Viramos coisas?

Viramos coisas?

O que acontece, afinal, que tudo dura muito pouco? Na casa da minha mãe nós usamos um espremedor de laranjas de plástico que ela comprou pra fazer suquinhos pra mim, há 28 anos! Está com um arranhão aqui, outro ali, mas bem conservado. É de um plástico bom, como não se vê mais hoje em dia. Lembrei deste objeto ao contemplar minha velha TV de tubo – é, daquelas grandonas mesmo – e ponderar a possibilidade de comprar uma destas fininhas, modernas. Tem até o tal LED, né?!

Mas trocar pra quê? A minha funciona muito bem, vale dizer, junto com o aparelho de DVD que está comemorando sete anos (daqueles pequenos que parecem mais um disck man, alguém se lembra?). Os dois são um tanto antigos, mas estão em pleno funcionamento e depois de invejar os amigos e vizinhos que têm tudo da última moda fiquei pensando nesta neura de trocar tudo o tempo todo. Tem gente que leva tão a sério que já troca marido e mulher também, conforme as tendências.

É assustador, gente. Sem falar na pressão social para que você fique comprando coisas novas: carro, móveis, eletrônicos e eletrodomésticos. Sem falar nas roupas e sapatos. A questão não é comprar coisas novas, me entendam. É descartar o que ainda funciona e serve muito bem para as nossas necessidades por outras que nos impõem. Nenhum problema em comprar um novo sapato – que adoro, aliás – mas pra que se nem dou conta de usar todos os do armário? Insano. As empresas já trabalham com a obsolescência programada, ou seja, o produto já é lançado com data pra morrer e dar lugar a outro. Bem rapidinho, diga-se.

Falam que é a sociedade do descartável e que estes valores, trazidos com a era do plástico, coisificou as relações interpessoais. Não sei se toda a teoria tem sentido, mas não quero me sentir escrava de um consumo exacerbado, ansiosa por consumir a última novidade, nem me sentindo menor, inferior, por não ter a tal TV fininha e que quase serve cafezinho. Não quero e não vou. Acho que vou espremer umas laranjas no velho espremedor que comemora comigo aniversário e depois ver um DVD nos meus aparelhos parceiros que estão comigo há tanto tempo. Não quero virar “coisa” também. Vá que alguém se empolga e me ache velha e descartável. Credo!

1 comment

  • Não viramos coisas, mas aquele que viveu faz das coisas que ainda existem, a lembrança doce das pessoas que foram. Mas as pessoas que não viveram, pessoas que existem, são apenas números nas estatísticas consumistas, não tem sentimento da história da sua vida, e como são passageiros, sua mente pensa de forma passageira. Ou seja aquele que vive, ama quem vive. E aquele que apenas existe, existe como um carro ou uma geladeira. Eu não aceitarei apenas existir, mas viver cada momento e aproveitar cada migalha de sentimento, desde o maior amor, até a maior tristeza, pois viver é sentir, aquele que tem medo de sentir, é como um objeto que não sente.

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