Vida com expectativa

Vida com expectativa

Enquanto ouço no rádio do carro sobre o aumento da expectativa de vida da população mundial, penso em como seria uma vida de expectativa real. É que o tempo anda escapando de nossas mãos enquanto nossa mente se distrai com tantas atenções. Houve um tempo em que o próprio tempo valia menos, pois não eram tantas as implicações. Hoje, quando ele mais vale, parece que lhe damos menos valor, ainda que o discurso seja em contrário.

Não é devaneio bobo, não é constatação. Falo por mim. Quando olho minha agenda cheia de marcações com nenhum dia livre para simplesmente viver, me sinto escrava de um sistema que me impõe um ritmo que de fato não é o que quero seguir. E o que é viver, afinal? Trabalhar e ficar conectado? Esta é uma discussão mais ampla – e eu ainda a farei aqui – mas queria que você considerasse uma coisinha mais simples hoje.

Há alguns anos estive no Malawi e desde então tenho matutado com esta coisa do tempo, do valor do tempo, do tempo de valor. Lá as pessoas vivem menos, por causa da AIDS e pobreza a expectativa de vida gira em torno dos 40 anos. Praticamente metade do que se vive aqui no Brasil. O trabalho é focado no alimento do hoje, no máximo amanhã. Os planos não existem, pois a sobrevivência não é assegurada a ninguém. É tudo muito no stand by, no raso, na superfície. O tempo é algo que se aproveita agora, por enquanto, sem grandes expectativas.

Parece até triste, mas não é exatamente assim quando você está lá e se depara com sorrisos, com gente prestando a atenção a você com danças e cânticos alegres e aquelas cores todas da natureza exuberante. Elas curtem suas famílias, pois amanhã podem não mais tê-la. Daí eu cruzo o oceano e chego num país supostamente rico, onde se vive mais e os recursos não faltam. Onde a AIDS não é um fantasma que assombra e as vacinas deram conta de boa parte das mazelas sociais e que diferença vejo!

Não é um elogio à nossa sociedade não, é o oposto disto. Nós nos transformamos em meros consumidores de tudo que tenha alguma etiqueta famosa e cara, vivemos num mundinho virtual onde o que conta é o perfil perfeito que se trata de mostrar e não a realidade e profundidade de relações reais e tangíveis. Meninos e meninas que crescem em shoppings e em frente às telas, homens que mulheres que se isolam e suprem necessidades emocionais despejando no Facebook o que uma boa conversa daria conta de solver.
Aí eu sigo ouvindo as notícias da expectativa de vida, pensando no Malawi e em sua vida sem expectativa. Igual a nossa aqui.

Vivemos mais em quantidade de anos, mas e se somasse tudo o que você vive de real, será que seria mais que o povo do Malawi? Acho que não…

 

Artigo originalmente postado no site oficial da Igreja Adventista www.adventistas.org

3 comments

  • Fabiana,

    Conheci seu blog hoje e estou gostando muito! Li 3 textos e me identifiquei com os 3. A humanidade está afundando sem perceber. Valores morais, vida simples e com equilíbrio e consumo consciente são coisas em extinção.

    Agora sobre esse texto:
    Quanto tempo perdemos com coisas inúteis….
    Se hoje fosse o último dia de nossas vidas, será que estaríamos satisfeitos com a maneira como usamos nosso tempo? Será que existiu Vida de verdade ou foi apenas o acúmulo de anos? As pessoas que amamos receberam a atenção e o carinho que gostaríamos de dar, ou estávamos muito ocupados com outras coisas “mais importantes”?

    Escrevi um texto que tem uma certa relação com o seu:
    http://simplicidadeeharmonia.blogspot.com.br/2013/09/o-ultimo-abraco.html

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  • Já ouvi falar que a realidade mesmo é o tempo presente, o agora. Reza a lenda que se “lavarmos os pratos enquanto lavamos os pratos“, focados apenas nisso – lavar os pratos – vivemos a realidade plena e pura. Vivemos de verdade. Já ouvi dizer também que o único tempo que realmente existe é o agora, o momento em que você está lendo essas linhas. O ontem e o amanhã simplesmente não existem. Um já passou e o outro ainda vai chegar. Esses são os dois tempos em que é absolutamente impossível fazer qualquer coisa. Só no hoje, no “agora” é que tudo existe e acontece de fato. Como o pessoal do Malawi faz.

    Duas das doenças mentais mais comuns hoje, a depressão e a ansiedade, também têm a ver com o tempo: Depressão é excesso de passado em nossas mentes. Ansiedade é excesso de futuro. Ou seja, perdemos tempo “vivendo” em “tempos inexistentes”, a ponto de ficarmos doentes e precisarmos tomar antidepressivos e ansiolíticos. E isso atrapalha a nossa experiência presente que é a chave para transformar tudo de fato.

    “Enquanto estiver lavando os pratos, deveríamos apenas lavar os pratos, o que quer dizer que enquanto lavamos os pratos deveríamos estar completamente conscientes do fato que estamos lavando os pratos. Parece meio bobo assim à primeira vista: porque dar tanta preocupação para uma coisa simples? Esse é exatamente o ponto. O fato que eu estou lá em pé lavando aqueles pratos é uma realidade incrível. Estou sendo completamente quem sou, seguindo minha respiração, consciente da minha presença, e consciente dos meus pensamentos e ações. Não há como ser lançado dali inconsciente como se fosse uma garrafa batendo nas ondas aqui e ali.”

    “Se enquanto estivermos lavando os pratos pensarmos somente na xícara de chá que nos espera, assim apressando a lavação dos pratos que eu possa me livrar deles como se fossem um transtorno, então não estamos “lavando os pratos para lavar os pratos”. Mais que isso, não estamos nem vivos durante o tempo que estamos lavando os pratos. Na verdade, estamos completamente incapacitados de perceber o milagre da vida enquanto estamos ali na pia. Se não conseguimos lavar os pratos, há grandes chances de não conseguirmos tomar nossa xícara de chá também. Enquanto tivermos bebendo o chá, estamos pensando em outras coisas, dificilmente conscientes da xícara em nossas mãos. Assim somos sugados para o futuro – e incapazes de viver sequer um único minuto de vida.” – Thich Nhat Hanh, em “O Milagre da Atenção Plena” (O cara é um monge budista mas calma, isso o que ele escreveu em particular faz sentido. Acredite em mim. Faz sim).

    Poucos, pouquíssimos conseguem isso. Poucos têm tal poder, tal controle sobre a própria mente e os pensamentos.

    “Estamos na obrigação de controlar nossos pensamentos e levá-los em sujeição à lei de Deus.” (EGW)

    A Bíblia ensina como nos livrar da depressão (“excesso de passado”) em muitos textos (como Isaías 43:25, Salmos 147:3, etc.) e da ansiedade (“excesso de futuro”) em Mateus 6:25-34 e Apocalipse 21:4, por exemplo).

    E o hino “Conta as Bênçãos” (n. 244 do hinário) resume bem de forma primorosa o cuidado compassivo de Deus sobre o nosso passado, presente e futuro.

    Para fazer tudo isso é preciso que estejamos exatamente aqui e agora, E confiar em Cristo. Ele é quem deve cuidar dos nossos “tempos inexistentes” (passado e futuro ). O presente nós assumimos com a ajuda dEle, enquanto “lavamos os pratos para lavar os pratos”.

    Mas como sempre a teoria uma é coisa. A agora a prática… “Facin, facin” né? rs.

    Saudades de tu, chuchu. Bjão. 😉

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