida cristã. Você é um canal de benção para minha vida, posso já dizer que te amo em Cristo, e que seria um prazer poder assistir a uma de suas palestras, não importando qual tema seja. Sua vida é um exemplo de foco, determinação e fé, um exemplo para muitos e para essa geração atualmente. Que Deus continue abençoando sua vida grandemente, seu ministério, sua família linda, e em todas as áreas sua vida seja abundante na presença de Deus. Um abraço querida!!!

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    • Ci, sua linda! Obrigada por tanto carinho. Este é meu trabalho, inspirar, motivar e apontar para quem é a fonte do amor, nosso Pai. Que bom que te tocou. E quem sabe nos encontramos numa destas palestras da vida, né?! beijocas

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  • Parabéns!
    Sua historia é muito linda, com certeza recompensa de Deus na sua vida.
    Que Deus continue te abençoando e sendo seu foco!
    Sua historia me inspirou e me relembrou que eu sou antes de tudo esposa em tempo integral.

    Obrigada!

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