Vício em comprar

Vício em comprar

Ela olha, cobiça, olha de novo. Entra, pergunta o preço, passa a mão, segura, pergunta se não dá pra fazer um desconto. O vendedor a conhece e sabe que se trata de uma cliente boa, daquelas que aparecem até duas ou três vezes por semana e facilita com míseros 5% de desconto. Era o estímulo que faltava, mesmo que em sua mente a compra já estivesse decidida. Ao chegar em casa, esconde o novo aparelho de jantar dos filhos, pois é só mais um entre muitos que tem e não usa. Com 63 anos Maria (pediu para trocar o nome, pois tem vergonha) já descobriu que não é normal sua compulsão por comprar, da maneira mais traumática, diga-se.

Morando no centro da cidade, é cliente antiga de todas as lojas e farmácias da redondeza. Compra móveis, roupas, eletrodomésticos e perfumaria com voracidade, corroendo a aposentadoria que o marido deixou. “Não consigo evitar. Vejo e acho que é a coisa mais necessária do mundo, mas quando chego em casa nem uso, fica fechado até dar para alguém de presente, por falta de espaço”. Com os olhos rasos d’água ela confessa que não se sente bem assim, pois os filhos acabam tendo que ajudar com o cartão de crédito que está além dos limites. “Mas agora não posso pedir de novo, pois fiz um novo cartão escondido e eles até já venderam meu carro para pagar contas”, admite envergonhada.

blog_víciocomprar2Comprar coisas sem necessidade, ter culpa, vergonha, esconder as aquisições e não conseguir se controlar diante da compra são características da oneomania ou vício em comprar e tem se intensificado nos últimos anos. Não é considerada doença pela Organização Mundial de Saúde, mas um dos transtornos do impulso, reconhecido pela Sociedade Brasileira de Psiquiatria. Assim como o vício em jogos ou drogas, a dependência do consumo – e isto pode ser de coisas caras até as mais insignificantes – causa problemas para a saúde e a vida de quem sofre e precisa de tratamento. Foi descrita pelo psiquiatra alemão Emil Kraeplin em 1909 e já é conhecida desde o século passado, embora não muito difundida.

Tudo bem que em tempos de consumismo exacerbado e grandes ofertas o tempo todo é até previsível que as pessoas não reconheçam o problema até se afundar em dívidas e começar a ter problemas no casamento ou no trabalho. Sem falar que como em qualquer outro transtorno, demora-se a reconhecer o problema e buscar orientação. A psicóloga Karina Lira explica que “o comprar compulsivo vem como uma resposta a um mal-estar que pode ser angústia, ansiedade e se mostra a forma de alívio. Se evita a compra é comum o suar frio, ter dores de estômago ou cabeça”. A especialista explica ainda que há uma sensação boa, pela descarga anormal de dopamina no cérebro ao entrar numa loja e se deparar com o objeto do desejo. Esta substância é justamente a responsável pela sensação de prazer e euforia, mas cai rapidinho, geralmente logo após a compra.

Pesquisas apontam que a cada 10 oneomaníacos, 8 são mulheres e antes que você leitor do sexo masculino pense: “eu já sabia”, é melhor se segurar. “Existem muitas discordâncias quanto à este dado, pois como em qualquer outro transtorno é sabido que as mulheres buscam mais ajuda, diferentes dos homens que resistem, inclusive a reconhecer o problema”, pondera Karina. Ou seja, muitos homens podem estar sofrendo com o problema sem saber. Um exemplo é o enfermeiro Jorge Amaral que mora em Maetinga, Bahia. “Outro dia eu cismei que precisava comprar um martelo e fui à loja de ferragens. Por garantia comprei logo dois, mas no outro dia fiquei pensando que seria melhor ter um cabo reserva para cada um e no final das contas acabei comprando 3 reservas”, conta envergonhado o pai de família que nem sequer usou o martelo! A esposa de Amaral vive reclamando com o marido e ele sofre quando constata que caiu na tentação de novo. “Outro dia vi uma promoção e comprei dois aparelhos de DVD, mas eu já tenho um em casa. Tenho dívidas e meu cartão está estourado, mas simplesmente não consigo resistir, chego a passar mal de vontade de comprar”, descreve.

O excesso de oferta de crédito e a publicidade cada vez mais profissional e letal são apontadas pelos blog_víciocomprar3especialistas como estopins para o gatilho da compulsão que também recebe o nome de shopaholic nos consultórios. “Consumir é algo que a sociedade vê de forma positiva e somos todos estimulados a comprar. As pessoas trabalham cada vez mais para comprar coisas que impressionem os outros ou os faça sentir superiores, ou seja, é uma anestesia emocional para resolver tristeza, ansiedade e problemas de autoestima”, explica Tatiana Filomensky, coordenadora do grupo de tratamento dos transtornos do impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Justamente por ser tão comum saber de pessoas endividadas, não se presta tanta atenção aos sintomas e à gravidade deste transtorno, mas além do problema bancário a oneomania pode esconder sérios problemas psíquicos que precisam de tratamento e ceder às compras só alimenta o círculo vicioso. Estima-se que quase 2% da população mundial sofra com o problema, mas por falta de informação e lentidão em buscar ajuda, o número pode mesmo é ser bem maior. Pensando neste público o hospital da Universidade de Erlangen, na Alemanha, criou um grupo de apoio para o tratamento dos compradores compulsivos e quase metade de um grupo de 60 pacientes tratados conseguiu controlar a compulsão excessiva para compras, mesmo seis meses após o fim do tratamento.

No Brasil é possível buscar ajuda médica no Hospital das Clínicas de São Paulo, gratuitamente ou procurar um dos grupos dos Devedores Anônimos, grupo de auto ajuda nos moldes do AA, que surgiu na década de 1960 nos Estados Unidos. Segundo o site da associação são mais de 500 grupos de apoio espalhados em 18 países para ajudar pessoas que não conseguem controlar seus impulsos quando o assunto é dinheiro. No Brasil eles atuam em 10 grupos espalhados por quatro Estados e atendem bem a necessidade de quem compra sem parar. Vale reforçar que muitas destas pessoas se endividam sem a menor necessidade real, haja vista que uma pesquisa com 6 mil inadimplentes feita pela Associação Nacional de Defesa dos Consumidores do Sistema Financeiro (Andif) mostrou que 30% deles se endividaram com itens supérfluos. Por isto o cartão de crédito e cheque são um perigo na mão destas pessoas que já apresentam os primeiros sinais da compulsão ainda inda adolescência.

Os pais, aliás, devem cuidar com os pequenos que absorvem logo cedo o que se passa com os adultos e podem copiar este comportamento doentio por vários fatores: pais que são ausentes e compensam as carências dos filhos com presentes, ensinando um modelo de ação que será seguido na vida adulta sempre que a pessoa se sentir carente. Além disso, ao observar os pais comprando sem parar a criança absorve que este é o normal do comportamento humano e passa a crer que o mais importante é mesmo ter do que ser e que este é meio natural de buscar alívio. E não é.

Sair comprando desesperadamente tudo o que se encontra para aliviar a tensão ou uma tristeza pode te levar a mais problemas do que aqueles que pensa em resolver abrindo a carteira. Fique de olho: tem muitas roupas e sapatos que nem usa, sua casa é cheia de apetrechos que nem sabe porque comprou? O cônjuge ou filhos vivem dizendo que você gasta demais? O salário mal dá conta de tanta despesa ou sofre quando cisma de comprar alguma coisa? Procure ajuda, pois você pode ser vítima deste transtorno. Comprar de forma saudável e o que se precisa é uma coisa, gastar o dinheiro que se ganha com tanto esforço para resolver problemas emocionais é outra e um péssimo negócio, diga-se de passagem.

Preste atenção!

O comprar compulsivo pode estar relacionado também a sensações de inferioridade e numa sociedade que dá grande ênfase ao ter em detrimento do ser as pessoas são induzidas a pensar que o valor delas está associado ao seu poder de compra ou às coisas que possui. Um exemplo é uma mulher que não gosta da sua própria imagem e gasta desenfreadamente em roupas, beleza ou sapatos para sentir-se bonita ou conseguir melhores posições no trabalho. Geralmente o problema está relacionado com ansiedade, angústia ou imagem distorcida de si mesmo. Da mesma forma que um copo d’água não enche um balde, uma geladeira nova não traz um ente querido que se foi e as dívidas podem tornar o sofrimento e da perda ainda maiores.

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Dicas para controlar a compulsão por comprar
1 – Quebre cartões de crédito e rasgue cheques. Faça compras somente com dinheiro vivo e nunca parcele.
2 – Peça ajuda para um amigo ou parente e os busque quando bater a vontade de dar uma voltinha no shopping.
3 – Procure um profissional para averiguar a causa desta compulsão. Muitas vezes uma rejeição, ainda que na infância, pode ser a causa de tanto comprar.
4 – Se gostou de algum coisa na vitrine, nunca compre na hora, pense que pode voltar outro dia e avalie melhor o impacto daquele gasto.
5 – Desenvolva hábitos que não te levem a centros de compras como encontrar com os amigos em casa ou ler um livro.
6 – Anote tudo o que você gasta e faça uma lista com coisas que realmente precisa antes de sair de casa para comprar.
7 – Fuja de lojas com a palavra liquidação na porta.

 

Até gravei um vlog sobre o assunto, tempos atrás…

 

E aí, conhece alguém que só fica feliz se estiver comprando? Compartilhe esta reportagem com esta pessoa.

3 comments

  • O Instituto de Psiquiatria do HCFMUSP busca pessoas de 21 a 60 anos, que apresentam compulsão/descontrole por compras (oniomania), para participar de estudo. Para os selecionados, serão oferecidos tratamentos médico, medicamentoso e psicoterápico.

    Oniomania ou Compras Compulsivas é caracterizado por:

    * Preocupação excessiva e perda de controle sobre o ato de comprar.
    * Aumento progressivo do volume de compras.
    * Tentativas frustradas de reduzir ou controlar as compras.
    * Comprar para lidar com a angústia, ou outra emoção negativa.
    * Mentiras para encobrir o descontrole com compras.
    * Prejuízos nos âmbitos social, profissional e familiar.
    * Problemas financeiros causados por compras.

    Os interessados deverão entrar em contato pelo telefone do Pro-AMITI (11) 2661-7805 ou enviar um e-mail com telefone de contato para compradorescompulsivos.hc@gmail.com

    Site:www.amiti.com.br
    https://www.facebook.com/hospitaldasclinicasdafmusp/photos/a.1398287123773264.1073741828.1391979501070693/1587938034808171/?type=1&theater

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  • Olá Fabi, desse assunto eu entendo, já sofri muito com compras compulsivas, fiz muitas dívidas, meu marido me ajudou 2 vezes fazendo empréstimos pra pagar minhas contas, na terceira ele falou “não, você vai ter que aprender a lição, se vira”. Devendo em todas as lojas da cidade, com contas atrasadas e as cobranças batendo na porta, apelei pra Deus. “Senhor me ajuda eu não quero ser assim e envergonhar o teu nome”. Uma irmã me disse “antes de sair de casa, peça pra Deus fechar os seus olhos pra não vê coisas que você não precisa”. Pedi e deu super certo, de repente entrava nas loja e simplesmente não me agradava de nada. Deus é sempre a melhor saída. Li muito tutoriais sobre o assunto e a dica 4, de não comprar as coisas na primeira olhada deu certo pra mim. Passava na loja um dia, e pensava “melhor esperar pra amanhã, se ainda achar que preciso, compro”, no outro dia a roupa nem me atraia mais. Mentalizar “eu realmente preciso disso?” é muito bom, na maioria das vezes você constatará que não precisa. Hoje graças a Deus estou muito bem, não me considero mais compradora compulsiva.

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  • Fabiii Amo seus videos e estou agora acompanhado os artigos, vc é 10 menina.
    Esse artigo escreve direitinha uma prima minha até mandei para ela rss.
    Não sei se você fez video sobre o assunto de quando um jovem perde a virgindade e agora quer esperar pela pessoa certa e tudo, queria que fizesse, dando dicas de como esperar mesmo depois de não ter esperado rs, tipo dicas de destração para não ficar só pensar em se casar e matar o desejo de fazer sexo.
    gostaria de ouvi vc falando sobre esse assunto, dar sua opinião.

    bjocas, te Adimiro e tem edificado minha vida. :*
    Que Deus lhe abençoe sempre!

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